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Esquecidos do Cassino: A ONG que muda o mar do Brasil

Fundado por estudantes de graduação da Faculdade de Oceanografia da FURG, o Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA) é a ONG mais subestimada do ambientalismo brasileiro

15 de fevereiro de 2022
  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

Na esquina de uma das irregulares ruas de areia do Balneário do Cassino, uma espécie de filho bonito da feia cidade de Rio Grande à qual pertence, uma casinha amarela despretensiosa abriga um aparelho subversivo. Ali, jovens e velhos conspiram atentados contra o sistema, coisa que fazem – os velhos, aliás, desde quando eram jovens – há quase 37 anos. E, como um vírus no computador da burocracia e do marasmo brasileiros, mudam o rumo do país sem serem nem detectados. Tudo bem que às vezes lhes falta apoio por tanta discrição, mas nunca lhes faltam resultados. 

Fundado por estudantes dos primeiros ciclos de graduação da Faculdade de Oceanografia da Fundação Universidade de Rio Grande, o Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental – NEMA é provavelmente a organização não-governamental mais subestimada do ambientalismo brasileiro. Não deveria: dela saíram presidentes do IBAMA e Diretores do ICMBio e MMA, Unidades de Conservação costeiras e marinhas, chefes de Parques Nacionais, pesquisadores de padrão internacional e programas de conservação da fauna de enorme relevância, como o Pinípedes do Sul. E, claro, o Projeto Un Solo Mar, sobre cujas atividades ando escrevendo aqui nestes dias. Mas o perfil discreto de seus integrantes não permitiu até agora que esse trabalho fosse reconhecido fora dos restritos círculos que participam diretamente de suas atividades e programas. 

É assim que tenho dificuldade de catar o Diretor Executivo do NEMA, Sergio Estima, para falar sobre oportunidades potenciais de apoio financeiro para assegurar o futuro dessa instituição que, mais do que qualquer outra, moldou os rumos da conservação marinha no Brasil a partir da diáspora dos seus integrantes para outras ONGs, projetos e postos governamentais. Sergio está animado demais com nossa visita ao Refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste, no Município de São José do Norte, que protege uma das únicas duas áreas de descanso de leões-marinhos no Brasil (a outra é o REVIS Ilha dos Lobos, mais ao norte na costa gaúcha) e em nos mostrar os raros golfinhos Tursiops gephyreus do estuário da Lagoa dos Patos, em cuja conservação eles também têm uma parte. Eu tento voltar ao assunto um par de dias depois com o Dr. Kleber Grubel da Silva, que entre muitas outras atividades coordena o Projeto Un Solo Mar no NEMA, mas ele está ocupado demais com a logística da Expedição Tesouros do Albardão, na qual participam também o Instituto Baleia Jubarte e a Organización para Conservación de Cetáceos do Uruguai. Parece que os ambientalistas que fazem mais pela Natureza brasileira são os que têm menos tempo para pensar em reconhecimento e em de onde virá o recurso para continuar suas ações. Bom, quem tem 37 anos operando assim com sucesso não precisa de conselhos. Mas mereceria, sim, bem mais apoio.

No Chuí, os mergulhadores do Instituto Baleia Jubarte fazem as últimas checagens no equipamento. Foto: José Truda Palazzo, Jr/Instituto Baleia Jubarte.

Às margens do Arroio Chuí, contemplando o Uruguai do outro lado e a barra com ondas assustadoras nesta segunda-feira, minha preocupação com o futuro do NEMA dá lugar à excitação do teste de equipamentos para os mergulhos que a Expedição tentará esta semana nos parcéis do proposto Parque Nacional do Albardão. Essas áreas de fundos consolidados são verdadeiros atratores de vida marinha, abrigando nada menos que 17 espécies de tubarões e raias constantes da lista oficial de espécies brasileiras ameaçadas de extinção. São área de vida da pequena toninha, o golfinho endêmico da costa atlântica sul-americana, também ameaçado pela captura em redes de pesca, e região de alimentação de distintas espécies de tartarugas-marinhas. São criadouros de biodiversidade desprotegidos, e mais uma vez o NEMA lidera os esforços para que sejam valorizados e preservados. 

Mas as dificuldades são muitas. De nossa equipe, para conseguir uma janela de bom tempo que permita os mergulhos, nunca antes tentados nesta região distante, de mar agitado, correntoso e turvado por sedimentos. E do projeto em si, para que uma proposta de criação de uma Unidade de Conservação avance nas atuais condições políticas, bem conhecidas de todos que lidam com a política ambiental nacional. Mas desistir? Nunca. Sergio Estima oferece um tom otimista para o futuro do Albardão: “Nós acreditamos muito nas Unidades de Conservação como ferramenta, e com essa coalizão de ONGs que temos, podemos criar corredores protegidos no Brasil e Uruguai, com uma grande força que vem da sociedade civil”. Ou como resume o Dr. Kleber Grubel, “Não é nosso papel nos determos ante as dificuldades: devemos avançar passo a passo, fazendo o necessário convencimento, criando condições para que a proposta caminhe, leve o tempo que levar, mas sem ficarmos parados.”

No refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste, leões-marinhos machos repousam. Foto: José Truda Palazzo, Jr/Instituto Baleia Jubarte.

Parados não estamos mesmo. Os mergulhadores voltam da checagem de equipamentos na água do Arroio Chuí preparados para as condições de água fria e suja que deverão encontrar a partir de amanhã no mar aberto. Em paralelo, uma equipe visitará os limites propostos para o novo Parque Nacional em terra, conferindo dados, registrando fauna e flora, discutindo estratégias para avançar. Tudo isso tem a impressão digital desse tal de NEMA que, sem alarde, fez mais pelo mar e costa brasileiros que muita mega-ONG gringa cheia de marra. E se há uma vergonha imensa em tudo isso é que o NEMA ainda não tenha um patrocínio vultoso de longo prazo, não para um projeto, mas para continuar sendo uma usina de cidadania marinha, de conservação na prática, de disseminar projetos e gentes que mudam o mundo.

E lá fora, indiferente às nossas histórias e receios, o mar do Albardão nos espera. 

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