Reportagens

‘IA para quem?’: Entenda o boom de data centers no Brasil

Projeto do governo para o setor está parado no Legislativo, enquanto especialistas apontam riscos socioambientais e falhas de governança

Leonardo Coelho ·
5 de março de 2026

Os centros de processamento de dados – mais conhecidos como data centers – podem triplicar sua capacidade no Brasil até 2030, com uma expansão impulsionada por empresas da China e dos Estados Unidos. Porém, as implicações disso para os recursos hídricos e energéticos preocupam especialistas.

O país já tem o maior parque de data centers da América Latina: são cerca de 800 megawatts (MW) de capacidade instalada em 198 unidades, de acordo com o Data Center Map, que reúne informações globais de data centers em operação e planejados.

Os data centers não são um fenômeno novo na região, mas a explosão da inteligência artificial generativa tem levado a um enorme aumento na demanda de energia e processamento. Os EUA têm, de longe, o maior número de centros de dados, seguidos por Alemanha, Reino Unido e China. 

Em dezembro, a empresa chinesa ByteDance – dona do TikTok – anunciou um investimento de R$ 200 bilhões para um data center no Porto do Pecém, no Ceará. Além dela, a Huawei e a Alibaba também demonstraram interesse no Brasil.

Enquanto isso, um consórcio americano que inclui a gestora de ativos BlackRock, a Microsoft e a xAI, de Elon Musk, comprou recentemente a Aligned Data Centers por US$ 40 bilhões. A empresa administra instalações no país e controla a brasileira Odata. Por sua vez, o governo brasileiro tem incentivado esse tipo de investimento por meio de incentivos fiscais. 

Líderes indígenas e especialistas estão preocupados com os impactos sobre os recursos hídricos e energéticos das populações próximas a esses projetos. O cacique Roberto Anacé, que mora na região onde o TikTok planeja construir seu data center, disse ao Dialogue Earth que teme uma possível escassez de água e energia.

China e EUA na corrida por data centers

A corrida por data centers é resultado de esforços conjuntos do governo brasileiro nos EUA e na China. Em 2025, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, levou a investidores de tecnologia nos Estados Unidos uma estratégia de incentivos fiscais e oferta de energia renovável para expandir a infraestrutura de data centers no Brasil e, com isso, impulsionar uma economia “simultaneamente digital e verde”. No mesmo ano, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, visitou investidores em Beijing e outras cidades da China.

O governo lançou uma Política Nacional de Data Centers em setembro de 2025, que incluía um regime tributário chamado Redata, oferecendo incentivos fiscais atrelados ao emprego de energias renováveis nos projetos.

“A indústria e o governo estão se movimentando para atrair mais investimentos para o país, especialmente data centers de grande porte, como os voltados à inteligência artificial”, disse Luis Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Centers, ao Dialogue Earth.  

No fim de fevereiro, porém, o boom dos data centers no Brasil ficou no limbo. O Redata tinha sido criado por medida provisória, mas precisava da aprovação do Congresso para se tornar lei. A MP não foi votada a tempo por pressões políticas e o regime tributário do Redata caducou.

Lobistas com laços estreitos com o Congresso disseram ao jornal Valor Econômico que um dos obstáculos para isso foi a tentativa de incluir o gás natural entre as fontes de energia aceitas para o acesso a incentivos fiscais. A proposta original priorizava a energia renovável – e a pressão para ampliar esse escopo gerou desacordos. 

“O governo não vai desistir desse projeto”, disse Júlia Catão Dias, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). “O problema é que agora tem uma briga entre o setor de gás e o governo porque este quer ser incluído no projeto. Por isso, o projeto está travado e não tem previsão para ser concluído”.

Sede do Serviço Federal de Processamento de Dados, em Brasília. Conforme o governo federal, só 40% dos dados brasileiros são processados no país. Foto: Anderson Riedel/Serpro

Soberania digital x segurança hídrica

Haddad afirmou à imprensa que segue trabalhando arduamente com os parlamentares para que o Redata seja aprovado no Congresso, dizendo que há uma fila de empresas querendo investir no Brasil: “Já falei com alguns senadores e expliquei a delicadeza do tema. Aqueles comprometidos com o desenvolvimento nacional e com a soberania nacional estão totalmente dispostos a encarar esse desafio”. 

Atualmente, apenas 40% dos dados brasileiros são processados no país, segundo Haddad. O restante é tratado no exterior, fora do alcance da legislação brasileira. Para o governo, portanto, a expansão de data centers fortaleceria a soberania digital do país.

