Reportagens

Pescou pneu e virou empresário

Reciclagem chega a 40% e alimenta diversos setores industriais, mas ainda temos um passivo ambiental de 100 milhões de pneus velhos.

Carolina Mourão ·
17 de agosto de 2004 · 17 anos atrás

Depois da roda, quase tudo hoje é pneu. Associo o pneu ao estribo. O antes e o depois do estribo. O estribo venceu civilizações, forçou a humanidade. O pneu terminou a base. O antes e o depois da carroça, do Brasil agrário. Abriu vias, possibilitou negócios, levou gente, conduziu o capital do século XX. A Ford, quando sacou que o carro precisaria de pneu, veio atrás da gente, da nossa matéria-prima. A seringueira, que não precisava morrer para liberar o polímero da borracha, era nossa, para sempre. Estava tudo indo bem para o Brasil quando, de repente, o pneu ficou careca. Milhões deles. E cada um levaria 600 anos para deixar de existir.

Um estudo feito pela Universidade de Vrije, na Holanda, descobriu que todos os dias são fabricados cerca de 2 milhões de novos pneus no mundo, em escala crescente. Isto significa uma produção anual de 730 milhões de unidades. No Brasil são descartados aproximadamente 40 milhões de pneus por ano. As estimativas apontam para uma reciclagem de 40%. O prejuízo do que não é reciclado – do resíduo gerado pela produção da indústria da borracha no Brasil – gira em torno de US$ 38 milhões de dólares anuais.

O pneu triturado é base para tudo. Cobre áreas de lazer e quadras de esporte, fabrica tapetes para automóveis, passadeiras, saltos e solados de sapatos, colas e adesivos, câmaras de ar, cílios postiços, rodos domésticos, tiras para indústrias de estofados, buchas para eixos de caminhões e ônibus. Do pneu, nem a fumaça escapa da reciclagem. Segundo o professor Armênio Gomes Pinto, Pesquisador da Divisão de Química (DQ), lotado no Laboratório de Plásticos e Borrachas e mestre em Engenharia Química da EPUSP, até os gases e óleos resultantes dos processos catalíticos e termo-químicos de reciclagem de pneus podem ser usados como matéria-prima para combustíveis potentes.

O combustível de pneu é utilizado há anos em indústrias de cal e cimento, celulose e papel, na Europa e nos EUA. Cada quilograma de pneu libera entre 8,3 e 8,5 kilowatts por hora de energia. Esta energia é até 30% maior do que a produzida por um quilo de madeira ou carvão. As indústrias de papel e celulose e as fábricas de cal também são grandes usuárias de pneus em caldeiras, usando a carcaça inteira e aproveitando alguns óxidos contidos nos metais dos pneus radiais. No Brasil, estamos iniciando esta utilização e, necessariamente, as empresas devem modificar seus fornos de forma a atender a legislação vigente sobre poluição atmosférica.

Os custos de reciclagem variam muito em função do processo utilizado e do produto que se deseja obter, mas reciclar é sempre um bom negócio. A simples coleta, trituração e transporte para um centro de reciclagem tem um custo aproximado de R$ 200 a tonelada. Outros estudos apontam que o pó de pneu pode ser produzido a um custo médio de R$ 300 a tonelada.

A qualidade da recauchutagem, técnica que adiciona novas camadas de borracha em pneus carecas ou sem friso – e primeira forma de reciclagem de pneu – tem sido reconhecida até pelo Inmetro. O Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial elaborou uma norma para a utilização da técnica no Brasil e quer garantir o padrão de qualidade do pneu reformado. A recauchutagem aumenta a vida útil do pneu em 40% e economiza 80% de energia e matéria-prima em relação à produção de pneus novos. No mundo, ocupamos o segundo lugar na recauchutagem. Falta interesse comercial para ficarmos em 1º lugar, neste país de renda per capita média, que só compra pneu novo.

De acordo com a Resolução 258 do CONAMA, em vigor desde 1º de janeiro deste ano, os fabricantes e importadores estão obrigados a reciclar três pneus para cada pneu fabricado, em 2005, quatro pneus, e a partir de 2006 deverão ser reciclados cinco pneus para cada quatro fabricados ou importados. Se as indústrias cumprirem a Resolução, dentro de alguns anos devemos terminar com o passivo ambiental dos pneus no Brasil.

Contudo, a reciclagem dos pneus chamados inservíveis, ou sem condições de rodagem ou de reforma – ainda é um desafio. Um dos principais problemas é a coleta. A dispersão e a falta de políticas de recolhimento em todo o território é uma barreira contra o recolhimento há décadas. Hoje, os fabricantes e as importadoras estão implantando bases para coleta de pneus em vários estados brasileiros, mas o material que já foi dispensado está por toda parte, em regiões de difícil acesso. No Brasil, aproximadamente 100 milhões de pneus velhos ainda estão espalhados em aterros, terrenos baldios, rios e lagos, segundo estimativa da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip). Além de serem um fator de risco ambiental em si, tornam-se depositários de larvas do mosquito da dengue, por exemplo.

Sugiro a pesca de pneu como nova alternativa de trabalho para a população de baixa renda. É assim que a humanidade se vira, quando se chega a um limite. Foi assim com o estribo também.

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