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Biólogo brasileiro recebe prêmio internacional por pesquisas de campo com anfíbios

Pedro Peloso é o primeiro brasileiro a receber o prêmio Individual Award in Field Biology concedido pela Maxwell/Hanrahan Foundation a indivíduos que demonstrem excelência em pesquisas de campo

Carolina Lisboa ·
10 de dezembro de 2021

O biólogo Pedro Peloso foi um dos cinco agraciados pelo prêmio Individual Award in Field Biology, concedido pela Maxwell/Hanrahan Foundation, da Califórnia (EUA). O prêmio, no valor de $100.000 (cem mil dólares), é entregue todo ano a pesquisadores da área da biologia que realizam trabalho de campo. Peloso é o primeiro brasileiro a receber a premiação, por seus estudos em diversidade, evolução e conservação de anfíbios e répteis, que envolveram expedições científicas em localidades remotas em todo o mundo, mas principalmente na Amazônia e Mata Atlântica brasileiras. Suas pesquisas resultaram na publicação de mais de 40 artigos científicos e a descrição de mais de 30 novas espécies, incluindo anfíbios, lagartos e aves.

Os escolhidos para concorrer ao prêmio são indicados anonimamente por convidados pela Fundação Maxwell/Hanrahan, sendo posteriormente selecionados por um comitê formado por profissionais da área da biologia. A seleção é feita com base em critérios como a contribuição dos trabalhos do candidato para o desenvolvimento da biologia de campo, excelente histórico de pesquisas com resultados de alto nível, além de originalidade e demonstração de competência para realizar mais trabalhos inovadores na área.

Dentre os cinco agraciados com o prêmio estão pesquisadores estrangeiros que estudam questões como a evolução da comunicação em papagaios, a diversidade de orquídeas, cadeias alimentares no fundo dos oceanos, além da vida microbial em ambientes extremos. Peloso utilizará o valor do prêmio para dar continuidade aos seus trabalhos, aprofundar suas pesquisas e aumentar o potencial de impacto de suas descobertas.

Formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, possui mestrado em Zoologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA)/Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e doutorado em Biologia Comparada pelo American Museum of Natural History, um dos mais conceituados museus de história natural do mundo, localizado em Nova York (EUA). Desde 2015 é professor do curso de Pós-Graduação em Zoologia da UFPA/MPEG, onde orienta alunos e leciona sobre assuntos relacionados à diversidade e evolução.

Suas pesquisas de campo renderam a descrição de mais de 30 novas espécies, incluindo anfíbios, lagartos e aves. Foto: Pablo Cerqueira.

Peloso é referência em sua área de pesquisa, além de um grande conhecedor da biodiversidade das florestas tropicais, especialmente da Amazônia. Suas pesquisas resultaram em diversas publicações em revistas internacionais, abordando temas que vão desde detalhadas descrições anatômicas até estudos evolutivos utilizando dados genômicos, além da descrição de novas espécies para a ciência, a maioria delas da Amazônia.

Seu trabalho, especialmente com a biologia e conservação dos anfíbios, é reconhecido mundialmente e já lhe rendeu outros prêmios, como o de melhor tese de doutorado defendida entre 2014 e 2015, entregue pela Sociedade Brasileira de Zoologia, e o reconhecimento como Future Leader in Amphibian Conservation (Futuro Líder na Conservação de Anfíbios), outorgado em 2019 pela Amphibian Survival Alliance, umas das maiores organizações globais voltadas à conservação de anfíbios.

Seja explorando novas áreas, encontrando novas espécies ou realizando experimentos ecológicos, o biólogo está na linha de frente de muitas das descobertas científicas sobre a diversidade biológica do planeta, em parte graças ao trabalho de campo. Já participou de diversas expedições científicas para estudar a diversidade de espécies de localidades remotas, desde os Andes peruanos até regiões montanhosas no Vietnam, mas principalmente ao longo da Amazônia e Mata Atlântica. As expedições o levam a passar bastante tempo longe de casa, muitas vezes em condições adversas de acomodação e vulneráveis aos perigos e desafios de trabalhar em áreas naturais.

