Reportagens

A fatura do aquecimento

A mudança do clima pode representar uma perda sem precedentes da biodiversidade. Projeto no Triângulo dos Corais, no Pacífico, mostra como adaptar as espécies ao perigo.

Gustavo Faleiros ·
20 de dezembro de 2007 · 14 anos atrás

O ano de 1998 representou um duro golpe para os conservacionistas que trabalham com a vida marinha. Aquele foi o ano do El Niño, fenômeno em que as águas do Pacífico ficaram mais quentes e diversas regiões do mundo experimentaram desequilíbrios climáticos. Naquele momento, o Triângulo dos Corais, uma enorme barreira que se espalha pelos mares da Indonésia, Filipinas e Malásia, registrou um verdadeiro processo de ‘destruição em massa’. Com o aumento da temperatura, 16% dos 5,7 milhões de metros quadrados ficaram esbranquiçados (coral bleaching). Isso significa que a estrutura calcária perdeu todas as suas algas e, consequentemente, a cadeia alimentar inteira ficou prejudicada.

Lida Pet-Soede é uma holandesa que vive há 14 anos na Indonésia e coordena o programa de proteção ao Triângulo dos Corais pelo World Wildlife Fund (WWF). Ela conta como a comunidade científica está assustada com a possibilidade de que o aquecimento global possa representar um impacto sem precedentes sobre a vida marinha. O Triângulo dos Corais é a verdadeira “Amazônia marinha”, onde está registrada a maior biodiversidade aquática do planeta; mais de três mil espécies de peixes de recife, seis das sete espécies de tartarugas conhecidas, e 75% das variedades dos corais existentes. “Há pessoas que dedicaram sua vida à proteção dos corais e quase choram quando pensam que as futuras gerações talvez não possam conhecer recifes como os do Triângulo”, afirma Lida.

Quem visita o parque marinho da Bali Barat, na Indonésia, a cerca de 130 quilômetros de onde delegações de 190 países se reuniram entre os dias 3 e 14 de dezembro para decidir sobre um novo acordo de combate às mudanças climáticas, pode ver o estrago feito pelo o temporário aquecimento causado pelo El Niño. Com um snorkel e um pé de pato é possível nadar no meio de uma grande quantidade de corais esbranquiçados, que só agora, 10 anos depois, começam a se recuperar. Se as previsões mais pessimistas se confirmarem e os novos acordos do clima não conseguirem impedir um aumento além de 2º C na temperatura mundial, é provável que os oceanos se tornem muito quentes e extremamente ácidos para os corais.

Também não é preciso ir muito longe do centro de convenções de Bali, onde ocorreu a 13ª Conferência da ONU sobre Mudanças do Clima, para entender o que vai acontecer com a principal atividade econômica que depende dos corais, a pesca. Em 1998, o El Niño levou a uma redução de estoques pesqueiros e, além disso, a Indonésia passava por uma enorme crise econômica devido à quebra das bolsas de valores dos Tigres Asiáticos. Neste momento, comunidades do entorno do parque de Bali Barat partiram para a caça predatória, destruindo ainda mais os corais. Ou ainda, decidiram extrair corais para fazer cimento, como alternativa aos baixos lucros da pesca.

Para Lida, a degradação de corais poderia atingir um nível irreversível com o aquecimento global. O programa que ela coordena no WWF investe em comunidades de pescadores localizadas em áreas repletas de recifes de corais e tenta mudar os padrões de produção destas populações. Em Bali Barat, os moradores das vilas próximas ao parque trocaram a pesca como atividade principal por fazendas de algas marinhas, de onde conseguem extrair matéria-prima para doces e salgados manufaturados. “Com a diminuição da pesca predatória estamos trabalhando para aumentar a resistência dos corais”, diz a ambientalista.

Como os impactos do aquecimento estão se tornando cada vez mais uma realidade, trabalhos como o que Lida faz na costa de Bali vão se tornar essenciais nos próximos anos. No jargão dos cientistas do clima, projetos como o do WWF, que buscam aumentar a resistência da biodiversidade, podem ser tratados como adaptação às mudanças climáticas. Uma das conclusões mais chocantes do quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), lançado neste ano, é de que com um aumento de até 2,5º C na temperatura média do globo, de 20% a 30% das espécies poderiam ser extintas.

Conta para pagar

Com a perda da biodiversidade, os impactos econômicos projetados sobre a pesca, a agricultura e o extrativismo são gigantescos. Durante a Conferência do Clima, a ONU apresentou uma conta de que serão necessários 50 bilhões de dólares/ano para investimentos em adaptação. No entanto, essa estimativa está largamente baseada nos impactos que o aquecimento trará nos assentamentos humanos, muito pouco está sendo gasto em pesquisa e levantamento sobre como evitar ou lidar com a perda da biodiversidade causada pelo aquecimento.

Habiba Gitay, membro do IPCC, é uma das mais renomadas pesquisadoras das relações entre mudança climática e impactos sobre biodiversidade. Atualmente trabalha no Instituto do Banco Mundial com políticas para adaptação. Sua opinião é de que o aquecimento impõe uma série de novas práticas sobre aqueles que trabalham com conservação. A proteção da biodiversidade, diz, ficará cada vez mais difícil com o uso de parques e reservas. “A área protegida se tornará uma ilha no momento em que vamos precisar de conectividade”, explica.

Segundo ela, o importante será planejar o ecossistema de forma que tanto paisagens de baixa quanto de alta altitude estejam contempladas. O método de planejamento proposto por Habiba é muito parecido com o que no Brasil conhecemos como zoneamento ecológico-econômico. Ela não descarta a idéia de que com o risco de algumas espécies não se adaptarem às mudanças do clima e do ambiente, tenhamos que lançar mão de formas de conservação mais intensas, como manter animais em zoológicos. Mas sua visão é de que um planejamento envolvendo proprietários rurais, moradores das cidades e pesquisadores seria o melhor para preservar a saúde dos ecossistemas por um longo período. “Quando mais degradado estiver o ecossistema, maior será o impacto do aquecimento.”

Hannah Reid, pesquisadora do International Institute of Environment and Development (IIED), instituição inglesa dedicada aos temas de adaptação, argumenta na mesma linha da Habiba. Pensar em adaptação da biodiversidade agora exige mais ação e planejamento do que pesquisas, diz. Ela acha que uma boa forma de chamar a atenção dos governantes é apontar a forte dependência de algumas economias com a biodiversidade. O Brasil, é claro, poderia entrar nesta lista, basta lembrar que os bens agropecuários estão no topo de nossa lista de produtos mais exportados. Mas Hannah afirma que serão as comunidades mais pobres quem mais sofreram com os impactos do aquecimento. “Aqueles que dependem de uma lavoura somente ou coletam algumas poucas espécies são extremamente vulneráveis ao desequilíbrio climático”, alerta.

Enquanto Lida Pet-Soede caminha pelas fazendas de alga marinha explicando como os pescadores as secam para que depois as transformem em biscoitos e outras guloseimas, ela conta sobre as dificuldades de implementar um planejamento como este defendido por Habiba e Hannah. “É difícil fazer a comunidade entender que há partes do recife de corais que não devem ser visitadas ou exploradas”, pondera. “Por outro lado quando isso ocorre, eles fiscalizam a entrada de invasores, pessoas que não fazem parte da comunidade.” É uma boa indicação, diz a ambientalista, de que em tempos de aquecimento global é possível mudar a forma de exploração dos recursos naturais. Não deixa de ser uma forma de adaptação. Sem ela, os corais não terão nem chance de sobreviver.

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

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