O atropelador se limitou a deixar o corpo no chão e seguir com o pé na tábua sentido Rio de Janeiro, talvez com vontade de esquecer que naquela manhã, por volta das 6h30, passou pelo quilômetro 222 da Dutra, na altura da cidade de Guarulhos. Naquele local não há acostamento por aproximadamente dois quilômetros. Foi justamente naquele ponto que a bicicleta de Rubens foi arremessada para fora da pista.
De modo geral, a morte do metalúrgico de 40 anos ficou totalmente à margem, quase absolutamente esquecida. Coube a um fotógrafo de uma agência de notícia registrar o acidente. Bicicleta destruída, alguns itens de segurança destroçados e uma carteira de habilitação categoria D clicada sobre o capô de um carro de polícia. Na reprodução do documento, a foto de Rubens aparece um pouco fora de foco, distorcida.
O ciclista trabalhador não tinha, em um primeiro momento, nada que fizesse sua história aparecer nos jornais. No dia seguinte, nenhum noticiou o fato. Os portais de notícia também não encontraram motivo para registrar a morte do metalúrgico. “Era um brasileiro comum, trabalhava em uma prensa”, conta o amigo Wender Cayres, de 37 anos.
De bicicleta para o trabalho
Rubens deixou um casal de filhos, que devem ter 9 e 12 anos segundo o amigo. “A vida dele era os filhos dele. Não fazia um esporte no fim de semana”, comenta. Se não era um jogador de futebol ou ciclista amador, é certo que estava longe de ser sedentário: o metalúrgico pedalava aproximadamente 19 km entre sua casa, no Itaim Paulista, e a empresa onde trabalhava em Guarulhos. O tempo e o dinheiro que sobravam ele investia no imóvel. “Tinha uma casinha simples, que ele construiu sozinho.”
O amigo não se lembra de que Rubens reclamasse do esforço das pedaladas ou do trânsito. Mas, os colegas tinham medo. “Por incrível que pareça, na última vez que eu o vi ainda brinquei dizendo que ele era louco de ir pedalando (para o trabalho). Ele disse que ia pelo acostamento, quando precisava atravessar a Dutra ele usava a passarela”, disse o amigo
Na trágica quarta-feira, o ciclista esqueceu o celular em casa. Com o atraso e a ausência de qualquer notícia, coube aos colegas de empresa a busca pelo acidentado. Só os mais próximos souberam o destino do ciclista. Para eles e para a família, não morreu anônimo. Para nós, virou apenas estatística.
* Especial para ((o)) eco Bicicletas. Ardilhes Moreira é jornalista, tem duas bicicletas e vai todo dia para o trabalho da Barra Funda até a Avenida Paulista pedalando.
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Oi eu sou a filha dele , achei essa reportagem depois de muitos anos de pesquisa pesquisando se saiu algo sobre isso , uma forma de entender o que aconteceu com meu pai , por um instante fico feliz em ver que em algum lugar falou sobre meu pai