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Velejar para conhecer: como a vida no mar pode ajudar a ciência no Brasil

Com ferramentas acessíveis, um veleiro pode contribuir para registrar avistamentos de fauna, reportar lixo marinho e documentar alterações ambientais ao longo do tempo

27 de maio de 2026
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.

  • Natali Santos

    É oceanógrafa formada pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em Engenharia Ambiental pela Universidade de Coimbra.

  • Débora Camacho Luz

    Bióloga formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG), divulgadora científica na Rede Ressoa Oceano, desde 2023, e membro da Liga das Mulheres pelo Oceano.

  • Marina Guedes

    Jornalista freelancer e comanda o podcast Maré Sonora, canal com audiência em 97 países, sobre experiências inspiradoras conectadas aos oceanos.

Muito antes de existirem satélites ou navios de investigação altamente equipados, o conhecimento sobre o oceano já se fazia… navegando! 

Os primeiros registros de grandes migrações oceânicas datam de 3.000 a.C e foram realizadas pelos Austronésios, povos pré-históricos originários da região onde hoje se localiza Taiwan. Esses povos são conhecidos pelo desenvolvimento de tecnologias avançadas de navegação com base no conhecimento empírico das marés, correntes marinhas, localização astronômica, observação de aves, entre outros sistemas que permitiam as longas navegações. 

Na idade moderna (1453-1789), as Grandes Navegações Europeias surgiram com o objetivo de facilitar o comércio e expandir territórios. Pela primeira vez, o “temido” oceano Atlântico foi navegado e o conhecimento das correntes marinhas e do regime de ventos registrados. Somente no final desse período, na década de 1760, que expedições dedicadas exclusivamente para o que hoje chamamos de estudo da Oceanografia foram lançadas.

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Em 1831, a brigue-escuna inglesa HMS Beagle partiu para o que seria uma das navegações mais importantes da história da ciência. O principal objetivo da expedição foi político, mapear a costa sul da América do Sul para a defesa dos interesses da Inglaterra. No entanto, a bordo da Beagle estava o naturalista Charles Darwin, com a missão de coletar espécimes e fazer observações científicas, muitas delas sobre a vida e a geologia marinha. A viagem de Darwin na Beagle abriu caminho para a expedição Challenger (1872-1876), conhecida como o marco inicial do estudo da oceanografia, que resultou em um relatório com cerca de 30 mil páginas sobre o oceano.

Ao longo da história, fica evidente a importância da navegação para a descoberta científica acerca do oceano. Hoje, a ciência no mar tornou-se mais tecnológica – e também mais cara e limitada. Manter navios de investigação em operação exige recursos elevados, o que faz com que grande parte do oceano continue pouco estudado. Ao mesmo tempo, há uma realidade curiosa: milhares de pessoas continuam a cruzar oceanos todos os anos, não por ciência, mas por escolha de vida.

Uma comunidade que vive o mar todos os dias

Segundo a rede No Foreign Land, uma rede social que conecta velejadores navegando pelo mundo, há hoje aproximadamente 12 mil barcos viajando pelo mundo atualmente. A plataforma, no entanto, registra apenas usuários cadastrados, sendo este número muito maior. Estas pessoas atravessam o oceano, circunavegam o globo e alcançam lugares remotos e até inabitados.

Cada pin representa um barco que está navegando na Patagônia (região geográfica fronteiriça entre o Chile e a Argentina), um dos lugares mais remotos do planeta. Fonte: No Foreign Land

Com quase 8 mil km de costa, o Brasil reúne condições ideais para a navegação à vela. Para além da vela desportiva e recreativa, existe uma comunidade crescente de pessoas que fazem do mar a sua casa. São os chamados liveaboards ou velejadores de cruzeiro – famílias, amigos, casais ou aventureiros solitários que vivem a bordo e percorrem o litoral brasileiro (e muitas vezes o mundo!) ao ritmo do vento. Não há um dado oficial sobre o número de pessoas morando a bordo de veleiros na costa brasileira, no entanto sabe-se que essa comunidade vem aumentando nos últimos anos, especialmente após a pandemia do Covid-19. 

Todos os anos, por exemplo, cerca de 110 barcos de todas as regiões do Brasil e até de outros países reúnem-se em Recife para realizar a Refeno, uma antiga competição à vela que tem como principal objetivo reunir a comunidade de velejadores e navegar da capital pernambucana até Arquipélago de Fernando de Noronha. Grande parte dos barcos participantes viaja das regiões Sul e Sudeste por semanas ou até meses, entre junho e setembro, para participar. 

Esses velejadores passam por locais remotos, ancoram em áreas pouco monitoradas e convivem diariamente com o oceano. Observam mudanças na água, encontram vida marinha, encontram lixo flutuante, enfrentam condições meteorológicas variáveis. Em outras palavras: vivem experiências que interessam – e muito – à ciência.

E se cada veleiro fosse um pequeno laboratório?

É aqui que entra a chamada ciência cidadã: uma abordagem que convida pessoas comuns a participarem ativamente na produção de conhecimento científico. No contexto da vela, a ideia é simples e poderosa: transformar velejadores em observadores do oceano.

