Reportagens

Nome aos bons

Nova publicação analisa dados de 747 projetos, promovidos por 489 instituições, que ajudaram a preservar ou recuperar a Mata Atlântica entre 1990 e 2000.

Lorenzo Aldé ·
10 de setembro de 2004 · 18 anos atrás

Destruir é mais fácil que preservar. E más notícias aparecem mais do que as boas. Todo mundo sabe que restam pouco mais de 7% da área original da Mata Atlântica, mas só mesmo especialistas conseguem citar de cabeça projetos destinados a preservá-la e recuperá-la. O livro Quem faz o que pela Mata Atlântica, recém-lançado pelo Instituto Socioambiental (ISA), mostra que a trincheira dos defensores da natureza está mais povoada do que se imagina.

De 1990 a 2000, período abrangido pela pesquisa que resultou no livro, foram mapeados 747 projetos, executados por 489 instituições. Considerando que os formulários da pesquisa foram preenchidos e enviados espontaneamente pelas instituições, o número de projetos corresponde, felizmente, a apenas uma parcela do muito que se faz para salvar a Mata Atlântica. Mas é já uma parcela suficiente para se traçar o perfil do que é feito, como é feito e por quem é feito.

As ONGs são maioria, mas também entraram na análise projetos coordenados por órgãos públicos, institutos de pesquisa, empresas e até escolas. As experiências estão divididas em três categorias, de acordo com seu objetivo principal: conservação (61%), recuperação (18,3%) e uso sustentável (20,6%). Interessante é que, a partir de 1998, aumentou muito o número de atividades destinadas à exploração sustentável dos recursos naturais, o que coincide com a crescente popularização da “sustentabilidade” como solução ideal para o embate entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Devagar com esse andor, dizem ambientalistas escolados, que o que a expressão tem de bonita e promissora, tem também de enganosa e difícil de implementar. Enquanto isso, projetos de recuperação das áreas degradadas mantiveram-se em números estáveis por toda a década. A conservação descreve linha ascendente no gráfico temporal apresentado pelo livro, o que significa cada vez mais iniciativas pela preservação do que ainda existe de Mata Atlântica.

A publicação é farta em tabelas, gráficos e mapas detalhados, que chegam a destacar os projetos por município. As linhas de ação são variadas: desde o apoio à gestão e à elaboração de planos de manejo em Parques Nacionais, até a proteção de espécies, o ecoturismo e a educação ambiental. Uma olhadela na lista ajuda a entender a quantidade de coisas diferentes que ainda precisam ser feitas para mudar, ou pelo manter, a situação da Mata Atlântica onde ela resiste.

Problemas não faltam. Nas respostas, aparecem em destaque a escassez de recursos financeiros (em 58% dos projetos) e humanos (21,7%), e também os obstáculos políticos, que atrapalham uma em cada quatro tentativas de preservar ou recuperar o meio ambiente.

O livro Quem faz o que pela Mata Atlântica foi produzido em parceria com a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA, que reúne 250 entidades dos 17 estados onde há o ecossistema), com o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e com o WWF-Brasil. E vem com um bônus valioso: um CD-Rom com os dados da pesquisa e uma listagem de todas as instituições e projetos que participaram da pesquisa, membros da resistência que ajudou a manter viva a Mata Atlântica na última década.

Clicando aqui, você tem acesso à íntegra da publicação (em PDF). Mas para saber em detalhes quem é quem nessa história de sucesso, só mesmo no CD-Rom.

  • Lorenzo Aldé

    Jornalista, escritor, editor e educador, atua especialmente no terceiro setor, nas áreas de educação, comunicação, arte e cultura.

Leia também

Notícias
20 de maio de 2022

Alto custo é principal barreira para visitação de parques

De acordo com estudo, alto custo da viagem, distância e falta de informações disponíveis são os principais obstáculos para visitação de parques naturais

Notícias
20 de maio de 2022

Presidenciáveis recebem plano para reverter boiadas ambientais de Bolsonaro

Estratégia ‘Brasil 2045’ propõe medidas para reconstruir política ambiental brasileira e fazer país retomar posição de liderança global em meio ambiente

Análises
20 de maio de 2022

O dilema de Koniam-Bebê

Ocupação indígena no Parque Estadual Cunhambebe realimenta falsa dicotomia entre unidades de conservação e territórios indígenas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. Cássio Garcez diz:

    Brilhante análise, Beto. Parabéns e obrigado por ela.