No povoado São Félix, localizado próximo a Imperatriz e com cerca de 4.402 habitantes, o som ritmado do macete batendo contra o machado atravessa gerações. Na comunidade, existe uma associação de quebradeiras de coco babaçu formada por cerca de 15 mulheres que mantêm viva uma das tradições mais importantes do Maranhão. Debaixo da sombra dos babaçuais, elas passam horas sentadas no chão quebrando coco, repetindo um trabalho aprendido ainda na infância, ao observarem mães, avós e tias. Mais do que uma atividade econômica, o extrativismo do babaçu faz parte da identidade cultural maranhense e sustenta dezenas de famílias da região tocantina.
As quebradeiras de coco babaçu não vivem apenas da quebra do coco. A maioria dessas mulheres mora em comunidades rurais e também trabalha diretamente no campo, cultivando mandioca, milho, feijão, arroz e hortaliças. São agricultoras, donas de casa, mães e trabalhadoras rurais que dividem o dia entre a roça, os cuidados com a família e a coleta do babaçu.
Entre essas mulheres está Raimunda Fernandes dos Reis, atual presidente da associação das quebradeiras de coco do povoado São Félix. Eleita pelas quebradeiras para o mandato de 2025 a 2027, Dona Raimunda trabalha na quebra do coco babaçu há cerca de 55 anos. O ofício começou ainda na infância, aprendeu dentro da própria família: “Naquele tempo a gente aprendia olhando. Minha mãe quebrava coco e nós ia atrás ajudando, juntando os coco pequeno, aprendendo devagar”, relembra . Hoje, além de representar a associação, ela também se torna voz das companheiras de trabalho, relatando as dificuldades enfrentadas diariamente pelas quebradeiras da região.


A rotina começa cedo. Antes mesmo do nascer do sol, muitas já estão preparando o café, organizando a casa e seguindo para o campo. Em determinados períodos do ano, passam horas caminhando até os babaçuais para coletar os cocos espalhados pelo chão. O trabalho exige força física: os cocos podem cair de palmeiras que ultrapassam 20 metros de altura e são carregados em sacos pesados até os pontos de quebra.
Sentadas em pequenos bancos improvisados ou diretamente no chão, elas utilizam ferramentas simples e tradicionais: um machado fixado na madeira e um macete de madeira resistente. Com precisão adquirida ao longo dos anos, quebram um por um os cocos de babaçu para retirar as amêndoas, principal parte utilizada na produção artesanal.
Do coco babaçu, praticamente tudo é aproveitado. As amêndoas são transformadas em óleo, leite, farinha e sabão artesanal. A casca serve para carvão e artesanato, enquanto as folhas da palmeira podem ser utilizadas na cobertura de casas e produção de utensílios. O babaçu movimenta uma economia tradicional inteira dentro das comunidades rurais maranhenses.
Presença
O coco babaçu é fruto de uma palmeira alta e resistente, muito presente no Maranhão e em grande parte da região tocantina. Em Imperatriz, para todo lado que se olha tem uma palmeira. Os frutos nascem em grandes cachos suspensos no topo das palmeiras, podendo reunir dezenas de cocos ao mesmo tempo. Cada coco possui formato ovalado, casca extremamente rígida e coloração escura quando amadurece. Dentro dele ficam as amêndoas, principal parte aproveitada pelas quebradeiras na produção de óleo, leite, farinha e outros derivados artesanais.
Entre a casca externa e as amêndoas ainda existe uma camada fibrosa, também utilizada na produção de carvão e outros materiais. Como a palmeira produz praticamente durante todo o ano, o trabalho das quebradeiras também se mantém contínuo, garantindo sustento e renda extra para muitas famílias. Apenas no período mais intenso das chuvas a atividade costuma diminuir, já que os babaçuais ficam de difícil acesso por causa da lama e dos alagamentos nas estradas rurais.

