De Leonardo Liberali Wedekin
Biólogo, pesquisador – Instituto Baleia Jubarte
Caros amigos,
Simplista e irresponsável as conclusões apresentadas pelo biólogo Salvatore Siciliano (“o que sugere que a exploração do petróleo não cause impacto negativo direto sobre a fauna”).
Gostaria de ter contato com o estudo realizado pelo autor. Existe uma grande probabilidade de que o desenho amostral e os métodos analíticos não tenham sido direcionados para responder a questão ao qual o mesmo tirou as referidas conclusões. A sugestão, neste caso, é infundada e, como bem mencionado, aparente. Somente uma análise empírica sobre a distribuição e ocorrência de cetáceos não são suficientes para verificar os impactos da atividade petrolífera sobre cetáceos.
Uma análise de preferência de habitat, considerando o tráfego de embarcações e a presença das plataformas seria mais coerente para verificar tal questão, o que certamente não foi feito. Inúmeros outros estudos sobre o tema poderiam ser feitos.
A simples presença de “certas espécies” próximo de plataformas não sugere nem indica que não existe impacto. A própria atração de determinadas espécies próximas de plataforma já é um impacto.
Caso a autora da matéria (Sra. Marina) tivesse pesquisado um pouco mais sobre o assunto ou consultado outros especialistas, poderia apresentar um importante contraponto.
Os registro de encalhes da baleia jubarte estão aumentando no Brasil inteiro nos últimos anos, inclusive na costa da BA e ES. Mesmo assim, é impossível relacionar este ou qualquer outra informação sobre encalhes de forma superficial como foi colocado. Mais além, a própria determinação da causa de morte destes animais encalhados, mesmo depois de intensos estudos pós-morte, é difícil.
A atividade petrolífera, em todas as suas fases e facetas, implica em impactos diretos e indiretos sobre os cetáceos. Mais especificamente, as plataformas de petróleo também.
São documentados ou potenciais impactos na fase de prospecção sísmica, perfuração e instalação de plataformas e poços, e operação das plataformas. A resposta de cada espécie de cetáceo a fontes de impacto são variadas. Pode ocorrer habituação a fontes crônicas de impacto, como as plataformas. As plataformas são grandes estruturas artificiais que geram alteração/destruição de habitat de diferentes naturezas (modificação do substrato marinho, obstáculos, geração resíduos sólidos e líquidos, tráfego de embarcações, iluminação artificial, geração de ruídos por diferentes fontes e possibilidade de catástrofes, entre outras).
Da forma com foi apresentado o estudo e a matéria, as conclusões apresentadas não passam de especulação infundada sem embasamento científico. Pelo contrário, estudos e evidências no mundo inteiro sugerem o contrário.
Atenciosamente,
Leia também
Três anos após tragédia, 203 hectares de encostas em São Sebastião seguem em recuperação
Deslizamentos ocorridos em fevereiro de 2023 deixaram 853 cicatrizes de desmatamento na cidade. Cerca de 70% da área já está recoberta de vegetação →
Disputas e contradições continuam após a COP30
Plano Clima indica desafios de implementação; evitar mudanças profundas continua sendo uma linha de ação que envolve greenwashing, lobby e circulação de desinformação →
Como transformar a meta 30×30 de um slogan político para uma realidade ecológica
O recém-aprovado Tratado do Alto-Mar oferece uma oportunidade de proteger o oceano como nunca antes →


