Conhecida pela riqueza ambiental, arqueológica e cultural, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, localizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, também tem se tornado, nos últimos anos, um símbolo de degradação.
Entre 2019 e 2024, o desmatamento na região – que é uma das maiores unidades de conservação do Nordeste, com aproximadamente 972 mil hectares – teve um aumento de 2.847%, de acordo com dados levantados a partir da plataforma MapBiomas.
Desse total, aproximadamente 90% do desmate está ligado a atividades de agropecuária. De acordo com o promotor de justiça do estado do Ceará Thiago Marques Vieira, a situação é um reflexo do avanço do agronegócio e de monoculturas na região, em especial da soja e do algodão.
Ambientalistas e agricultores locais veem o avanço das atividades com cautela. Eles temem que a expansão traga impactos ambientais e sociais para a região, especialmente sobre os recursos hídricos e os modos de vida das comunidades que dependem da Chapada.
A Chapada e o agronegócio
A chegada do agronegócio, especialmente no Ceará, não ocorre por acaso. O avanço conta com apoio do Governo do Estado por meio do projeto “Algodão do Ceará”, lançado ainda em 2024, ano em que a Chapada ficou entre as três unidades de conservação mais desmatadas do país, segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD 2024), do MapBiomas.
Além do incentivo governamental, a região se destaca pela riqueza ambiental, especialmente hídrica. Também conhecida como “Caixa d’Água do Sertão”, a Chapada abriga a maior bacia hidrogeológica do Ceará, a Bacia Sedimentar do Araripe.
“Uma das principais funções sociais da Chapada do Araripe é a água. Graças a essa estrutura geológica, a região consegue reter e armazenar água. É por isso que a Chapada é tão importante para a nossa região: ela é fundamental para o abastecimento urbano e rural de diversas cidades daqui”, explica Márcio Holanda, biólogo e mestre em química biológica pela Universidade Regional do Cariri (Urca).
Léo Azevedo, biólogo e educador pela Urca, detalha que o solo da região, resultado de uma formação sedimentar porosa e arenosa, tem maior facilidade de absorção da água da chuva, o que é considerado positivo para a produção agrícola.
Outro ponto de destaque é o preço das terras, que possuem valores inferiores aos de outras regiões do Brasil, como o Centro-Oeste e o Sudeste. Segundo um agricultor que preferiu não se identificar, as terras se valorizaram nos últimos tempos. Áreas que antes custavam cerca de R$ 1.000 por hectare passaram a chegar a R$ 10 mil. Mesmo assim, os valores continuam atrativos para grandes grupos do agronegócio, de acordo com ele.
O agricultor ainda explica que boa parte do território da Chapada é extremamente plana, o que facilita o uso de máquinas pesadas, tratores e a implementação de culturas em larga escala.

Holanda ainda lembra que a proximidade com infraestruturas como a ferrovia Transnordestina, que facilita o escoamento de produtos para o Porto do Pecém para exportação, também torna a localização economicamente estratégica.
Foram justamente esses pontos que atraíram a família Brunetta para a região, tradicional produtora de soja do Mato Grosso, que adquiriu cerca de três mil hectares de terra no município de Araripe, no fim de 2024, para o plantio de algodão, soja e outras culturas.
“O que me motivou (a investir na área) foram as características da região, como tipo de solo, clima, proximidade de grandes cidades, facilidade de acesso e outros pontos”, diz Gianni Brunetta, membro da família responsável pelos negócios na Chapada.
A expectativa é que outros grandes produtores cheguem à região. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), afirmou que uma “revolução” já está em curso na Chapada do Araripe. Segundo ele, é esperada uma expansão da produção agrícola para uma área de até 100 mil hectares nos próximos três anos, o que é visto com preocupação por ambientalistas.
O ((o))eco procurou a Faec e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE), pasta responsável pelo projeto “Algodão do Ceará”, mas não obteve resposta até a publicação da matéria. O espaço permanece aberto.
Riscos à região
O avanço não está isento de riscos. Um deles está relacionado justamente à questão hídrica. “Quando ocorre a supressão vegetal e a compactação do solo, típicas de monoculturas, o primeiro impacto é o hidrológico”, cita Holanda. “Vai reduzir a infiltração, diminuir a recarga hídrica e aumentar o risco de escassez hídrica a curto e médio prazo, de acordo com as condições climáticas que temos hoje”, acrescenta.
Outra preocupação é a contaminação das águas pelo uso de agrotóxicos, que pode gerar tanto riscos ambientais quanto à saúde. Azevedo lembra que, como o solo da Chapada é altamente permeável, as nascentes hídricas da região ficam ainda mais vulneráveis a esse tipo de poluição.
O uso de agrotóxicos é uma realidade. Em maio de 2025, a operação Cariri Sustentável, coordenada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace), inspecionou 31 alvos na região. Desse total, seis realizavam atividades de forma irregular. Em cinco desses casos, as irregularidades estavam relacionadas ao uso de agrotóxicos em desacordo com as licenças ambientais dos territórios, que não autorizavam a aplicação desse tipo de produto.

