Reportagens

Mulheres à margem

Todo ano, um grupo percorre a barco um trecho do rio Araguaia, no Tocantins, retirando o lixo, reflorestando e educando a população. Mas só aceitam homem.

Angélica Mendonça ·
21 de março de 2005 · 19 anos atrás

O que dizer sobre um bando de homens que se reúne para descer um rio com seus barcos durante três dias, sem nenhuma mulher a bordo? Programa de pescador ou farra de mulherengos? Nada disso que você está pensando.

O Amigos do Araguaia é um evento anual no qual mais de cem homens, entre comerciantes, empresários, médicos, arquitetos, contadores e professores fazem um passeio ecológico pelas águas do principal rio do Tocantins. E a causa ecológica não é só desculpa para deixar a patroa sossegada em casa. Há cinco anos, o grupo só faz crescer e os resultados são visíveis nas margens do Araguaia: recuperação das matas ciliares, praias mais limpas e verdadeiras festas de recepção nas cidades por onde passam.

Tudo começou no ano 2000, em um bate-papo de um grupo de amigos de Colinas do Tocantins. Eles já navegavam o Araguaia há mais de vinte anos, praticando pesca amadora e esportiva, e decidiram que, no próximo passeio daquele ano, além de se divertir iriam fazer ações para preservar as águas do rio. Em pouco mais de dez barcos, percorreram um trecho do rio limpando suas margens e plantando algumas espécies da flora nativa.

Este ano o passeio aconteceu entre os dias 3 e 6 de março, com a participação de 51 barcos. A “largada”, com pompas garantidas pela Prefeitura Municipal, foi em Couto de Magalhães, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes a 400 quilômetros da capital Palmas. Como ato simbólico foi plantada a primeira árvore do passeio de 2005. Em três dias, os Amigos do Araguaia percorreram 280 quilômetros e passaram por sete municípios tocantinenses: Couto de Magalhães, Juarina, Bernardo Sayão, Pau D’Arco, Araguanã, Araguaína e Xambioá.

Durante todo o trajeto, os navegantes coletam o lixo depositado nas praias do rio e promovem palestras para as populações das cidades ribeirinhas sobre poluição aquática e proibição da pesca durante a piracema (período de reprodução dos peixes). Cartilhas educativas elaboradas pelo grupo são distribuídas em todos os pontos de parada. Alunos do ensino público e de programas sociais participam de palestras, como parte complementar dos seus currículos escolares. “O passeio tornou-se importante para as crianças, pois traz informações úteis sobre conservação do meio ambiente e conscientização ecológica”, afirma, Lisiane Guedes, coordenadora do programa Pioneiros Mirins da cidade de Pau D’Arco.

Outra ação importante é o reflorestamento das margens do Araguaia com mudas de espécies nativas como pau-brasil e mogno. O grupo já plantou mais de 4 mil mudas doadas pelas prefeituras e pelos órgãos ambientais do Estado. Este ano foram plantadas e distribuídas cerca de 800 mudas de jatobá, pau-brasil e sangra d’água.

“Nosso principal objetivo é conscientizar os usuários do Araguaia para a preservação da natureza, não deixando lixo ou dejetos de qualquer espécie nas praias do rio”, discursa Pedro Chaves, um dos palestrantes oficiais do evento. Pedro não tem carteirinha de ambientalista. É professor de Língua Portuguesa da rede pública em Colinas e aderiu ao passeio logo na segunda edição. Ele diz que se interessou pelo projeto por sentir-se responsável pela conservação de uma das maiores riquezas locais. “Quando comecei a viajar, minha esposa achou estranho só homem poder participar. Ela não se conformava em ficar sozinha enquanto eu estava com meus amigos”, conta. Hoje ela, assim como boa parte da população local, entende e incentiva os Amigos do Araguaia.

Para participar do passeio deve-se preencher dois pré-requisitos: ser do sexo masculino e possuir canoa e motor de popa. No ato da inscrição é cobrada uma taxa simbólica de 15 reais, revertida em material promocional como bonés e camisetas. Cada etapa da viagem leva em média de três a quatro horas. As paradas são nas cidades em que se realizam as ações ecológicas. Apesar de contar com o apoio dos municípios, a maioria dos recursos dos Amigos do Araguaia vem do bolso dos próprios participantes e organizadores.

As atividades não ficam restritas ao passeio educativo pelo rio. Durante os outros meses do ano, especialmente em julho, alta temporada do turismo nas praias de água doce da região, eles orientam os visitantes sobre o armazenamento adequado do lixo.

Atualmente o projeto passa por uma transição. Apesar de já ser bastante conhecido, o Amigos do Araguaia ainda não é registrado formalmente, o que deve acontecer até abril. “Queremos ter mais respaldo dos Governos Federal e Estadual. Quem mais depreda o Araguaia não é o ribeirinho, mas os grandes fazendeiros. Para reverter essa situação é necessário apoio do governo”, explica José Eustáquio Pires, médico oficial do grupo e um de seus idealizadores. Há 30 anos navegando no Araguaia, ele conta que a depredação e o assoreamento estão mudando o leito do rio e vem se tornarando preocupantes.

O Rio Araguaia nasce em Goiás e percorre cerca de 2 mil quilômetros, demarcando toda a fronteira oeste do estado do Tocantins, em sua divisa com Mato Grosso e Pará. Deságua no rio Tocantins, no chamado Bico do Papagaio, divisa entre Pará, Tocantins e Maranhão. As principais atividades ao longo do rio são a pesca e o turismo proporcionado pelas praias fluviais. A flora e a fauna do Araguaia contam com grande diversidade de espécies. Só de peixes são mais de 200 identificadas. É comum avistar botos e jacarés no trajeto do rio. Ao redor dele, animais raros e ameaçados de extinção, como o bugio, a onça-pintada, a jaguatirica, o cachorro-do-mato-vinagre, o guará, a lontra, o veado-campeiro, o tatu-canastra, o boto-tucuxi, o mutum e o jacu.

Um problema atual nas margens do Araguaia é o desmatamento promovido por fazendeiros para plantios e criação de gado. Mas os Amigos do Araguaia acreditam que já influenciaram uma mudança de comportamento. Segundo eles, nos últimos anos nota-se que o desmatamento está diminuindo devido à conscientização ambiental.

O calcanhar-de-aquiles do projeto continua sendo o veto à presença feminina. Os organizadores argumentam que o percurso é cansativo e não oferece o conforto adequado e merecido às mulheres. No que são imediatamente contestados. “Hoje as mulheres participam de muitas atividades, antes desenvolvidas somente por homens. Acredito que usar a justificativa de que o passeio é cansativo é, no mínimo, uma posição machista, pois existem muitas mulheres que se interessam pelo meio ambiente e são ativistas dessa causa, não tendo nenhuma exigência quanto ao quesito conforto”, reclama Giovana Helena Ferreira, secretária de Administração de Colinas.

Pressionado, o grupo cogita inaugurar uma etapa feminina do projeto. Seria o Amigas do Araguaia, em que elas também poderiam contribuir para preservar o rio e sensibilizar moradores e turistas sobre a preservação ambiental. Mas escoltadas pelos homens, claro.

* Angélica Mendonça é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Escreve para a revista Tocantins Total e é repórter do caderno de cultura do Correio do Tocantins.

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