Reportagens

A água, desde o páramo de Papallacta até o Rio Quijos

Andes Água Amazônia narra o percurso pelo Parque Cayambe Coca, desde as partes altas super úmidas até a cascada de San Rafael.

Gabriela Arévalo · Martín Bustamante ·
16 de outubro de 2012 · 9 anos atrás
O Páramo da Virgem é uma barreira para as nuvens carregadas de umidade que vêm da Amazônia. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species
O Páramo da Virgem é uma barreira para as nuvens carregadas de umidade que vêm da Amazônia. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species

Primeira parada, uma planície alto-andina formada por inumeráveis depósitos de água de vários tamanhos, o Páramo da Virgem, a 36 km da capital equatoriana, Quito. Aqui o frio convida ver com outros olhos a grandiosidade das pequenas espécies de plantas que vivem a 4.200 metros de altitude.

Viver o caminho das águas desde seu nascimento nos páramos até as bacias como as dos rios Papallacta e Quijos, ver as mudanças do entorno natural que vão desde o menor dos liquens até a mais alta samambaia, é um encontro real com esse elemento cristalino que desce em forma de gotas e que mantém um infinito ciclo de vida.

Esta crónica narra o caminho da água pelo Parque Nacional Cayambe Coca (PNCC), desde as partes altas, super úmidas, que abastecem de água a capital Quito, até a cascada de San Rafael, lugar de beleza cênica inigualável que suporta a construção do projeto hidrelétrico mais importante do Equador.

Os páramos

São sistemas naturais complexos de alta montanha, encontrados entre os 2.900 e 5.000 metros de altitude.
Não são arborizados, contam com uma diversidade única, e são fonte de água doce.
Os páramos se caracterizam pela presença de pastagens de altura, onde existe alta umidade, atuando como uma esponja que armazena a água e logo, a libera.

O Páramo da Virgem 
Antes que “o páramo fique com ciúmes” e a neblina cubra suas alturas, a paisagem do noroeste do parque no Páramo da Virgem é o claro exemplo da riqueza de seu sistema lacustre: montanhas que guardam sua água acumulada na vegetação, lagoas e rios.

Na parte alta do parque nacional, entre as províncias de Pichincha e Napo, existem quase 1.200 hectares cheios de água doce provenientes da chuva, da neblina, de fontes naturais e do escoamento do páramo.

O páramo é um sistema complexo que reúne várias formações naturais muito diferentes entre elas. Nas zonas mais altas, sobre os 4.000 metros, o páramo de almohadillas (de almofadas, em português) é caracterizado pelo crescimento de estruturas vegetais antigas nos que as plantas crescem sobre si mesmas, guardando em seu interior restos vegetais e acumulando água generosamente. As samambaias, liquens e puyas (uma enorme bromélia) crescem densamente, protegendo-se entre elas das bruscas mudanças de temperatura, da intensidade dos raios solares e dos ventos gelados.

Os páramos ao redor de Papallacta (Parque Cayambe Coca e Reserva Ecológica Antisana) atuam como uma imensa esponja que deixa escapar água pelas nascentes e rios para chegar até Quito por um sistema de transferência através de gigantes tubos e vasos comunicantes.

Lagoa de Sucus
A lagoa de Sucus, dentro do Parque Cayambe Coca, fica na parte baixa do sistema lacustre de Papallacta, na província de Napo. Nestas planícies se observa a presença dos bosques de Polylepys, a família de árvores que crescem à maior altitude nos sistemas montanhosos do mundo.

Sucus é uma das principais fontes de armazenamento de água para Quito; a lagoa foi represada para levar sua água por um tubo que nutre o sistema de água de Papallacta. O aporte de água desta lagoa é ocasional, já que o Sistema Papallacta foi substituído por Salve Faccha, um projeto que por ter maior elevação permite o transporte de água até Quito usando a gravidade.

As lagoas de Sucus e Papallacta, e também a bacia baixa do Rio Papallacta mandam água para Quito só em momentos de manuntenção de Salve Faccha ou em casos de emergência.

