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A Caatinga virou pasto: macaco ameaçado já perdeu mais da metade de suas florestas

Estudo mostra que avanço do pasto e agricultura no bioma já reduziu em 54% a quantidade de florestas disponíveis para sobrevivência do guigó-da-caatinga

Duda Menegassi ·
27 de outubro de 2025

A perda de florestas está no topo da lista de ameaças para os macacos brasileiros. Na Caatinga, um dos biomas menos protegidos do país, a expansão de pastagens e plantações já ocupa mais da metade do lar do guigó-da-caatinga. O alerta foi dado por pesquisadores que mapearam como a destruição das matas sertanejas pode comprometer a sobrevivência do macaco, que só pode ser encontrado nos estados da Bahia e Sergipe, confinado em florestas cada vez menores.

De acordo com a pesquisa, pelo menos 54,14% do habitat do guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae) já foi desmatado, a maior parte para virar pasto (42%).

O estudo, que reuniu pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), utilizou a base de dados do MapBiomas para entender as mudanças no uso e cobertura da terra dentro da distribuição do guigó entre 1985 e 2021, e cruzou esses dados com registros de ocorrência do macaco.

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Nesse intervalo de 37 anos, a cobertura das pastagens saltou de 30% para 42% na área de distribuição do guigó. Enquanto isso, as matas secas que servem de habitat para o macaco foram reduzidas em 17%. “Atualmente, a maior parte do habitat do guigó-da-caatinga é pasto”, resume a bióloga Bianca Guerreiro, doutoranda da UFRN, que liderou a pesquisa.

Leia mais: Um drama sertanejo: destruição da Caatinga encurrala macaco ameaçado

“Essas tendências destacam uma redução extrema na disponibilidade de habitat para esse primata dependente da floresta, com possíveis implicações para a conectividade entre fragmentos e a persistência da espécie a longo prazo”, alertam os pesquisadores no artigo, publicado no periódico Regional Environmental Change no final de setembro.  

Em destaque, a área de distribuição do guigó-da-caatinga, entre Bahia e Sergipe. De verde claro, as formações savânicas, e de verde escuro as formações florestais. De amarelo, as pastagens e, em vermelho, as áreas urbanas. Fonte: MapBiomas. Mapa produzido por Bianca Guerreiro

O trabalho alerta ainda que muitos dos fragmentos florestais que restam estão isolados por pastagens, no que é conhecido como “mata de fundo de pasto”, onde o gado circula e entra dentro da mata, pisoteando plantas em estágio inicial, compactando o solo e acelerando a degradação ambiental dessa ilha de floresta. A presença dos bois pode favorecer ainda a transmissão de parasitas e patógenos para os animais silvestres.

Ironicamente, durante a pesquisa, os cientistas descobriram uma maior densidade de guigós justamente nessas matas cercadas de pasto. Isso não significa, porém, que a espécie está prosperando por ali. Muito pelo contrário, provavelmente apenas ilustra como esses macacos – dependentes de florestas – foram encurralados pelo avanço do desmatamento e não têm para onde ir. Confinados em um único, isolado e frequentemente pequeno fragmento de mata, o destino desses guigós é quase certamente a extinção.

É o que a ciência chama de “débito de extinção”. Por exemplo, se um desmatamento ocorre hoje, e a floresta é reduzida a uma fração da sua cobertura original, os macacos ainda podem sobreviver com recursos limitados, dando a falsa impressão de que está tudo bem, quando na verdade é apenas questão de tempo até a “dívida” ser cobrada e a espécie desaparecer por completo.

Em boa parte do habitat do guigó-da-caatinga, a floresta foi reduzida a fragmentos cercados por pastagens. Foto: Míriam Plaza Pinto

O intervalo analisado no estudo, entre 1985 e 2021, corresponde ao tempo de vida de quase cinco gerações de guigós-da-caatinga, que é de 8 anos. “Os efeitos da perda de habitat sobre o número ou a ocorrência da população podem ser revelados anos mais tarde, uma vez que os macacos apresentam normalmente uma esperança de vida e uma duração de geração relativamente longas, bem como baixas taxas de reprodução”, explicam no artigo.

“Durante este período de defasagem, a população pode sofrer um declínio devido a vários fatores, tais como a redução das oportunidades de reprodução e o aumento da competição por recursos”, completam os pesquisadores.

Além disso, os macacos presos em fragmentos estão completamente vulneráveis a distúrbios como incêndios e doenças.

O artigo – a primeira investigação temporal sobre mudanças no habitat do guigó-da-caatinga – sugere que devem ser feitos estudos adicionais sobre a qualidade desses fragmentos e sua conectividade com outros remanescentes para compreender melhor as chances de sobrevivência do primata.

Uma coisa é certa, porém, ações de restauração ecológica, que recuperem a cobertura de florestas e aumente a conectividade entre os fragmentos, são fundamentais para o futuro do guigó. Assim como a promoção de práticas mais sustentáveis na agropecuária.

O guigó-da-caatinga depende das florestas da Caatinga. Foto: Duda Menegassi

Caatinga e guigó desprotegidos

O guigó é a única espécie de primata endêmica da Caatinga, ou seja, que pode ser encontrada exclusivamente no bioma. E a sua história repete a da Caatinga, que já perdeu cerca de metade de sua cobertura original e muito do que ainda está de pé sofre com a degradação ambiental devido a atividades humanas. Um cenário agravado pelo baixo número de áreas protegidas que resguardam o que sobrevive da Caatinga e não cobrem nem 10% do bioma. 

De acordo com a mais recente avaliação nacional do ICMBio, o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae) é classificado como Em Perigo de extinção. Na Lista Vermelha Internacional (Red List) da IUCN, o guigó é classificado como Criticamente Em Perigo. 

A espécie foi inclusive listada entre os 25 primatas mais ameaçados do mundo para o biênio 2023-2025. E as principais ameaças são justamente a perda, degradação e fragmentação de habitat. 

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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