Vieira, o promotor de justiça, cita que ainda não há dados que comprovem a contaminação por agrotóxicos nas águas da região. O que se registrou até agora são casos de poluição em fontes urbanas do Crato, um dos municípios da Chapada, decorrentes do adensamento urbano, do esgoto e de outros fatores.
Ele, no entanto, afirma que, levando o solo da região em consideração, é certo que, em algum momento, a contaminação existirá, caso defensivos agrícolas continuem sendo usados.
Para Tales Matos, engenheiro agrônomo e coordenador-geral da ONG Chapada, além desses efeitos, o desmatamento também representa uma ameaça direta à biodiversidade da unidade. A área se destaca por abrigar uma combinação rara de biomas – Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica – que sustenta espécies únicas no mundo. Entre elas estão o soldadinho-do-araripe, uma das aves símbolo do Ceará, e o caranguejo de água doce guajá-do-araripe, que acabam perdendo seus habitats naturais com a degradação da vegetação.
Mesmo diante dos riscos, Brunetta entende que o agronegócio pode gerar benefícios para a região. Ele cita exemplos como o fortalecimento de lojas de insumos agrícolas, comércio de máquinas, escritórios de fazendas e a demanda por profissionais como engenheiros agrônomos. O agricultor também destaca o potencial de aumento na arrecadação de impostos e tributos para os municípios e para o estado.
Em contraponto, Holanda entende que o agronegócio “não tem compromisso com a longevidade do processo. Ele quer um lucro muito rápido, um lucro intenso. E só vai compartilhar os prejuízos”. “É uma produção que não é voltada para permanecer no território. Não gera economia para a região, porque é escoada. São produtos para exportação, que não alimentam a nossa população”, adiciona.

Desmatamento sem autorização
A degradação, mesmo com todos os riscos apontados, encontra respaldo legal. De acordo com Carlos Augusto de Alencar Pinheiro, chefe do núcleo de gestão integrada do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Araripe, a APA da Chapada do Araripe permite atividades agrícolas, desde que haja um licenciamento ambiental que autorize a ação. Esses documentos podem ser concedidos por órgãos federais, estaduais ou municipais.
Diante disso, um dado que chama atenção são os registros de desmatamento sem autorização de supressão vegetal dentro do território. Eles correspondem a cerca de 88% do desmate total da região, o que pode indicar irregularidades, mas não necessariamente significa ilegalidade.
Pinheiro explica que isso ocorre porque muitas licenças ambientais não são vinculadas corretamente ao Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor), plataforma que reúne registros de autorizações para supressão de vegetação. Sem esse vínculo, o desmatamento passa a aparecer nos sistemas de monitoramento como se não tivesse autorização, mesmo quando a atividade foi permitida por algum órgão ambiental.
Essa falha, segundo o chefe do núcleo de gestão, é mais comum em licenciamentos municipais, muitas vezes por falta de equipe técnica para alimentar o sistema. É um erro burocrático que torna o processo de fiscalização ainda mais complicado, já que dificulta separar o que, de fato, é desmate ilegal do que é apenas uma ausência de vínculo.
Em meio às dificuldades, Daniel Brandt Galvão, superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Pernambuco, acredita que, para o futuro, é preciso tornar o processo de emissão de licenças ambientais mais rigoroso, em especial para grandes produtores que chegam à região.
“O grande foco é atuar junto com as secretarias que emitem os documentos e questionar o porquê certas licenças estão saindo, tendo em vista que a capacidade ambiental do Araripe está sendo comprometida”, pontua.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Ano Internacional da Agricultora 2026: uma agenda para a América Latina e o Caribe
As mulheres representam 36% da força de trabalho dos sistemas agroalimentares da Região; no entanto, continuam participando em condições profundamente desiguais →
Após pressão, prefeitura do Rio veta licença para derrubada de 900 árvores na Barra da Tijuca
Área próxima à Lagoa de Jacarepaguá era alvo de projeto imobiliário para construção de mega-condomínio residencial →
Marina Silva associa impasses da BR-319 a descumprimento de regras ambientais
Ministra do Meio Ambiente cita descumprimento de condicionantes, pressão sobre a floresta e judicialização como entraves ao avanço da rodovia →

