Análises

Energia em Transição: o papel vital das mulheres na luta climática do Brasil

A realidade das mulheres em face dos desafios climáticos é sombria: elas têm 14 vezes mais chances de morrer em desastres naturais do que os homens

Nicole Oliveira ·
8 de março de 2024

No coração da crise climática, encontramos uma verdade incontestável: as mulheres são desproporcionalmente afetadas pelos desastres ambientais, mas também emergem como agentes cruciais de mudança. No Brasil, esta realidade é amplificada pelas disparidades profundas do país, onde mulheres, especialmente as das comunidades mais vulneráveis, enfrentam os impactos das mudanças climáticas de frente. Esta reflexão visa não apenas jogar luz sobre essa intersecção crítica de gênero e meio ambiente, mas também traçar caminhos para uma resposta mais inclusiva e efetiva à nossa emergência climática.

A realidade das mulheres em face dos desafios climáticos é sombria: elas têm 14 vezes mais chances de morrer em desastres naturais do que os homens. Tal vulnerabilidade é agravada em cenários de deslocamento ou desalojamento, onde mulheres deslocadas frequentemente enfrentam condições precárias que as expõem a riscos elevados de violência sexual e de gênero. Essas circunstâncias alarmantes evidenciam a necessidade premente de incorporar uma perspectiva de gênero nas estratégias climáticas, reconhecendo a profunda desigualdade que permeia nossa sociedade e contribui para a vulnerabilidade das mulheres em crises ambientais.

Além disso, as mulheres brasileiras enfrentam barreiras significativas devido a uma cultura de discriminação de gênero arraigada, que fundamenta uma ordem social hierárquica e desigual. Em ambientes dominados por homens, como o Congresso Nacional e o setor energético, onde as mulheres ocupam uma minoria das posições de liderança, suas capacidades de influenciar políticas climáticas e participar da transição energética são severamente limitadas. Essa disparidade não apenas enfraquece a resposta do Brasil à crise climática, mas também impede que soluções sustentáveis e inovadoras, lideradas por mulheres, sejam adequadamente exploradas e implementadas.

No entanto, organizações como a Arayara estão desafiando esse status quo, reconhecendo o papel fundamental das mulheres como líderes na luta contra as mudanças climáticas. Ao promover projetos que empoderam mulheres nas comunidades afetadas, a Arayara não apenas aborda os impactos ambientais de maneira holística, mas também fortalece a posição das mulheres como agentes indispensáveis de mudança.

A questão da igualdade de gênero nas discussões e decisões sobre o clima nunca foi tão crítica. O manifesto pela paridade de gênero na COP 30 representa um esforço vital para garantir que as perspectivas e vozes das mulheres sejam integradas nas negociações climáticas. Este compromisso não é apenas simbólico; ele é um passo concreto em direção a um futuro mais justo e equitativo.

Investir em mulheres é investir em soluções climáticas. A diferença salarial significativa no setor energético e a maior probabilidade de mulheres deixarem empregos nesse setor sublinham a necessidade urgente de ações focadas em igualdade de gênero. 

Nesse sentido, a “Lei da Igualdade Salarial” (Lei 14.611/2023), estabelece uma série de medidas para promover a igualdade de salários e critérios remuneratórios entre os gêneros; fomentar a formação de mulheres para o ingresso, permanência e ascensão no mercado de trabalho em condições iguais às dos homens; além de abordar questões relacionadas à discriminação por etnia, origem ou idade.

Contudo, segundo o levantamento Mulheres no Mercado de Trabalho, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) do IBGE, as mulheres têm mais escolaridade que os homens: enquanto elas têm, em média, 12 anos de estudo; os homens têm 10,7 anos. Apoiar a educação, tecnologia e projetos liderados por mulheres não só promove a equidade, mas também acelera nossa jornada em direção a um futuro sustentável.

O papel das mulheres brasileiras na resposta à crise climática é, sem dúvida, fundamental. Promover a igualdade de gênero é não apenas uma questão de justiça social, mas também a estratégia mais eficaz para enfrentar os desafios ambientais. A ação coletiva, evidenciada pelo trabalho da Arayara e suas parceiras, mostra o poder da colaboração e da inclusão.

Convido cada um de vocês a se juntar a esta luta vital. Participar de iniciativas, apoiar organizações comprometidas como a Arayara e assinar o manifesto pela paridade de gênero na COP 30 são ações que podemos tomar agora para construir um futuro mais equitativo e sustentável. Juntas, temos a força para transformar o cenário climático, reconhecendo o papel central das mulheres nesta jornada crucial.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Nicole Oliveira

    Mestre em Direito Internacional e Resolução de Conflitos pela UPeace, Universidade para a Paz, afiliada das Nações Unidas. Há 15 anos trabalha com os temas da justiça socioambiental e a transição energética no Brasil. Desde 2022 é diretora-executiva do Instituto Internacional Arayara, fundação com sede em 10 países focada na promoção de direitos, litigância e informação sobre proteção ambiental, das pessoas e do clima.

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