Reportagens

Os cetáceos e o petróleo

Estudo revela que golfinhos e botos do litoral de Campos – maior área de produção de petróleo do país – convivem bem com a atividade de prospecção marinha. O perigo são os barcos.

Marina Lemle ·
16 de março de 2007 · 15 anos atrás

Ao contrário do que se poderia supor, as plataformas de petróleo não causam impacto direto sobre baleias e golfinhos. É até possível que gostem das vigas incrustadas de cracas, anêmonas, corais e crustáceos que atraem peixinhos e das luzes e sons que servem para orientação. A conclusão é do biólogo Salvatore Siciliano, coordenador do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (Gemm-Lagos), da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, e um dos autores do guia “Baleias, Botos e Golfinhos na Bacia de Campos”, lançado ano passado. O livro descreve, mapeia e informa o status de conservação de 30 espécies de ocorrência confirmada entre o norte do estado do Rio de Janeiro e o sul do Espírito Santo, área de maior produção de petróleo do país.

Desenvolvido em parceria com a Gerência de Avaliação e Monitoramento Ambiental do Centro de Pesquisas da Petrobras (AMA/Cenpes), o levantamento embasa respostas a questões pontuais do Ibama sobre padrões de distribuição e comportamentos de cetáceos em processos de licenciamento ambiental. A empresa procurou o grupo da Fiocruz por causa das linhas de pesquisa já em curso. “É importante para a empresa conhecer a dinâmica dos cetáceos na região. Não observamos relação de causa e efeito entre a exploração de petróleo e gás e o padrão de mortalidade de cetáceos na Bacia de Campos”, afirma Siciliano.

Por serem animais de amplo deslocamento e complexa distribuição, a Petrobras patrocinou expedições que cobriram tanto as águas rasas da plataforma continental quanto as mais profundas, além do talude continental. Segundo o biólogo Moacir Apolinário, a pesquisa permitiu uma visão mais ampla da distribuição espacial dos cetáceos, e a análise de dados naturais como temperatura de superfície do mar, relevo de fundo e profundidade ajudarão a interpretar esta distribuição. Ele lembra que as expedições possibilitaram ainda a realização de estudos comportamentais dos animais e a coleta de material genético (pele e gordura) para análises populacionais. “A pesquisa é um passo para defendermos a idéia de um licenciamento amplo e regional quando se tratando de organismos de ampla distribuição ao longo do Atlântico Sul”, diz.

Saúde ambiental atrai baleias em recuperação

De acordo com Salvatore Siciliano, a presença de baleias e golfinhos na região de Campos se deve à riqueza do ambiente. “No litoral do Rio de Janeiro ocorre o fenômeno da ressurgência costeira, que é um enriquecimento de toda a cadeia alimentar, desde o fitoplâncton. A água fria, cheia de nutrientes e oxigênio, vem até a superfície. Com o sol, aumenta a produção do fitoplâncton e há uma explosão de vida marinha”, explica.

O biólogo afirma que as baleias jubarte e franca estão se recuperando bem, depois de um século e meio de caça comercial. A equipe da Ensp avalia se há padrões de encalhes e em que épocas do ano eles são mais freqüentes. Segundo ele, de três a cinco jubartes encalham por ano no litoral do Rio de Janeiro, um padrão de mortalidade que permanece igual desde os anos 80, o que sugere que a exploração do petróleo não cause impacto negativo direto sobre a fauna. Siciliano observa, entretanto, que a exploração de petróleo é anterior às pesquisas, e não havendo dados anteriores para comparação, a conclusão de que não haja relação de causa e efeito é apenas aparente. Entre os riscos reais, ele menciona vazamentos de óleo e o aumento do tráfego de embarcações, que pode resultar em atropelamentos.

Se, em condições normais de temperatura e pressão, isto é, sem catástrofes como a da plataforma P-36 em 2001, os cetáceos convivem bem com essas gigantes estruturas metálicas, o mesmo não se pode dizer da relação dos animais com barcos, principalmente os de pesca artesanal. O biólogo explica que botos e golfinhos ficam presos em redes de espera, lançadas ao mar e deixadas submersas durante horas, com o barco à deriva, para capturar tainhas, corvinas e o que mais tentar passar por ali. “O boto-cinza e a toninha sofrem muito com a pesca artesanal”, lamenta.

* Marina Lemle é jornalista especializada em ciência e tecnologia. Trabalha na ONG Viva Rio e colabora para o site SciDev.Net.

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