Em entrevista para ((o))eco, Pedro Peloso falou sobre o prêmio, expectativas e desafios relacionados à carreira de biólogo no Brasil e aos trabalhos de campo que vem realizando.

((o))eco: O prêmio foi um reconhecimento pela sua trajetória de pesquisas sobre a herpetofauna (fauna de anfíbios e répteis), especialmente na Amazônia. Como você recebeu a notícia e o que espera realizar com a premiação?

Pedro Peloso: Recebi com extrema alegria e surpresa. Por ser uma indicação anônima eu nem sabia que estava concorrendo. Quando recebi o telefonema da Fundação eu fiquei até meio em choque, sem saber muito o que dizer. Esse é um reconhecimento incrível e muito importante para a minha carreira.

Como vem sendo essa sua trajetória no meio acadêmico, frente a tantos desafios inerentes ao fazer pesquisa no Brasil?

Peloso em palestra no México. Foto: Arquivo Pessoal.

Faz quase 20 anos que ingressei na biologia e é natural que com esse tempo tenha passado por fases boas e outras nem tanto. Tive financiamento com bolsas de estudo e algum dinheiro para pesquisa durante boa parte dessa trajetória. Nos últimos anos a situação piorou muito, a ponto de se tornar insustentável. Hoje, a grande maioria do financiamento ou apoio para a minha pesquisa vem de fora do País, principalmente Estados Unidos e Europa. Aqui no Brasil, por não ser servidor efetivo de nenhuma instituição, não posso concorrer à maioria dos editais de fomento à pesquisa. O sistema privilegia bastante quem já está fixado no mercado de trabalho, mas ingressar na carreira acadêmica não é fácil. Infelizmente as oportunidades aqui são poucas e muitas vezes o processo seletivo não é 100% transparente. A união desses fatores nos levou (eu e minha esposa, que também é bióloga) a sair do Brasil e tentar seguir a carreira como professores e pesquisadores nos Estados Unidos. No ano que vem iremos trabalhar na Humboldt State University, na Califórnia.

Seus resultados de pesquisas só foram possíveis graças ao trabalho em campo. Como funcionam, em geral, essas expedições?

Muita da minha pesquisa depende mesmo desse trabalho de campo. Durante expedições já encontrei diversas espécies novas, mas também obtive material que foi essencial para o desenvolvimento de projetos mais amplos. Esse material serve de base para estudos evolutivos, ecológicos, como fonte de informação para a indicação de áreas prioritárias para a conservação, entre outros. Cada expedição funciona de um jeito… já participei de coletas onde vou e volto da floresta no mesmo dia, mas também já estive em locais extremamente remotos, onde só pra chegar demora dois ou três dias e é necessário acampar. Independente da duração ou localidade, o objetivo é quase sempre o mesmo, coletar dados sobre as espécies para conhecer melhor a nossa biodiversidade.

Quais foram as experiências mais desafiadoras que você vivenciou em campo?

Foram diversas! Já tive diversas situações de quebra de veículos, tanto barco quanto carros, onde tivemos de ser resgatados por outra equipe. A Amazônia também traz um desafio extra que são os insetos e doenças pouco conhecidas. Já tive, por exemplo, alguns episódios de infecção intestinal grave, já peguei (mas já tratei) uma leishmaniose, dengue, entre outros. Muito do desafio é físico também, pois existem trabalhos que exigem uma rotina de trabalho de muitas horas e às vezes com longas caminhadas diárias. Mas tudo isso tiramos de letra. Tendo comida suficiente e boas companhias, não há desafio que não seja superável na hora de fazer esse trabalho de campo.

Em expedição no Peru. Foto: Silvia Pavan
  • Carolina Lisboa

    Jornalista, bióloga e doutora em Ecologia pela UFRN. Repórter com interesse na cobertura e divulgação científica sobre meio ambiente.

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Comentários 1

  1. Gilberto Carvalho diz:

    Querer que a Marinha permita que alguém viva como os Carijós viviam na época do descobrimento, chega a ser desumano.
    Faça uma matéria alertando para a idade do sujeito e pela luta de condições dignas de vida.