Entre a noite do dia 18 e madrugada do dia 19 de fevereiro de 2023, uma chuva torrencial caiu sobre a cidade de São Sebastião, litoral norte paulista. Foram 682 milímetros em 24 horas, o maior acumulado que se tem registro no país. Além das 65 vidas ceifadas em decorrência dos deslizamentos provocados pela precipitação, a chuva deixou 853 cicatrizes nas encostas, vegetação que, passados três anos da tragédia, ainda luta para se recuperar.
O trabalho de recuperação destas áreas teve início um mês após a tragédia, quando o Instituto de Conservação Costeira (ICC) – entidade socioambiental dedicada à conservação da Mata Atlântica – apresentou ao poder público estadual um projeto de restauração, como resposta à instabilidade das encostas e ao risco de novos deslizamentos.
Passados dois anos de execução efetiva do projeto – o primeiro ano pós tragédia foi voltado para construção das melhores estratégias a serem empregadas – , 203 hectares, ou cerca de 280 campos de futebol, continuam em recuperação.
“O trabalho conta com monitoramento técnico contínuo, que aponta que mais de 70% das áreas já estão recobertas por vegetação nativa, demonstrando avanço consistente no processo de regeneração ambiental”, disse o ICC, por meio de nota, a ((o))eco.


Como as áreas atingidas possuíam alta declividade e difícil acesso, a técnica de dispersão das sementes é feita com uso de drones. As sementes são dispersadas em cápsulas biodegradáveis, para aumentar a eficiência do processo.
Ao longo do tempo de execução, foram lançadas mais de 134 milhões de sementes nativas da Mata Atlântica, como crindiúva, guapuruvu e embaúbas.
Braço educacional
Por sua topografia e histórico geológico e ocupacional – leia mais na reportagem “Litoral de SP: as diferentes camadas da tragédia e porque ela pode se repetir” – São Sebastião é considerado um município com alta suscetibilidade a desastres climáticos.
Além do trabalho de recuperação ambiental, também tem sido desenvolvido na cidade um programa de educação climática, com oficinas semanais sobre prevenção de riscos em escolas públicas.

O Projeto Escolas Seguras, como é chamado localmente, educa comunidades escolares em áreas vulneráveis para prevenir desastres naturais e climáticos. Com foco em educação para redução de risco (ERRD), ele capacita estudantes e professores a reconhecer perigos, usar tecnologias de monitoramento (pluviômetros) e criar planos de contingência, tornando os alunos protagonistas na resiliência local.
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