Para alcançar o oceano que queremos, precisamos de uma ciência que seja mais inclusiva e diversa. Mais do que reconhecer excelência acadêmica, valorizar mulheres inspiradoras é fortalecer novos modelos de referência para as próximas gerações e promover as transformações necessárias. Mas o que faz de alguém uma inspiração?
As profissões relacionadas ao mar foram, por muito tempo, retratadas como espaços predominantemente masculinos. Seja na pesca, no serviço militar, nas atividades marítimas ou na ciência, a atuação das mulheres historicamente foi invisibilizada, enquanto sua entrada e permanência nesses ambientes enfrentaram barreiras estruturais históricas. Felizmente, a presença das mulheres nesses espaços tem sido, cada vez mais, reconhecida, valorizada e divulgada.
Pela primeira vez, a Avaliação Mundial do Oceano (World Ocean Assessment III) traz um capítulo de gênero, uma base para acompanhar a evolução do tema nas próximas avaliações. Registrar e divulgar essa presença é importante para mudar a narrativa, mudar paradigmas. Reconhecer a presença e a importância das mulheres nas profissões relacionadas ao mar, e contar suas histórias ajuda a quebrar barreiras e fornece modelos de referência que passam a ser seguidos por outras mulheres.

O que é um modelo de referência?
O conceito de “modelo de referência” faz alusão a pessoas cujas trajetórias, comportamentos ou formas de atuação servem como exemplo para outras, em especial quando se trata de trajetória profissional. Especialmente quando essas referências são próximas, como familiares, professoras, colegas ou pessoas com quem compartilhamos experiências e identidades, seja de gênero, raça ou trajetória de vida, elas tornam determinados caminhos mais concretos e possíveis.
Não apenas uma representação de sucesso, modelos de referência funcionam como um reforço da crença na própria capacidade de enfrentar desafios, ocupar espaços e construir trajetórias semelhantes.
Quando representam grupos historicamente marginalizados, os modelos desafiam estereótipos e promovem identificação e pertencimento. Ter alguém em quem se espelhar é considerada a estratégia mais eficaz para aumentar a permanência de mulheres nas chamadas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, sigla em inglês).
De acordo com a literatura, os modelos de referência cumprem três papéis fundamentais. Funcionam como “símbolos de conquista”, fornecendo prova empírica de que metas elevadas são alcançáveis para pessoas com identidades semelhantes. Ensinam, por meio do exemplo, como agir para atingir determinados resultados, quais comportamentos e caminhos funcionam. E, em especial para pessoas que alcançam posições de liderança em suas carreiras, as trajetórias servem como um guia que motiva objetivos mais ambiciosos. Assim, os modelos de referência são uma fonte de inspiração, um mecanismo de impacto motivacional que influencia quem se espelha neles de diversas maneiras.
Mas o que faz uma pessoa ser inspiração?
A excelência na ciência é comumente medida em números: descobertas, publicações, orientações, projetos, patentes… Mas, muito frequentemente, o que marca a memória de quem percorre uma trajetória científica não é um artigo ou uma descoberta importante, mas sim a presença de pessoas que abriram caminhos, incentivaram, apoiaram ou mostraram que aquele espaço também poderia ser ocupado por outras pessoas.
Segundo a Doutora Zelinda Nery Leão, não há como se preparar para ser uma inspiração. A pesquisadora, cuja trajetória é amplamente reconhecida por sua contribuição aos estudos sobre os ecossistemas recifais e à conservação dos oceanos, recebeu diversas homenagens ao longo da carreira. Entre elas, reconhecimentos da Sociedade Brasileira de Paleontologia (2011) e da Marinha do Brasil (2011 e 2022), e, mais recentemente, o título de Pesquisadora Emérita do CNPq (2026). Ainda assim, Zelinda se surpreendeu ao ser laureada, em 2024, com o Prêmio Marta Vannucci para Mulheres na Ciência do Oceano, na categoria Cientista Inspiração.
“Eu me preparei a vida inteira para ser professora, para ser pesquisadora… Agora, inspiração? Isso vem do coração e, sinceramente, a gente não espera.” – Zelinda Nery Leão
Ao longo de três edições do Prêmio Marta Vannucci para Mulheres na Ciência do Oceano, recolhemos depoimentos da comunidade acadêmica da área de Ciências do Mar sobre mulheres que são reconhecidas como inspiradoras. Esses depoimentos, de pessoas que convivem, aprendem e se transformam ao lado dessas mulheres, mostram que ser uma inspiração vai muito além do currículo, é um encontro entre excelência científica e compromisso com o mundo.

