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Nova ameaça no Pantanal: o cervo Axis ou chital chegou ao Bioma

O Brasil não possui governança suficiente para tratar de controle de invasões por espécies exóticas de mamíferos como o javali, devido à dimensão geográfica e demográfica da invasão

12 de fevereiro de 2026
  • Liliani Marilia Tiepolo

    PhD, Professora na Universidade Federal do Paraná campus Litoral, especialista em mamíferos, desenvolve pesquisas em sistemática, taxonomia, biogeografia e conservação da biodiversidade, em especial com roedores, marsupiais e ungulados. É Docente Permanente do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável (PPGDTS) da UFPR.

O chital (Axis axis) é um cervídeo invasor que foi introduzido em uma fazenda de caça no Uruguai, no início do Século XX, e posteriormente na Argentina, com o mesmo objetivo, entre 1928 e 1930, invadindo vastas áreas do norte e noroeste do país. A partir destes dois países, o chital invadiu o Brasil pelo sul do país, sendo que o primeiro registro foi feito em 2009 no Rio Grande do Sul. Em 2019, foi registrado em Santa Catarina, em 2020 no Paraná e, em 2024, no estado de São Paulo, próximo à cidade de Monte Alto.

Até o momento, o Brasil não implementou nenhuma ação efetiva e eficaz de controle da espécie. Isso é relevante para evitar o mesmo histórico de um outro ungulado invasor, o javali e seus cruzamentos com linhagens domésticas de porcos (Sus scrofa). No caso do javali, a política de controle desta espécie ficou concentrada apenas na ação dos CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores de armas de fogo), e tem sido absolutamente ineficaz. No entanto, para estabilizar seu crescimento são necessárias remoções acima de 60% dos indivíduos por ano.

Devido a ineficiência do controle desta espécie, os prejuízos econômicos, os riscos sanitários, os impactos nos ecossistemas e os riscos de incidentes como ataques a pessoas e acidentes rodoviários, são cada vez mais frequentes pelo país. Um dos problemas é que o Brasil não possui governança suficiente para tratar de controle de invasões por espécies exóticas de mamíferos como o javali, devido à dimensão geográfica e demográfica da invasão. Não temos um serviço nacional e nem estadual de vida selvagem, nos moldes de outros países que fazem a gestão e monitoramento de populações de animais silvestres de forma mais técnica e científica. Nas universidades, não formamos especialistas em gestão de populações de vida selvagem ou de invasões biológicas, até porque a caça foi legalmente proibida no país em 1967. A proibição resultou em ausência de uma demanda por profissionais qualificados, ainda que a caça ilegal e as invasões nunca cessaram no país. Aqui, a vasta maioria dos cursos de graduação e pós-graduação na área da biologia formam ecólogos de alto nível, mas não inteiramente capacitados para a gestão e manejo de populações animais de vida livre. Precisamos fortalecer a formação de profissionais com este perfil, como fazem os americanos, canadenses, australianos e europeus, por exemplo.

Fotograma do vídeo obtido no Pantanal, em janeiro de 2026.

No caso do chital, o contexto é semelhante ao do javali, ainda que não tenha adquirido a mesma escala geográfica e demográfica. As informações disponíveis na literatura científica mostram que a invasão pela espécie está sendo rápida. O chital já se encontra no Paraguai, com vários registros, inclusive de acidentes fatais, como o que aconteceu em 2022 em Assunção, em que um chital atacou e matou um policial que fazia a segurança da residência oficial do presidente paraguaio, Mburuvicha Róga. Aparentemente, o incidente foi causado por um animal mantido como ornamental no lugar.

Na Argentina, a espécie já ocupa toda a região de Corrientes, e chegou à região do Chaco em 2024, no extremo norte do país, na fronteira com Bolívia e Paraguai.

Aqui, reportamos um registro muito recente, de janeiro de 2026, feito em uma fazenda a cerca de 100 km ao sul de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, na região do Nabileque, entre a margem direita do rio Paraguai e a fronteira com a Bolívia e o Paraguai. O relato e registro em vídeo, feitos por um funcionário da propriedade rural, nos dá conta de que o chital apareceu na fazenda, atacou touros e foi perseguido por cães. O avistamento causou surpresa nos funcionários, uma vez que se tratava de um animal nunca visto e, portanto, desconhecido, gerando uma consulta a funcionários da Embrapa Pantanal. Respeitando-se a privacidade dos proprietários e do funcionário, não será divulgada aqui a localidade exata desta ocorrência. Trata-se de uma região bastante despovoada e de difícil acesso, caracterizada como Chaco úmido. Ou seja, é improvável que tenha sido levado ao local ou que tenha escapado de algum cativeiro na região.

