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O futuro do oceano depende da conexão e engajamento da sociedade com o oceano

Especialistas e gestores se reúnem em Barcelona para transformar a relação humana com o oceano, com destaque para a participação brasileira

9 de abril de 2024
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.

  • Germana Barata

    Germana Barata é bióloga de formação, mestre e doutora em história social, jornalista de ciência e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ontem (8) começaram em Barcelona, na Espanha, os eventos satélites da 4a edição da Conferência Mundial da Década do Oceano, que vai reunir 1.500 participantes para um balanço sobre o andamento das ações em prol da saúde do oceano e estabelecer consensos para ações nos próximos 6 anos. Nos dias 8 e 9, os debates se dedicam à cultura oceânica, que busca formas de conectar a sociedade ao oceano. Com presença marcante no evento, o Brasil lidera inúmeras ações globais estratégicas na Década do Oceano.

A abertura contou com o depoimento da embaixadora da Unesco para o oceano e recordista mundial de surf de ondas gigantes, Maya Gabeira, sobre sua relação com o oceano. “Não seria maravilhoso ter cultura oceânica em todas as crianças do mundo, e inspirá-las a cuidar do oceano? Temos que dar às crianças a chance de saber o que está acontecendo [com o oceano] e poder agir”, afirmou a atleta, que se dedica a inspirar jovens para a conscientização sobre o oceano e apoia a organização internacional Oceana.

Leandro Bortolozo Pedron, Diretor do Departamento de Programas Temáticos (DEPTE), que abriga a coordenação da Década do Oceano no Brasil, Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), enfatizou que a cultura oceânica é vista como estratégica no país. Compartilhou a crescente participação de municípios que aprovaram legislação que inclui a cultura oceânica no currículo escolar, seguindo o movimento de Santos (SP), que em novembro de 2021 se tornou a primeira cidade do mundo a tomar esta decisão. Leandro também trouxe os bons resultados da Olimpíada Nacional do Oceano, coordenada pelo projeto Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que contou com a participação de 48 mil estudantes em 2023. Além de Leandro estão presentes representantes do Ministério de Relações Exteriores, MCTI e Meio Ambiente.

Cena do documentário Mulheres na conservação: edição especial Oceanos, dirigido por Paulina Chamorro e João Marcos Rosa. Crédito: Tocha Filmes, Paulina Chamorro e João Marcos Rosa.

A relevância de transformar a relação das novas gerações com o oceano está fortemente ligada à educação. Ronaldo Christofoletti, professor da Unifesp, apresentou um balanço sobre a rede de All-Atlantic Blue School, que reúne 20 países do Atlântico que atuam no projeto Escola Azul. Já são mais de 600 escolas que adotaram a educação oceânica em seus currículos, somando 4.500 professores e mais de 200 mil estudantes envolvidos. De acordo com Ronaldo, coordenador do projeto Escola Azul no Brasil, já são 184 escolas, presentes em 20 estados. O desafio do projeto internacional está em desenvolver uma rede com escolas que possuem realidades distintas. “Não há uma resposta única [para todas as escolas]”, lembrou, “precisamos de reconhecimento de nossas capacidades e encontrar nossos caminhos”. A rede pretende ser um meio de troca de experiências, fortalecimento de iniciativas e promoção da equidade.

As questões de equidade e diversidade também marcaram o painel sobre as relações do Sul Global, coordenado pela oceanógrafa Mariana Andrade, representante do programa Profissionais dos Oceanos em Início de Carreira (ECOs), e com representantes da África do Sul, Palestina e Angola. Ela chamou atenção sobre a importância de o Sul Global ter voz nas ações globais. “Como países do Sul Global, temos perspectivas diferentes, as quais nos dão força para pensar em soluções a partir de nossa realidade”, afirmou. Os participantes da mesa criticaram a postura de países do Norte Global de apontarem a necessidade de capacitação do Sul Global, a partir de uma dificuldade em compreender e respeitar as necessidades e as capacidades existentes na região. “Nem sempre os debates mundiais fazem sentido para nossas realidades. Também debatemos diversidade, igualdade e inclusão e esses não são debates separados”, reforçou.

A inclusão do oceano na agenda dos países que compõem o Grupo G20 também foi debatida no primeiro dia de evento. Organizado pelo grupo Oceans 20 (O20) no âmbito do Grupo 20 (G20), composto por 19 países, mais a União Europeia e a União Africana, se reuniu com diferentes atores sociais para definir ações estratégicas de atuação em prol da Década do Oceano. “A importância do G20, como o grupo de países mais ricos do mundo, olhar o oceano como forma estratégica de gerar e compartilhar prosperidade foi marcada”, afirmou Alexander Turra, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o evento apontou para a necessidade de integração entre diferentes atores sociais, para a criação de um processo de internalização da temática do oceano no G20 e de um grupo de trabalho para estruturar uma agenda estratégica de ações.

Paulina, Bárbara e Francesca Santoro. Crédito: Ressoa Oceano

O dia se encerrou com a exibição do documentário Mulheres na conservação: edição especial Oceanos, produzido pela Tocha Filmes com direção da jornalista ambiental Paulina Chamorro, João Marcos Rosa e Sylvio Rocha. O documentário faz parte de uma série de mesmo nome que destaca a atuação de mulheres cientistas na preservação de espécies animais e biomas no Brasil e impressiona pela capacidade de sensibilizar o público para a dedicação das cientistas à preservação da natureza mesmo sob difíceis condições de trabalho. Este e outros dois documentários brasileiros foram exibidos gratuitamente na Filmoteca de Catalunya: Rota Polar, da Tocha Filmes, dirigido por Sylvio Rocha e Beto Pandiani, e Vozes do Mar, de Helena Alba, como parte da programação cultural sobre o oceano que Barcelona oferece desde o dia 5. 

Nos próximos dias, o oceano segue sendo a pauta central de discussões, com enfoque na cultura científica na terça-feira e a partir de quarta com a presença de autoridades políticas mundiais e com seções voltadas ao debate o. sobre desafios e soluções de cada um dos 10 desafios da Década que em 2025 chegará à metade de seu percurso.

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