As indicadas como inspiração são pesquisadoras com trajetórias científicas de impacto, intensa produção de conhecimento, lideranças e pioneiras em suas áreas de atuação, que superaram barreiras pessoais e profissionais ao construir suas histórias. Mas os depoimentos revelam outras dimensões, menos quantificáveis e, talvez, ainda mais poderosas. Uma paixão e dedicação inabaláveis e a capacidade de transformar a forma como fazemos ciência. As cientistas inspiração são reconhecidas por abrir caminhos e mantê-los abertos, por sustentar ambientes mais respeitosos, justos e colaborativos dentro e fora da ciência, de formar e acolher, guiar e incentivar novas gerações. Essas cientistas são lembradas não só pelo que publicaram, mas pelo que ajudaram as pessoas que trabalharam com elas a construir.
Inspirado no legado de Marta Vannucci, uma das grandes pioneiras da oceanografia no Brasil e no mundo, o prêmio não se limita a reconhecer conquistas individuais, mas busca encontrar vidas dedicadas a expandir horizontes científicos e humanos. E isso é o que mais inspira: a forma como fazemos ciência tem o poder de transformar não só o que sabemos, mas quem nos tornamos e como podemos transformar o mundo ao nosso redor.
Valorizar mulheres na ciência é construir novos modelos de referência
Em sua busca para construir “A ciência que precisamos para o oceano que queremos”, um dos grandes desafios da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável é promover igualdade de gênero na ciência e governança do oceano. O Plano de Ação de Gênero da Década do Oceano busca promover transformações estruturais em diferentes níveis, combinando mudanças institucionais, políticas públicas, formação educacional e transformação cultural. As mudanças dependem não apenas da remoção de barreiras, mas da construção de ambientes seguros, inclusivos e capazes de sustentar trajetórias diversas ao longo do tempo.
O plano de ação destaca a importância de fortalecer a visibilidade de mulheres e pessoas de gênero diverso na comunicação científica, em eventos, processos de liderança, espaços de facilitação e materiais de divulgação da Década do Oceano. Isso inclui promover cientistas como palestrantes, mentoras, moderadoras e lideranças visíveis, além de desenvolver campanhas e produtos de comunicação que valorizem trajetórias diversas e ampliem o senso de pertencimento de novas gerações. Assim, a criação de novos modelos de referência é uma dimensão estratégica para a ciência que queremos.
As indicações para o Prêmio Marta Vannucci chamam atenção para repensarmos o que valorizamos na ciência ao criar esses novos modelos. Elas mostram que nem todo impacto cabe no Currículo Lattes. Formar pessoas, criar ambientes acolhedores, incentivar jovens pesquisadoras e transformar relações de forma duradoura também são formas fundamentais de produzir ciência e transformar o campo científico. As histórias que escolhemos contar ajudam a moldar os futuros que conseguimos imaginar – e, consequentemente, a ciência que desejamos construir.
No fim, talvez seja isso que torna todo esse caminhar científico tão mais bonito. Nenhum artigo que já publicamos se tornou mais importante do que o sentimento de compartilhar as conquistas e os desafios com a rede de mulheres com quem sempre tivemos a sorte de trabalhar e que nos fortaleceram como pesquisadoras do oceano.
Para saber mais
As ciências oceânicas precisam reconhecer mais mulheres
Oliveira-Silva, Ligia Carolina, and Letícia Barbosa-Silva. Career interventions for promoting gender equality: Methodological aspects. Paidéia (Ribeirão Preto) 33 (2023): e3320. https://doi.org/10.1590/1982-4327e3320
Kearney, Melissa S., and Phillip B. Levine. Role models, mentors, and media influences. The Future of Children 30.1 (2020): 83-106.
Emerson, Tisha LN. Promoting Diversity with Role Models and Encouragement Intervention. AEA Committee on Economic Education (2025).
Rodríguez-Chaves, Mariamalia, with Zhen Sun, Momoko Kitada, Susan Buckingham, Ellen Johannesen, Renis Auma Ojwala, Ronán Long and Francis Neat, Towards Gender Equality in Ocean Science and Ocean Governance: Gender Equality Strategy and Action Plan for Ocean-related Institutions, Malmö: World Maritime University, 2024.
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