Às vésperas da COP30, que começa na próxima segunda-feira (10), em Belém, a comunidade científica brasileira chega com um duplo recado: é preciso colocar a ciência no centro das decisões e antecipar em uma década a meta nacional de neutralidade de carbono. Dois documentos lançados nas últimas semanas – o Brazil Net-Zero by 2040 e a proposta da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, reforçam que o país pode liderar uma transição climática baseada em resiliência, inovação e justiça social, se houver vontade política e continuidade institucional.
Durante o Workshop Integração e Fortalecimento da Ciência na Agenda Climática Brasileira, realizado em outubro no Rio de Janeiro, 72 pesquisadores e gestores de 50 instituições apresentaram o conceito de uma “economia da adaptação”. A ideia é deslocar o foco das políticas públicas de mitigação das emissões para a preparação do país diante dos impactos já inevitáveis da crise climática. “O planeta já atingiu temporariamente 1,5°C de aquecimento entre 2023 e 2024, e a Amazônia começa a perder sua função de sumidouro de carbono”, alertou o climatologista Carlos Nobre, durante o evento. “Sem ciência integrada e políticas de longo prazo, o colapso climático regional é questão de tempo.”

Em paralelo, o estudo Brazil Net-Zero by 2040, coordenado pelo Instituto Amazônia 4.0, propõe caminhos concretos para o país zerar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) até 2040, dez anos antes do previsto nas metas globais. O trabalho utiliza o modelo BLUES, desenvolvido pela COPPE/UFRJ, e aponta dois eixos possíveis: um centrado em agricultura, florestas e uso da terra (AFOLU 2040), com desmatamento zero até 2030 e forte reflorestamento, e outro voltado à transição energética (Energy 2040), que prevê a eliminação da produção de petróleo e gás e o fortalecimento de biocombustíveis com captura e armazenamento de carbono. “O Brasil precisa ser negativo em CO₂, absorvendo mais do que emitindo. Esse é o nosso desafio único”, disse o engenheiro Roberto Schaeffer, da COPPE.
Ambas as propostas convergem na necessidade de uma nova estrutura de governança climática e de um ecossistema nacional de finanças para adaptação, integrando Finep, BNDES, Fundo Clima e Fundo Amazônia. Hoje, apesar do aumento dos recursos do FNDCT, que passaram de R$ 5,5 bilhões em 2022 para R$ 17 bilhões em 2025, os investimentos ainda não acompanham a escala das necessidades. “A ciência brasileira tem as ferramentas e o conhecimento. Falta transformar isso em política de Estado”, enfatizou Nobre. “Se não ancorarmos a transição climática em evidências, perderemos não só a Amazônia, mas a chance de liderar um novo modelo de civilização tropical sustentável.”
O diagnóstico dos cientistas é claro: a Amazônia, que cobre 60% do território brasileiro, recebe menos de 4% dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Enquanto isso, eventos extremos se multiplicam. O Acre registrou 202 entre 1987 e 2023 e a contaminação de peixes por mercúrio e microplásticos ameaça a segurança alimentar de populações ribeirinhas. “O desafio é transformar a Amazônia em um centro de inovação climática e não em um retrato do colapso global”, reforça Nobre. Para os pesquisadores, a COP30 será o teste definitivo da capacidade brasileira de unir conhecimento, financiamento e vontade política para construir um futuro possível.
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