Reportagens

Versão brasileira

É possível fazer uma ceia de Natal apenas com produtos orgânicos? Difícil, com os cardápios essencialmente exóticos que adotamos. Mas existem alternativas.

Ana Antunes ·
9 de dezembro de 2005 · 20 anos atrás

Todo ano é a mesma coisa. Chega dezembro e a ceia de Natal se torna a principal preocupação de muita gente. Principalmente os ecologistas, que prezam produtos naturais, livres de agrotóxicos e inofensivos ao meio ambiente. Será possível fazer uma ceia inteiramente orgânica?

Difícil. O problema dos cardápios de Natal é que eles não são nada brasileiros. Em pleno verão, nos rendemos aos costumes tradicionais europeus e enchemos a mesa com pratos pesados típicos do inverno de lá. O peru, por exemplo, deve sua fama natalina ao rei Henrique VIII, que governou a Inglaterra no século XVI. A ave, que até então alimentava os imperadores astecas, foi descoberta junto com as Américas e incorporada pelo rei à ceia de Natal. Substituiu o pavão e o cisne na celebração do nascimento de Jesus, e o costume se espalhou pelo mundo.

Peru orgânico no Brasil? Não tem, garantem os especialistas do ramo. “Desconheço totalmente”, diz Ângela Thompson, dona do Sítio do Moinho, que produz e revende produtos desse gênero. O jeito, sugere ela, é substituir o peru por frango caipira ou algo ainda mais tropical, como camarão. E antes que os ambientalistas se arrepiem, é bom esclarecer: nem todo camarão é produto da devastação dos manguezais na costa nordestina. Já existem os orgânicos devidamente certificados.

Resolvido o problema do peru, chega-se ao dilema das nozes. No Império Romano, essas castanhas, além de alimentarem, serviam de brinquedo para as crianças, e na casa dos ricos eram banhadas em ouro e usadas como decoração. Somos fiéis à tradição, mas não precisa. A castanha-do-pará, hoje também conhecida como castanha-do-brasil, é tão ou mais saborosa que a exótica noz, e pode ser obtida de cultivos sustentáveis, que preservam a floresta de pé e garantem a renda de vilas e povoados na Amazônia. Fáceis de achar, assim como a também deliciosa castanha do caju.

No setor de sobremesas a coisa fica mais fácil, desde que você esteja disposto a prepará-las em casa. Todos os ingredientes da rabanada (ovos, pão, leite, açúcar e canela) podem ser encontrados em versão orgânica. O prato é de origem portuguesa e um dos preferidos por mulheres em fase de amamentação, pois acreditava-se que a rabanada aumentava a produção de leite. Por que o doce foi parar na ceia de Natal, é uma incógnita. Talvez uma referência a Maria, mãe de Jesus…

O panetone também pode ser preparado com ingredientes orgânicos, numa mistura entre o tradicional recheio de uvas passas e a adaptação brasileira da castanha-do-pará. A história do panetone é curiosa. Especula-se que foi criado por um padeiro para ganhar a simpatia do pai de sua amada. Para coroar a estratégia, o moço deu o nome do sogro à sua criação: era o pão de Tone.

Alguns países do hemisfério sul já abriram mão dos costumes natalinos exóticos, adaptando a festa à sua realidade. Na Austrália, por exemplo, a ceia é feita na praia, para aproveitar o verão, e na África do Sul a refeição acontece em parques e jardins. Por aqui ainda estamos muito ligados às tradições dos nossos colonizadores. Quem sabe a iniciativa de fazer uma ceia orgânica não é uma oportunidade de criar um Natal mais brasileiro?

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
10 de abril de 2026

Inscrições para segunda turma do curso de Jornalismo Ambiental abrem na segunda-feira (13)

Formação de ((o))eco oferece aulas online, encontros ao vivo e foco em cobertura socioambiental, com destaque para a Amazônia

Salada Verde
10 de abril de 2026

Nova presidente da Funai é empossada no último dia do ATL 2026

Posse de Lúcia Alberta ocorre na plenária principal do ATL, em Brasília, com presença de lideranças indígenas, autoridades federais e anúncio de medidas

Análises
10 de abril de 2026

Está na hora de transformar a merda em adubo, literalmente

Integrar saneamento e restauração não é apenas uma inovação técnica, é uma mudança de paradigma. Significa criar cadeias produtivas baseadas na circularidade

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.