Fotografia

Fred e a Raposa

O biólogo que cresceu com uma pentax no pescoço e revistas National Geographic na estante se especializou em raposas-de-campo e montou um álbum fotográfico da espécie.

Adriano Gambarini ·
10 de agosto de 2007 · 19 anos atrás

A fotografia certamente é o hobby mais globalizado no mundo moderno. Apesar de ser uma atividade originariamente artística em que Bressons e Florences apenas trocaram as paletas e pincéis por caixas-pretas e negativos, hoje todo mundo que tem um celular se denomina fotógrafo. Confesso ver com certa nostalgia a banalização desta arte, mas o mundo é dinâmico, mutável; e o que eu posso fazer senão manter íntegra minhas crenças e garimpar pessoas que, mesmo inconscientemente, trazem em si um desejo pela imagem melhor, o ângulo certeiro, a luz mágica?

Foi assim que conheci Frederico Gemesio, o Fred. Começou perguntando sobre técnicas de registro de vida selvagem até falar que há muito acompanhava meu trabalho, meus livros, e que sou uma grande fonte de inspiração no seu interesse pela fotografia. É gratificante tal elogio, já que agora o olhar da nova geração de aficionados por fotografia me enxerga num lugar em que, quando eu buscava inspiradores, encontrava Ansel Adams, Marcel Gautherot e mais recentemente Franz Lanting. Não me comparo aqui aos mestres; estou muitos cliques aquém deles. Mas tal afirmação confirmou anida mais a responsabilidade que carregamos ao expor nosso modo de ver o mundo através da fotografia.

Fred é o típico biólogo de campo que adora o que faz, e talvez um dos poucos que conheci nos últimos tempos com uma curiosidade nata e um questionamento constante sobre vida selvagem. Da fotografia documental à coleta de um animal morto para retirada de amostras, tem sempre a mesma intenção: decifrar. E decidi escrever este ensaio por dois motivos: acredito que a fotografia seja hoje a forma mais acessível para decifrar a si mesmo, desfragmentar aquilo que se vê de uma forma que, no final, é o espelho das próprias verdades, e também para homenagear todos os biólogos de campo, parceiros de décadas de estrada que como eu, quase sempre escolhem o desconforto e as agruras de lugares ermos, hordas de carrapatos e mosquitos, na eterna procura da grande descoberta, do clique perfeito.

Fred começou cedo seu interesse pela fotografia e pelo prazer na vida livre. Desde pequeno viajava com seu pai para fazendas e outras paisagens, que levava uma velha
Pentax e compulsivamente fotografava suas aventuras familiares. O prazer pela imagem se concretizou com dominicais tardes junto aos avós, admirando as famosas fotos da National Geographic americana. Na carreira biológica, percebeu o quanto a fotografia é importante como ferramenta para estudos de comportamento e detalhamento de vida selvagem, rumo este que o fez realizar mestrado com raposas-de-campo (Pseudalopex vetulus) e Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous). Passava noites inteiras observando indivíduos e casais destas duas espécies, o que lhe rendeu uma publicação científica na revista especializada em carnívoros, a Canid News. Destas noitadas na região do Limoeiro, município de Cumari no sul de Goiás, que vêm a maioria destas fotos. O que se tem não é necessariamente uma preocupação pela luz e foco perfeitos, que teoricamente as fariam memoráveis para o leitor, mas carrega a importância do registro, da documentação de comportamentos de uma espécie animal, imprescindíveis para um trabalho científico. E sendo para este propósito, estas fotos são tão importantes quanto as que decoram nossa memória. Sem contar que observar carnívoros à noite, e ainda conseguir uma documentação de seus hábitos, vale todo o mérito.

Fred tem inúmeras outras fotos plasticamente belas, dignas de ‘descanso de tela’ para refrescar nosso intelecto, mas preferi concentrar num ensaio científico, onde verdadeiramente há uma informação contida na imagem, e que de alguma forma trás um aprendizado para quem a vê. Aliás, segundo ele, é uma das razões que o fez investir num bom equipamento e compartilhar suas fotos: “Através de minhas fotos, boas ou não, consigo mostrar às pessoas o privilégio que tenho de ser biólogo, de levar até as pessoas coisas que poucos terão a oportunidade de ver pessoalmente”.

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
12 de março de 2026

Mulheres e Oceano: infra estruturas invisíveis da vida?

Tanto o oceano quanto as mulheres carregam uma expectativa silenciosa de que vão aguentar mais um pouco. Mas nenhum sistema consegue ser resiliente para sempre

Salada Verde
11 de março de 2026

Decisão do STF sobre tributos na cadeia de reciclagem preocupa setor

ANAP afirma que incidência de PIS e Cofins pode elevar custos operacionais e pressionar atividades ligadas à coleta e comercialização de materiais recicláveis

Colunas
11 de março de 2026

Desmatamento da Amazônia custa mais de US$ 1 bilhão por ano na conta de luz dos brasileiros

Perda de floresta reduziu chuvas, diminuiu a geração hidrelétrica e elevou os custos da eletricidade no país, diz estudo

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.