Reportagens

Medindo as forças

Japão consegue seu maior avanço dos últimos 20 anos na Conveção Internacional da Baleia, mas proibição à caça ainda está de pé. Conservacionistas estão aliviados.

Gustavo Faleiros ·
20 de junho de 2006 · 20 anos atrás

Poderia ter sido pior. Esta é avaliação das organizações e países conservacionistas que participaram nos últimos 5 dias, na ilha caribenha de Saint Kitts e Nevis, da 58ª Reunião da Comissão Internacional da Baleia (CIB). Previsto para terminar nesta terça-feira, o encontro iniciou-se, nas palavras do vice-comissário brasileiro José Truda Palazzo Jr., com o “pior clima possível”. Esperava-se que o Japão, principal defensor da caça, conseguisse derrubar medidas de proteção ao maior mamífero do planeta.

A principal vitória japonesa foi obtida no domingo, quando pela diferença de um voto (31X30) os países baleeiros aprovaram uma declaração da CIB reconhecendo que a moratória à caça já não é mais necessária. Estabelecida há 20 anos, a proibição não foi de forma alguma suspensa, uma vez que é necessário 75% dos votos para a retomada da caça comercial. Contudo, esta declaração, o maior triunfo obtido na CIB pelo Japão nas últimas duas décadas, significa que a queda da moratória ganhou força política.

Prova disso foram declarações dos primeiros-ministros da Islândia e Noruega, dois países com tradição baleeira, elogiando a proposta aprovada em St. Kitts. “É correto ter uma política consistente de cotas para a caça de baleias”, disse o norueguês Jens Stoltenberg, segundo artigo da agência Reuters . Já o islandês Geir Haarde afirmou ver a decisão como um “apoio ao uso correto de recursos naturais.”

Tais visões convergem com as explicações dadas anteriormente a O Eco pelo secretário para assuntos de pesca da Embaixada Japonesa no Brasil, Ichiro Abe. Segundo ele, a moratória foi sufiente para causar uma superpopulação de baleias, permitindo assim a volta da caça comercial. Aliás, um dos trechos do documento aprovado na 58ª Reunião afirma que a população de cetáceos já estaria contribuindo para a redução de estoques de outros animais marinhos.

A delegação brasileira considerou o triunfo japonês apenas simbólico, uma “vitória de pirro”, segundo Truda Palazzo. “A decisão não tem quaisquer efeitos diretos sobre a forma de trabalho da CIB ou sobre a moratória da caça, mas coloca em evidência o crescente sucesso do Japão em atrair votos para seu bloco à custa de promessas de ajuda financeira”, diz.

Pressão

A força do bloco japonês também pôde ser medida pelo tamanho de sua delegação: 35 membros foram levados a St. Kitts. O Brasil contou apenas com três comissários. No comitê científico, onde se discute, por exemplo, o crescimento populacional das baleias, a situação também não foi diferente. Cerca de 80 cientistas representaram o Japão enquanto os Estados Unidos, único país conservacionista capaz de confrontar a maioria japonesa, enviou 20 cientistas para participarem das decisões.

Para organizações ambientalistas, o mais importante da plenária em St. Kitts foi o Japão não ter conseguido aprovar decisões que poderiam ter impacto direto sobre a conservação de cetáceos. Por exemplo, havia uma proposição de que a CIB deixasse de tratar de cetáceos menores, como golfinhos e botos. Ou ainda, para que a atividade de turismo de observação deixasse de ter um comitê específico. Sobretudo, foi considerada crucial a derrota da proposição de voto secreto feita pelo bloco baleeiro. Se tivesse sido aprovada, temia-se que a moratória caísse com mais facilidade.

A proposta brasileira, feita em conjunto com Argentina, Austrália e Nova Zelândia, de criação de uma área livre de pesca de baleias, o Santuário do Atlântico Sul, foi levada mais uma vez à votação. O resultado, abaixo dos 75% necessários, não permitiu a implementação da zona protegida. Segundo Truda Palazzo, a vitória por maioria simples foi política, pois mantém em pauta o interesse dos países do Sul em proibírem a caça.

Agora, todos os olhos devem se voltar para os Estados Unidos, onde ocorrerá a próxima reunião da CIB, mais precisamente em Anchorage, no Alaska. Tradicionalmente pró-conservação de baleiais, o governo americano defende a pesca controlada para os povos indígenas, como o fazem exatamente os esquimos do Alaska. Porém, espera-se que os países baleeiros pressionem os Estados Unidos a flexibilizar cotas de caça comercial para que os índigenas americanos continuem a ter direito de caçar.

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
12 de março de 2026

Governo institui política para acolher animais resgatados

Nova legislação estabelece responsabilidades para governos e empreendedores no resgate e manejo de animais domésticos e silvestres em emergências ambientais

Notícias
12 de março de 2026

((o))eco relança a Campanha de Membros para sustentar jornalismo ambiental aberto e independente

Programa amplia participação de leitores e busca sustentar produção independente sem adoção de paywall

Colunas
12 de março de 2026

Mulheres e Oceano: infra estruturas invisíveis da vida?

Tanto o oceano quanto as mulheres carregam uma expectativa silenciosa de que vão aguentar mais um pouco. Mas nenhum sistema consegue ser resiliente para sempre

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.