Com ferramentas acessíveis e orientações básicas, um veleiro pode contribuir para: registrar avistamentos de fauna, como aves, golfinhos, baleias e tartarugas; reportar lixo marinho e poluição; recolher dados sobre temperatura, pH e salinidade da água ou condições do mar; e documentar alterações ambientais ao longo do tempo. Projetos como o Free Range Ocean já mostram que isso é possível. Ao equipar navegadores com protocolos simples, estes passam a contribuir diretamente para a ciência, muitas vezes em zonas onde investigadores dificilmente chegariam. A bordo do monocasco de 50 pés batizado Freeranger, Larissa e Duncan partiram com os dois filhos da costa oeste do Canadá há quase dois anos. Atualmente na Nova Zelândia, eles pretendem seguir, em maio, rumo ao tradicional circuito oeste do Pacífico Sul: parando em Tonga, Fiji, Vanuatu e Nova Caledônia até o destino final, a Austrália.

Larissa, Ducan e seus dois filhos a bordo do veleiro Freeranger realizando coleta de dados de turbidez e profundidade com o disco de Secchi. Foto: Larissa Clark.

Diferente de outros velejadores, o casal decidiu fazer da viagem uma experiência muito além de simples aventura pelo mundo. Na prática, uma das ações é permitir o embarque de cientistas das áreas biológicas durante suas navegações. Desta forma, somam, por exemplo, à ciência cidadã e conservação ambiental.  

Conforme antecipou Larissa, no trecho da Nova Zelândia até o arquipélago de Tonga a tripulação do Freeranger terá um acréscimo, a fundadora da ONG Manta Watch, Lydia Green. A parceria será focada na observação e acompanhamento das raias-manta pela região, de forma que amplie o conhecimento da espécie. 

Outro trabalho coordenado por Larissa e Duncan é o portal que hoje conta com cinquenta projetos relacionados à ciência cidadã. A ideia é que qualquer pessoa interessada em contribuir consiga encontrar uma oportunidade em andamento. 

“Percebemos que não era fácil achar esses trabalhos que envolvem ciência cidadã pelo mundo. Isso foi um motivador para criarmos o portal. Em breve, vamos acrescentar outros. Na vida a bordo, podemos fazer muito. Nossa ideia é inspirar outros velejadores a fazerem o mesmo”, pontua Larissa.

Um potencial ainda por explorar

Registro de baleia Jubarte realizado por velejadores liveabords entre o município de Caravelas e o arquipélago de Abrolhos no sul da Bahia, em julho de 2024. Foto: Jonas Muro Gomes.

No Brasil, apesar de tudo, este potencial continua pouco aproveitado. Falta, sobretudo, criar pontes. Hoje, muitos velejadores já recolhem informações de forma informal: tiram fotos, registram coordenadas, compartilham experiências online. Mas raramente esses dados chegam a pesquisadores ou são usados de forma sistemática.

Entre os principais desafios estão: a falta de ligação entre cientistas e comunidade náutica; a ausência de ferramentas simples e padronizadas; a necessidade de formação básica para recolha de dados; e o reconhecimento do papel da contribuição dos cidadãos para a ciência

(Re)unir ciência e navegação

Se a comunidade já existe e a motivação também, o que falta? A resposta passa por estruturar, facilitar e conectar ambas as partes.

Uma das soluções mais promissoras é a criação de kits de ciência cidadã para velejadores: conjuntos simples que podem incluir termômetros de água, guias de identificação de espécies, protocolos de registo e até sensores de baixo custo. Tudo pensado para funcionar no dia a dia de quem vive a bordo, sem exigir conhecimento técnico avançado.

Ao mesmo tempo, é fundamental desenvolver plataformas digitais acessíveis, onde os navegadores possam registar observações de forma rápida, mesmo offline, e sincronizar os dados quando tiverem ligação. Aplicações intuitivas com mapas interativos e feedback imediato ajudam não só na recolha, mas no envolvimento contínuo. 

Apesar de não encontrarmos no Brasil plataformas exclusivas para reunir dados sobre o ambiente marinho coletados a partir da ciência cidadã, algumas iniciativas como a BioCollect do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), e plataforma Civís, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) caminham nesse sentido. Elas permitem que cidadãos encontrem projetos de diversas áreas, incluindo a marinha, para contribuir. No caso da SIBBr, também há a possibilidade de compartilhamento de informação sobre a biodiversidade diretamente com seu perfil na plataforma iNaturalist, um projeto internacional no qual pessoas interessadas fazem registros de animais e plantas por meio de um aplicativo e gps. 

Outro ponto-chave é a formação leve e prática. Não se trata de transformar velejadores em cientistas profissionais, mas dar ferramentas para observarem melhor o que já veem. Workshops curtos, vídeos explicativos e guias visuais podem fazer toda a diferença na qualidade dos dados recolhidos.

O mais importante é construir pontes reais entre cientistas e navegadores. Neste sentido, universidades e centros de pesquisas podem criar programas de colaboração direta, convidando velejadores a participarem de campanhas específicas ou a contribuírem com dados para projetos em curso. Por outro lado, os próprios navegadores podem ajudar a definir o que faz sentido observar no terreno, numa lógica de co-criação.

Também há espaço para incentivos e reconhecimento: certificações, menções em estudos científicos, acesso a resultados ou até pequenas compensações podem reforçar o compromisso e valorizar a participação destes “cientistas do mar”.

O oceano precisa de mais olhos

Num momento em que os oceanos enfrentam pressões crescentes, da poluição às alterações climáticas, nunca foi tão importante aumentar a capacidade de observação e monitoramento.

Se conseguirmos ligar esses mundos – o da ciência e o da navegação – poderemos transformar uma rede de viajantes em uma verdadeira rede de conhecimento.

Porque, no fundo, o oceano sempre foi isso: um espaço de encontro.

Entre continentes, culturas… e agora (ou seria novamente?), talvez, entre formas diferentes do saber. 

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