Apesar da importância econômica e cultural, sobreviver exclusivamente da quebra do coco ainda é difícil por causa do trabalho extenuante e do acesso. No sul do Maranhão, principalmente entre janeiro e meados do ano, o período chuvoso muda completamente a dinâmica das quebradeiras. Como a região é fortemente marcada pela presença do Rio Tocantins, muitos trechos sofrem com alagamentos e transbordamentos. As estradas de terra ficam tomadas pela lama, dificultando o acesso aos babaçuais e impedindo que muitas mulheres consigam chegar até Imperatriz para comercializar seus produtos. Em vários momentos, o deslocamento se torna praticamente impossível.
“A gente não consegue sair. Fica tudo alagado, muita lama. Às vezes o coco tá lá, mas não tem como trabalhar”, relata Raimunda Fernandes dos Reis, presidente da associação do povoado São Félix. Para enfrentar esse período, as próprias quebradeiras criaram alternativas coletivas. Segundo Raimunda, as mulheres da comunidade se uniram para construir uma espécie de galpão comunitário, onde armazenam grande quantidade de cocos antes da chegada das chuvas. O espaço ajuda a manter a produção durante os meses mais difíceis.
Quando o acesso até a cidade é interrompido, elas tentam vender da maneira possível: dentro do próprio povoado, nas entradas da cidade, em feiras menores ou até por encomendas feitas pela internet e aplicativos de mensagens. A estratégia coletiva virou uma forma de resistência econômica diante da falta de apoio estrutural.
Além do sustento das famílias, o trabalho dessas mulheres possui impacto direto na preservação ambiental. A palmeira do babaçu (Attalea speciosa) é considerada fundamental para o equilíbrio ecológico da região tocantina, área de transição entre o Cerrado e a Amazônia.
Os babaçuais funcionam como verdadeiras barreiras naturais contra o desgaste do solo. Diferente de áreas desmatadas ou transformadas em pastagem, o sistema radicular das palmeiras facilita a infiltração da água da chuva nas camadas profundas da terra, ajudando na recarga do lençol freático e reduzindo erosões.

Pesquisas da UFMA e da UEMASUL também apontam que a presença dos babaçuais ajuda na manutenção da umidade e na redução da temperatura do solo, amenizando os impactos das estiagens cada vez mais severas no Maranhão.
Para as quebradeiras, no entanto, esse conhecimento não vem da ciência, mas da experiência passada entre gerações.
“Desde menina a gente aprende no mato que onde tem o babaçu a terra é mais fria, mais viva, e a água custa mais a secar”, afirma Raimunda.
Pesquisas desenvolvidas na Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL) apontam que o manejo tradicional realizado pelas quebradeiras de coco babaçu contribui para a preservação dos babaçuais e para a manutenção da biodiversidade local. Os estudos destacam a importância dessas áreas para a proteção do solo, recuperação da vegetação e sustentabilidade ambiental da região tocantina.
Meio de vida
Em diversas regiões do estado, especialmente nas comunidades rurais, o babaçu representa uma das principais fontes de renda complementar para centenas de famílias que vivem do extrativismo e da agricultura familiar.
No Maranhão, o babaçu faz parte da vida econômica e social de muitos municípios. Feiras populares, pequenos comércios, associações comunitárias e vendas diretas ajudam a movimentar a renda local, principalmente em áreas onde o emprego formal é escasso e as oportunidades de trabalho são limitadas. Em muitos povoados, o dinheiro obtido com a venda do óleo e de outros derivados do coco ajuda na compra de alimentos, medicamentos e no sustento básico das famílias.
Mesmo assim, a atividade ainda enfrenta baixa valorização econômica. Grande parte da produção continua sendo artesanal e manual, realizada sem maquinário adequado, infraestrutura suficiente ou incentivo contínuo do poder público. Muitas quebradeiras relatam que, apesar de todo o esforço envolvido no processo, os produtos ainda são vistos por parte da população apenas como algo “simples”, o que acaba desvalorizando financeiramente o trabalho.