Não por acaso, os empreendimentos costumam se instalar próximos a cursos d’água – André Fernandes, diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife

Igor Marchesini, assessor especial do Ministério da Fazenda e um dos formuladores da política, afirmou ainda que concentrar essa expansão no Brasil permitiria reduzir as emissões do setor, dado o predomínio de fontes renováveis em sua matriz elétrica. “O Brasil não precisa queimar carvão para sustentar um data center”, disse ao Dialogue Earth

Outros especialistas, porém, questionam como o Brasil atenderá a esse aumento. Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade, critica a ausência de uma estratégia clara do governo e a falta de informações públicas, por parte de empresas e autoridades, sobre o consumo de energia e água dos projetos planejados. “Precisamos de dados confiáveis”, afirmou.

Dados da Brasscom, associação que reúne empresas de tecnologia no país, mostram que cerca de 80% dos data centers no país operam com sistemas de resfriamento de circuito fechado, que reutilizam água para resfriar servidores. Segundo a entidade, esse índice deve chegar a 90% até o fim da década.

André Fernandes, fundador e diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), destacou que o uso inicial de água ainda é muito alto. “Essa água precisa vir de algum lugar; não por acaso, os empreendimentos costumam se instalar próximos a cursos d’água”.

O TikTok e a brasileira Casa dos Ventos, responsáveis pelo projeto no Porto de Pecém, informaram ao Dialogue Earth que os prédios dos data centers terão um sistema de refrigeração com capacidade equivalente a duas piscinas olímpicas – cerca de 5 milhões de litros de água. As empresas estimam um consumo diário de água entre 20 mil e 30 mil litros (equivalente ao consumo de 46 a 72 residências). Desse total, cerca de 10% seria destinado ao sistema de resfriamento. 

O modelo de circuito fechado traz outros alertas. José Renato Laranjeira, fundador do Laboratório Brasileiro de Políticas Públicas e Internet, explicou que sistemas mais intensivos em água tendem a reduzir o gasto elétrico, enquanto alternativas que economizam água dependem de refrigeradores mais potentes, elevando o consumo de energia. “Há um aumento da demanda energética associado a essa escolha”, disse.

Conflitos locais

Especialistas ouvidos pelo Dialogue Earth avaliam que a expansão do setor avança com pouco diálogo do governo com organizações e sem mecanismos de participação social — lacunas que já se refletem em conflitos locais.

Júlia Catão Dias, do Idec, questionou as razões do governo para atrair esses projetos sem incorporar as devidas proteções ambientais ou salvaguardas de interesse público. “Inteligência artificial para quê? Para quem? Em que termos? A gente precisa mesmo disso? Porque isso determinaria que tipo de data center a gente quer”.

Quando o data center estiver atuando 100%, vai faltar energia – Roberto Anacé, líder indígena no Ceará

André Fernandes, do IP.rec, afirmou que o projeto de lei do Redata apenas menciona vagamente o uso de fontes de energia renováveis e não aborda os impactos socioambientais desses projetos: “Não fala de lixo eletrônico, não trata dos impactos na vizinhança e nos territórios, nem do consumo e do descarte de água”.

O cacique Roberto Anacé e outras lideranças do Ceará tentam barrar a instalação do data center do TikTok, temendo disputas por água e eletricidade com o território Anacé e comunidades vizinhas. “Eles dizem que a energia está sobrando. Por enquanto está, mas quando o data center estiver atuando 100%, vai faltar”, afirmou ele ao Dialogue Earth

Ao Dialogue Earth, as empresas responderam que a energia do projeto virá de fontes renováveis dedicadas, como novos parques eólicos ainda em fase de planejamento. Assim, segundo elas, não haveria competição com a demanda local de eletricidade. 

Porém, uma análise do The Intercept Brasil com base em documentos internos indica que o projeto pode consumir, em um dia, o equivalente à demanda diária de energia de 2,2 milhões de brasileiros — São Gonçalo do Amarante, onde fica o Porto do Pecém, abriga apenas 54 mil habitantes. 

Em agosto de 2025, manifestantes chegaram a ocupar o órgão ambiental do estado em protesto e levaram o caso ao Ministério Público Federal (MPF), que acolheu a denúncia e, posteriormente, apontou falhas no licenciamento do data center. 

As empresas responderam que “o licenciamento ambiental do data center vem sendo conduzido em estrita conformidade com a legislação vigente” e que ainda analisam o laudo do MPF. 

Anacé afirmou que seu povo não rejeita iniciativas de desenvolvimento local, mas disse ser essencial que projetos desse porte incluam consultas prévias com as comunidades. “Nem um cajueiro nem uma mangueira dão frutos se não tiver raiz”.

  • Leonardo Coelho

    Jornalista brasileiro baseado no Rio de Janeiro. Já publicou em veículos como o The New York Times, Intercept Brasil, Agência Pública, Revista Piauí, Bellingcat e outros

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