Reportagens

Conheça o peixe-leão, um invasor na costa brasileira

“Vai chegar no Brasil inteiro, não tem como evitar”, afirma Paulo Bertuol, biólogo que trabalha com o manejo do peixe que vem alarmando pesquisadores com causa da rápida dispersão pela costa

Jéssica Martins ·
7 de outubro de 2022 · 1 anos atrás

O peixe-leão é um peixe asiático que possui tamanho médio de uma régua escolar. Desde o início dos anos 90 ele vem colonizando de maneira silenciosa a costa dos Estados Unidos, e no Brasil teve seu primeiro avistamento em 2014. Ao contrário do mexilhão dourado e do coral sol, que foram introduzidos por água de lastro, a provável introdução dessa espécie no oceano Atlântico ocorreu durante o furacão Andrew, em 1992. Segundo a hipótese mais aceita, na ocasião, um aquário na Flórida quebrou, liberando inúmeros peixes ao mar – entre eles o peixe-leão, exímio caçador. 

Por muitos anos, o peixe-leão passou despercebido pela ciência, povoando uma nova área, bem longe do seu local de ocorrência. E ele faz isso com destreza: durante a reprodução são produzidos entre quinze a trinta mil ovos, que flutuam e são carregados pelas correntes e pelo vento, uma maneira eficiente de colonizar novos habitats. E provavelmente foi por causa das correntes marinhas que o peixe-leão chegou ao Brasil.  

“É um predador extremamente eficiente, ele potencialmente é um problema, principalmente porque ele pode comer uma grande quantidade de espécies nativas”, afirma Paulo Bertuol, biólogo de vida selvagem na Fundação de Parques Nacionais de Bonaire (STINAPA). Bonaire é uma ilha do Caribe que pertence à Holanda.

Ferocidade reconhecida

Até meados dos anos 2000 não havia uma grande preocupação com a invasão na costa da Flórida, apesar da invasão biológica ser uma das cinco maiores causas de perda da biodiversidade do mundo. Até ele virar objeto de pesquisas científicas, que constataram as características que fazem deste invasor potencialmente destrutivo: possui dezoito espinhos venenosos, que ele usa para predar e se proteger. Consegue alcançar até trezentos metros de profundidade; se alimenta de espécies que a ciência ainda não conhece e as de importância comercial; compete com predadores nativos e é capaz de comer vinte peixes em meia hora. 

“O peixe leão está nessa categoria (espécie invasora) principalmente pelo apetite voraz que ele tem. Ele pode comer vários peixes por dia e os peixes não o reconhecem como uma ameaça, principalmente pelo disfarce que ele tem e a maneira que ele nada ele é um predador nato” diz Paulo Bertuol. 

No Brasil, o peixe-leão já é acompanhado no arquipélago de Fernando de Noronha, na costa pernambucana, onde uma equipe de pesquisadores e pescadores monitoram e realizam um manejo, com parcerias com operadoras de mergulho. Para ser voluntário é necessário a realização de um curso para ter permissão de realizar capturas. As ferramentas utilizadas são uma garra de curta distância chamada de ELF, que se move aproximadamente 20 cm para a frente, o que dificulta que seja utilizada para capturar outras espécies que não o peixe-leão, e para o armazenamento utiliza-se o zookeeper, um compartimento alongado e cilíndrico, que torna seguro a captura, evitando que o mergulhador entre em contato com os espinhos venenosos.

Atualmente, há pesquisas sendo realizadas para determinar a dieta preferida do peixe-leão em Noronha e trabalhos pilotos para erradicação da espécie no território brasileiro. “O plano de manejo é todo construído por etapas. Então, cada fase da invasão da espécie requer um tipo de medida.” afirma a bióloga Clara Bucker, que atualmente trabalha no ICMBio de Fernando de Noronha com peixes recifais.

Arte: Gabriela Güllich.

Ação em caso de acidente

Embora o peixe-leão seja venenoso, não há registro de morte humana por acidente com a espécie. Apesar das notícias alarmantes sobre o contato do humano com o peixe, pesquisadores afirmam que o maior perigo se encontra na hora do manuseio: se realizado de forma errada, o peixe pode liberar toxinas que geram sintomas como vermelhidão local, dor, febre e convulsão.

O Ministério da Saúde alerta que em casos de acidentes com peixes venenosos, o paciente deve ser submetido a atendimento médico o mais breve possível. A vítima pode entrar em contato com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) para orientações mais direcionadas, por meio dos telefones disponíveis em https://abracit.org.br/lista-dos-centros/

Peixe-Leão na Culinária

Atualmente o manejo no arquipélago de Fernando de Noronha, um dos locais afetados pela invasão, tem sido realizado com ajuda de mergulhadores e operadoras de mergulho, mas caso a invasão chegue a uma população estabelecida e os avistamentos sejam rotineiros durante o mergulho, o uso na gastronomia seria uma alternativa para o controle populacional do peixe leão. Além de poder ajudar a complementar a renda dos pescadores, é uma carne extremamente rica. 

 “O uso de peixe leão na gastronomia é um motivador, porque as pessoas se mobilizam até um certo ponto nas causas ambientais, mas elas se mobilizam mais ainda quando tem uma devolutiva”, afirma a pesquisadora Clara Bucker. 

O biólogo Paulo Bertuol comenta que em Bonaire, ilha Holandesa que fica no Caribe, a carne do peixe-leão é uma das mais caras do lugar. “O resultado disso aqui hoje em Bonaire, que eu saiba, é que o preço do quilo do peixe leão é mais caro. Eles pagam quinze dólares por quilo do peixe sem as vísceras e sem os espinhos ou cinquenta dólares por quilo de filé”, afirma Paulo.

  • Jéssica Martins

    Estudante de Ciências Biológicas, estagiária em ((o))eco, apaixonada pela natureza e comunicação.

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Comentários 1

  1. Camila diz:

    Uma correção; o coral-sol Tubastraea spp., espécie exótica invasora marinha no Brasil, não foi introduzido por água de lastro. Em água de lastro as larvas do coral-sol não são viáveis. Ele chegou ao país incrustado em plataforma de petróleo que, após permanecer em área portuária, liberou larvas que incrustaram em costões rochosos. Para mais informações sugiro o site do BrBio: http://www.brbio.org.br/nossos-projetos/projeto-coral-sol/
    Abraço!