Em Imperatriz, a nova gestão municipal passou a promover a chamada “Feirinha da Prefs”, iniciativa que reúne pequenos produtores, empreendedores e trabalhadores da economia local em diferentes pontos da cidade. Muitas quebradeiras de coco da comunidade São Félix passaram a participar da feira como forma de ampliar a venda dos produtos artesanais, principalmente do óleo de babaçu, vendido por cerca de R$70 reais o litro – de todo produto tirado da palmeira, o óleo é o item preferido dos consumidores. Ele é usado principalmente para saborear a comida, para ser usado em cima da comida. O leite de coco babaçu também é muito utilizado, tanto para alimentar as crianças quanto para ser usado em receitas famosas da região, como a carne de bode ao leite de coco babaçu. É um alimento que está no dia a dia da alimentação do maranhense.
Apesar disso, a comercialização ainda exige um grande esforço dessas mulheres. Do povoado São Félix até Imperatriz são cerca de 35 quilômetros de distância. Sem transporte próprio, muitas dependem exclusivamente do transporte público para chegar até a cidade carregando garrafas de óleo, sacos e outros produtos feitos manualmente.
Além da distância, outro obstáculo é o fato de a feira não possuir um local fixo. Cada edição da “Feirinha da Prefs” acontece em diferentes espaços da cidade, como praças, avenidas e pontos turísticos. Com isso, após chegarem em Imperatriz, muitas quebradeiras ainda precisam pegar outro transporte para conseguir chegar ao local exato onde a feira está sendo realizada.
Mesmo diante das dificuldades logísticas, elas continuam participando das feiras como forma de garantir renda e manter viva a tradição do babaçu.

Os obstáculos no caminho das quebradeiras
Entre os principais problemas enfrentados pelas quebradeiras também está a expansão da chamada “carvoaria de coco”, prática em que grandes quantidades de babaçu são vendidas para produção industrial de carvão. Para as comunidades tradicionais, isso representa não apenas perda econômica, mas também ameaça direta ao equilíbrio ambiental e ao modo de vida das famílias.
Além da preservação ambiental, o trabalho das quebradeiras de coco babaçu possui relação direta com a segurança hídrica da região tocantina. Em um território marcado por períodos intensos de chuva e estiagem, os babaçuais ajudam a proteger nascentes, manter a umidade do solo e garantir a infiltração da água da chuva no lençol freático. Enquanto áreas desmatadas sofrem com erosão, assoreamento e aumento da temperatura, as regiões preservadas com babaçu conseguem manter o equilíbrio natural por mais tempo.
Sem equipamentos adequados, sem transporte próprio, sem infraestrutura suficiente e, muitas vezes, sem valorização do próprio mercado consumidor maranhense, elas seguem sustentando uma tradição histórica praticamente sozinhas.
Enquanto os babaçuais seguem ajudando a manter o equilíbrio ambiental da região, são as mãos dessas mulheres que continuam sustentando, silenciosamente, uma das maiores riquezas naturais e culturais do Maranhão.
Em busca de reconhecimento
Além das dificuldades econômicas e estruturais, as quebradeiras de coco também seguem em uma luta histórica por reconhecimento e garantia de direitos. No Maranhão, algumas iniciativas recentes buscam fortalecer a proteção dos babaçuais e valorizar o trabalho dessas mulheres.
Entre elas está a Lei Babaçu Livre (PL 421/2024), projeto atualmente em tramitação no Maranhão que busca garantir o livre acesso das quebradeiras aos babaçuais, proteger as palmeiras contra ações predatórias e assegurar a preservação do modo de vida tradicional das comunidades extrativistas. A proposta surge como resposta aos frequentes conflitos enfrentados pelas trabalhadoras, principalmente em áreas privadas onde muitas vezes o acesso ao coco é impedido.
“O babaçu é nossa mãe. É ele que garante o sustento e mantém a terra viva. Quando derrubam ou impedem a gente de acessar, estão tirando nosso futuro”, relata Maria do Socorro, quebradeira veterana da região.
Outro avanço importante foi a sanção da Lei nº 12.378/2024, que reconhece oficialmente os saberes e práticas das quebradeiras de coco babaçu como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão.
Para as comunidades tradicionais, esse reconhecimento representa mais do que um título simbólico. É uma tentativa de preservar uma prática ancestral que faz parte da identidade maranhense e que há décadas contribui para a proteção ambiental, para a economia rural e para a manutenção da vida em diversas comunidades do estado.
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