Papallacta fica na província Napo, onde dutos de petróleo e água, de vital importância para Quito, já são parte da paisagem. Crédito: Martin Bustamante, Finding Species
Papallacta fica na província Napo, onde dutos de petróleo e água, de vital importância para Quito, já são parte da paisagem. Crédito: Martin Bustamante, Finding Species

Papallacta
Às sete da noite de uma segunda-feira, Papallacta está completamente adormecida, as esperadas águas termais que reabilitam habitantes e transeuntes desde séculos atrás, não estão atendendo. O caminho de pedra, escuro e sem gente, revela que a construção da nova via, asfaltada para fazer mais rápido e seguro o trajeto, afetou o pouco comércio do que vivem as famílias desta vila.

De manhã, seus 920 habitantes acordam sem barulho, apenas se ouve o trinar das aves que acompanha as crianças à escola. Dezesseis por cento de sua população começa seu dia na agricultura, na pecuária, silvicultura e piscicultura. A segunda atividade econômica mais importante está relacionada diretamente com a gestão da água potável como a Empresa Pública Metropolitana de Água Potável e Saneamento EPMAPS e o Fundo para a Proteção da Água FONAG, seguida pelo trabalho na administração pública, correspondente a 11,2% de seus moradores.

O turismo é um importante eixo econômico deste pequeno setor; as águas termais atraem turistas nacionais e estrangeiros. A riqueza hidrotermal de suas águas se deve ao fato de Papallacta estar situada entre os vulcões Cayambe e Antisana. As águas termais proveêm de capas subterrâneas que estão a maior temperatura, e brotam do solo com temperaturas superiores a 40°C.

Estado da água para a população
A pesar de que “aqui a água nunca falta”, como percebe Luís Tobar, habitante da zona desde 1970, os problemas do povoado são outros. Papallacta não conta com um sistema de esgoto fluvial ou sanitário, e também não tem uma estação de tratamento das águas. As casas têm água termal e água fria, “mas por não haver esgotos, todas a água, após ser usada, vão diretamente para o Rio Papallacta sem nenhum tratamento”, explica Augusto Tituaña, presidente do Conselho Paroquial.

Na parte alta de Papallacta existem 60 lagoas, que alimentam a Quito de água potável. O setor recebe da empresa pública pequenas obras em forma de compensação pelo seu território, mas não conta com condições ótimas de vida no que diz respeito à água.

Ao norte de Papallacta, o Parque Cayambe Coca oferece trilhas para caminhar no páramo. O relato dos guarda-parques é assombroso e é difícil distinguir onde a história se converte em mito. Em seu contato direto com o espírito deste páramo, eles já viram lobos, ursos-de-óculos, antas e condores.

O Rio Quijos

San Rafael é a cachoeira mais alta do Equador, com 160 metros. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species
San Rafael é a cachoeira mais alta do Equador, com 160 metros. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species

San Rafael é a cachoeira mais alta do Equador, com 160 metros. Crédito: Rubén Ramírez, Finding SpeciesA drenagem natural dos 60 lagos e zonas úmidas dos páramos passa por rios e riachos até o leste do país, enquanto atravessa a floresta andina, onde a bacia do Rio Papallacta se une ao Rio Antisana, criando o Rio Quijos. O vale deste rio se converte em uma área produtiva com atividades agropecuárias abastecendo de alimento e matéria prima a uma grande parte da Amazônia norte do Equador. O próprio Rio Quijos é na Amazônia o destino turístico para fazer kayak e para aventureiros que descem o rio em boias em um trajeto de fácil e segura navegação.

Quando o Quijos se une com o Rio Salado, que vem desde a parte leste do nevado Cayambe, se forma o Rio Coca, bem aos pés do vulcão Reventador em uma zona de constante atividade vulcânica.

Última parada, cascata de San Rafael
Localizada no limite das províncias de Napo e Sucumbíos, a cascata de San Rafael se deixa ver desde um mirante. No caminho até a imponente caída d’água é impossível advertir a forte intervenção que se realiza no leito do rio para o novo projeto hidrelétrico que se está impondo nesta paisagem.

Compreender o projeto Coca Coda Sinclair não é fácil quando não é permitido o acesso a suas instalações nem conversar com seus técnicos. As pontes em construção, o material removido, os caminhões e retroescavadeiras no rio, outras máquinas e explosivos para abrir um túnel, colocam em evidência que as necessidades energéticas do país e a prioridade que lhe damos estão tendo um impacto real no entorno.

Só podemos esperar que os danos ambientais necessários sejam reparáveis e possam ser revertidos em pouco tempo. Também é necessário dizer que antes que a transferência de água reduza o fluxo da cascata, será um prazer admirar a maior cachoeira do Equador.

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