Fotografia

A primeira aula

O trabalho de Ansel Adams ensina uma importante lição para quem gosta de fotografar natureza. As cores não são o essencial, a beleza da terra se capta até em preto e branco.

Adriano Gambarini ·
23 de fevereiro de 2007 · 19 anos atrás

Quando falamos de fotografia de natureza é comum pensarmos em cores brilhantes, céus de azuis intensos, auroras espetacularmente alaranjadas e uma variação de verdes das matas que excedem os finitos nomes de tons criados por nós. Mas como seria olhar para este mundo tão espectral em duas cores? Ou melhor, em três: preto, branco e cinza? Na dita fotografia fine-art, ali onde descansa a certeza de que fotografia é arte, torna-se categórico pensarmos em fotos preto-branco; portraits e toda a expressão facial do retratado, detalhes arquitetônicos são trazidos à vista apenas por suas texturas, e imagens jornalísticas eternizando a dramaticidade de fatos históricos. E se pensarmos que o objeto de desejo do fotógrafo é a natureza pura, seria possível documentá-la em preto e branco?

Ansel Adams acreditou, o fez, e eternizou uma escola. Nascido em São Francisco, EUA em 1902, teve formação musical até ser ‘contaminado’ pela arte fotográfica e nunca mais parar. Seu principal palco foram os parques do oeste americano: Yosemite, Grand Canyon e outros lugares que pudessem lhe dar algo e realizar o que poucos conseguiram. Trazer à luz dos sais de prata dos filmes uma gradação tão grande de tons de cinza, um preto total e um branco alvo, que as imagens parecem ter vida. Isto se deve não apenas à forma como Adams via o mundo ou mesmo como encarava artisticamente a fotografia. Ele possuía uma técnica impecável na hora do clique, uma intimidade com todas as possibilidades de regulagens e o que cada uma corresponderia no filme, e posteriormente no processo da revelação: a alquimia solitária do laboratório, quando aquela cena observada e clicada poderia ser trazida à tona novamente na superfície de um papel através de banhos químicos – sopas primordiais do nascimento da foto. Uma quase ressurreição da natureza admirada.

Adams fotografou em cor também. Mas seu gosto maior estava nas grandes câmeras de médio formato – caixas pretas em fole sem praticamente nenhum recurso, apenas um olhar apurado e um conhecimento aprofundado se misturando à sensibilidade. Características que nenhum equipamento tecnológico deste mundo moderno e digital será capaz de substituir. Complementar certamente, substituir nunca. E quanto mais ouço as gerações novas exaltarem os recursos e as infinitas possibilidades de que “tudo se faz” nos monitores, cpus e photoshops da vida, lembro de uma frase que li quando comecei na fotografia profissional – não lembro quem disse, mas agradeço por ter dito: Na fotografia devemos chegar ao máximo da técnica, para depois esquecê-la.

Conhecer Adams, ser capaz de ver em suas fotos as cores do pôr-do-sol do Grand Canyon e tons seculares das sequóias é o caminho inicial para quem acredita na fotografia de natureza como conceito, como arte, como objeto de delírio. Ou se a proposta não é filosofar tanto, acredite que só é possível entender a complexidade das cores se aceitarmos que o preto é a absorção de todas elas, e o branco, sua reflexão.

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

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