Reportagens

Rock sujo

Show dos Rolling Stones em Copacabana é mais uma demonstração de descaso das autoridades com a praia. Não há banheiro que chegue para 1,5 milhão de pessoas.

Juliana Tinoco ·
17 de fevereiro de 2006 · 21 anos atrás

Se você não gosta de rock, fique longe de Copacabana neste sábado. Se não tolera lugares imundos, melhor não ir domingo também.

Como já acontece uma vez por ano, mais precisamente em cada virada de um para outro, a famosa praia carioca vai lotar. Desta vez, serão fãs da banda americana Rolling Stones. Para minimizar os efeitos de um milhão e meio de cidadãos ávidos por aliviar suas necessidades fisiológicas durante o show, a prefeitura, organizadora do evento, anunciou que banheiros químicos estarão espalhados pela praia. Mas não se deixe enganar: é impossível manter a higiene da orla diante de um impacto desses.

Aos dados técnicos: cada cabine individual de um banheiro químico possui um reservatório que armazena 3 litros de água com um produto químico chamado sanisor. Ele dissolve todos os detritos orgânicos e também os papéis jogados pela privada. Tudo vira uma só pasta, que fica armazenada dentro da caixa do banheiro. A capacidade máxima do banheiro é de 20 litros desses dejetos. No final do uso, a pasta é levada através de um cano para um caminhão e enviada para estações de tratamento de esgoto. Tudo muito bonito e seguro para o meio ambiente. Teoricamente.

O problema é a quantidade. A prefeitura informou que o público do mega-show teria à sua disposição 200 banheiros químicos. A promotora de meio ambiente Denise Tarin, do Ministério Público Federal, manifestou-se contra a decisão. Pediu 600 banheiros, mas esbarrou na questão da segurança. A prefeitura alegou que isso criaria um paredão de sanitários químicos, dificultando o ir e vir da multidão. A promotora ameaçou embargar o show e conquistou um acordo. O número final de banheiros ficou em 300 e não se fala mais nisso.

Dá uma média de 5 mil pessoas por banheiro. O recomendado por especialistas é um sanitário para cada 75 usuários. “Esse número não dá nem para começar a brincar. Dá vazão para, no máximo, o pessoal da organização do show. Corre o risco, inclusive, de os banheiros transbordarem”, diz um técnico de empresa que aluga banheiros para a prefeitura, que preferiu não se identificar.

Some-se a cena dos 300 banheiros químicos vazando à quantidade de gente que vai se aliviar na areia mesmo, e tem-se o quadro do descuido das autoridades com o principal cartão postal da cidade do Rio de Janeiro: a praia.

  • Juliana Tinoco

    Juliana Tinoco é jornalista multimídia especializada na cobertura de Meio Ambiente, Ciência e Direitos Humanos. Por quinze an... →

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