No lado paraguaio da fronteira, a ocupação da terra é mais intensa, enquanto no lado boliviano há uma menor densidade populacional humana em grandes extensões. Assim, tudo indica uma dispersão ativa deste indivíduo. Não está claro se há ocorrência desta espécie invasora na região do Chaco no Paraguai, mas vale ressaltar que o país até recentemente não possuía legislação restringindo a posse, transporte e manejo de espécies exóticas. A falta de informações naquele país é grande, com exceção do ataque já relatado e casos de animais resgatados em Carmen del Paraná], na fronteira com a Argentina, e nas imediações de Assunção, em Lambare.

Registros mais recentes na fronteira norte-noroeste da invasão por Axis axis, e o primeiro registro no Brasil, em 2009.

A preocupação com a invasão do Bioma Pantanal por mais uma espécie exótica e, neste caso, um mamífero de grande porte que pode ultrapassar os 100 kg de massa corporal, está diretamente relacionada aos riscos que ela impõe aos cervídeos nativos. O Pantanal abriga as maiores populações de duas espécies: o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), ameaçado de extinção na escala global e nacional, e o veado campeiro (Ozotoceros bezoarticus leucogaster). Além destas, o Bioma também abriga populações vigorosas de veado catingueiro (Subulo gouazoubira) e veado mateiro (Mazama rufa).

Os impactos podem advir da competição por recursos, doenças e interações agonísticas (ataques), afetando em alguma magnitude as espécies nativas. É impossível predizer a magnitude dos impactos, caso ocorram. Nada se conhece sobre este assunto, mesmo nas regiões dos países vizinhos onde a espécie já se encontra há vários anos, exceto a sobreposição de sua dieta com cervídeos. Ainda assim, este registro no Pantanal documenta a capacidade de invasão desta espécie, já que o primeiro registro no Brasil é de 2009.

Neste contexto, chama à atenção o fato de que, na internet, seja possível encontrar ofertas de venda de chital como espécie “ornamental” no Brasil. Além do chital, outras espécies também são anunciadas para comércio no país, como o cervo rusa (Cervus rusa), o cervo vermelho (Cervus elaphus), antílopes (Antilope cervicapra), o cervo dama (Dama dama), em pelo menos três sites. Estas, e muitas outras espécies exóticas, são vendidas a preços exorbitantes, geralmente acima de R$ 10,000,00, incluindo machos e fêmeas. Desta forma, o potencial para introduções passivas, feitas por pessoas, é grande, especialmente porque os casos de escape não são raros. Um exemplo é a ocorrência em vida livre de cervo rusa, em Saquarema, no Rio de Janeiro, incluindo casais e filhotes registrados na região.

Ofertas de cervídeos para venda e envio para todo o Brasil, encontrados na internet.

Neste contexto, parece que o Brasil vem repetindo os erros que a Argentina tem cometido há tempos em relação à introdução de animais exóticos para caça ou “ornamentais”, ou ainda para abastecer a indústria de peles. O caso do castor (Castor canadensis) introduzido na Patagônia, em 1946, é emblemático, e a espécie tornou-se um problema ambiental de grandes proporções nas florestas de Notophagus e outros ambientes. Na Argentina, podemos ainda listar a introdução de várias espécies exóticas, como javalis (Sus scrofa), lebre europeia (Lepus europaeus), cervo vermelho (Cervus elaphus), antílope negro (Antilope cervicapra), visom americano (Mustela vison), esquilo vermelho (Callosciurus erythraeus) e o chital, este que agora parece ter alcançado o Pantanal.

A invasão pelo chital pelo sul do Brasil ocorre numa velocidade de 100 a 150 quilômetros por ano, ainda que as populações estejam em baixa densidade. Na medida que a densidade aumenta, a expansão pode se tornar muito mais rápida, mesmo considerando eventuais dificuldades impostas por barreiras à dispersão da espécie. Na atual velocidade, e não considerando a dispersão passiva, podemos avaliar que entre 15 a 20 anos a espécie já terá alcançado os estados de MS, SP, MG, GO, RJ e ES, e talvez até o sul da Bahia, de Mato Grosso e do Tocantins. Modelos que preveem o potencial de colonização por esta espécie comprovam esta perspectiva e, na medida que novos registros forem se acumulando, este modelo poderá melhorar sua capacidade de previsão.

Portanto, este registro no Pantanal serve como um alerta sobre a necessidade de uma política clara, eficaz e efetiva, para evitar invasões biológicas, um dos maiores desafios à conservação da biodiversidade. Para isso, o Brasil precisa estruturar uma governança pública adequada, capaz de enfrentar estes desafios.

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