Reportagens

Especialistas criticam medidas de curto prazo adotadas contra a estiagem no Rio Grande do Sul

Governo estadual e representantes do agronegócio pedem recursos para cobertura de prejuízos, abertura acelerada de poços artesianos e até barramentos em áreas de preservação permanente

Aldem Bourscheit ·
26 de janeiro de 2022

A estiagem e as temperaturas passando dos 40ºC já forçaram cerca de 300 (60%) dos 497 municípios gaúchos a decretar situação de emergência. Milho, soja e produção de leite concentram as perdas do agronegócio, conforme a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Milhares de pessoas e indústrias não têm água na torneira e são abastecidas com caminhões pipa. Chuvas mais intensas são previstas apenas nos próximos meses.

O governo estadual, produtores e parlamentares estaduais e federais querem injetar recursos públicos para compensar quebras produtivas, perfurar 750 poços artesianos, plantar milhares de açudes e cisternas, em menos de um ano. Pelas propostas, as obras teriam licenciamento facilitado e poderiam afetar margens de rios, córregos e outras áreas de preservação permanente, protegidas pela legislação federal.

Secas cada vez mais potentes são uma rotina nos verões no Rio Grande do Sul há duas décadas, pelo menos. A crise global do clima, os usos abusivos da terra e da água de rios, lagos e poços, e a falta de medidas de longo prazo para ampliar estoques e melhorar o uso do recurso podem agravar a situação. É o que avaliam especialistas ouvidos por ((o))eco. 

Presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, o geólogo Sérgio Cardoso está em contato com os outros 24 coletivos semelhantes no estado e analisa que os impactos da estiagem são reforçados pela descontinuidade de políticas públicas. Legislações e medidas para água e irrigação construídas desde os anos 1990 foram esquecidas, afirmou.

“As medidas anunciadas são para Inglês ver e para passar a boiada na legislação ambiental. Não há condições técnicas e econômicas para fazer tantos poços e outras obras em tempo recorde. O estado foi pioneiro em tentar organizar a gestão da água, mas cada governo quer fazer a sua política. Comitês de bacias foram alijados dos debates e decisões. Recursos para barragens não foram aplicados”, reforçou Cardoso.

Doutor em Recursos Hídricos e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o pesquisador Anderson Ruhoff aponta que a estiagem está conectada a mudanças na circulação atmosférica em terra e nos oceanos Atlântico e Pacífico. E lembra que a evaporação provocada pelas altas temperaturas e as chuvas fracas em períodos como meados dos anos 2000 e em 2019 reduzem os estoques de água e agravam a estiagem.

“É um efeito cascata. Precisamos de políticas públicas para reduzir impactos na cidade e no campo das secas e chuvas extremas que são projetadas pela crise do clima. Mas essas medidas têm que ser sustentáveis, não se pode usar toda a água superficial ou subterrânea, pois as reservas do recurso demoram a se recuperar, mesmo com a volta das chuvas, impactando diversos setores”, destacou.

Uma das licitações será voltada à escavação de 6 mil microaçudes no Estado . Foto: Evandro Oliveira/Seapdr.

Para o diretor-técnico da Emater no Rio Grande do Sul, Alencar Rugeri, falta ao estado uma cultura para a convivência com a falta de chuvas. Segundo Rugeri, debates e ações têm que ser aprofundados e acelerados agora para evitar prejuízos sociais, ambientais e econômicos provocados por estiagens mais potentes ou frequentes nos próximos anos.

“Não se planejou para os períodos de secas. Tudo que fizermos agora é para a próxima estiagem. Não podemos esquecer de trabalhar questões estruturais, de estratégias de médio e longo prazos, como a reserva de água para irrigação. Precisamos associar sustentabilidade econômica, social e ambiental”, destacou.

Estudo na revista Principles of Responsible Investment mostra que as estiagens são o fenômeno climático mais comum no Brasil nas últimas duas décadas e que elas reduzem a produtividade no campo e deslocam pessoas e economias para onde há mais água e outros recursos. Seca e temperaturas extremas já causaram perdas de R$ 45 bilhões no agro no Sul e Centro-Oeste. O Banco Central declarou que a estiagem foi uma das causas da alta da inflação nos últimos meses.

Cientista da Agência Espacial Norte Americana (Nasa, sigla em Inglês), Augusto Getirana é um dos pesquisadores brasileiros que assina um trabalho publicado na revista Nature em dezembro passado, defendendo que o Brasil adote rapidamente um plano nacional para enfrentar secas e outros impactos que serão reforçados pela emergência do clima. “Crises hídricas são vistas como temporárias e pouco se aplicam medidas de longo prazo”, disse. 

“A abundância de água superficial criou uma impressão de que o Brasil não precisa se preocupar, mas a crise do clima reforça que isso tem que mudar. Falta investimento em ciência e infraestrutura. Países como a Índia monitoram águas subterrâneas com dezenas de milhares de poços. No Brasil há apenas 400. Há perda clara de água onde esses estoques foram explorados de forma excessiva”, destacou.

Para Getirana, as relações entre crise do clima e quantidade de água são uma questão de “segurança nacional” que pedem maior respeito à legislação socioambiental, contenção do desmatamento e outras ações humanas na Amazônia e em outras regiões do país.

“O desenvolvimento econômico depende de energia disponível. Nossa principal fonte de energia são as hidrelétricas, produção e exportações da produção rural depende muito mais da chuva do que da irrigação. A destruição da Amazônia, do Cerrado e outros biomas reduz a umidade e as chuvas no país. Uma boa gestão da água envolve várias áreas”, reforçou.

Atento aos repetidos recordes anuais de desmatamento da floresta tropical que ainda domina o Norte do país, Sérgio Cardoso, do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, amarra a estiagem gaúcha a decisões políticas aprovadas pelo Executivo e Legislativo federais.

“O momento que o estado enfrenta também é resultado das macro políticas ambientais adotadas no país. Há prejuízos em todos os biomas. Não é uma questão local, é um desrespeito em nível nacional gerado por governos que adotam quase que somente políticas em benefício do agronegócio e esquecem da sustentabilidade ambiental”, completou.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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Comentários 2

  1. Victor Hugo diz:

    Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.
    Quem lembra deste lema? Pois é… A saúva agora é o agronegócio.


  2. Leandro Travassos diz:

    …na Serra dos Órgãos e principalmente na Reserva Biológica do Tinguá, que ainda possui uma população de queixada (Tayassu pecari) e veado mateiro (Mazama americana).