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Pesquisa revela bactéria de mamíferos em piolho de ave marinha

Achado inédito em ave migratória sugere novas rotas de circulação de patógenos entre oceanos e amplia lacunas sobre a ecologia de bactérias associadas a mamíferos

Karina Pinheiro ·
20 de março de 2026

Bactérias historicamente associadas a mamíferos foram identificadas, pela primeira vez, em parasitas de uma ave marinha migratória, um achado que amplia o mapa conhecido desses microrganismos e levanta dúvidas sobre como patógenos circulam entre oceanos e continentes. O registro foi feito em piolhos que parasitam o bobo-grande (Calonectris borealis), espécie que percorre longas distâncias pelo Atlântico.

A descoberta é resultado da análise de 38 ectoparasitas [parasitas externos que vivem na superfície, pele ou pelos de hospedeiros, como pulgas, carrapatos e piolhos] coletados de um indivíduo encontrado morto no litoral do Rio de Janeiro, no âmbito do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS). Entre os organismos identificados estavam duas espécies típicas de aves marinhas: Halipeurus abnormis e Austromenopon echinatum. Em 15 deles, testes moleculares detectaram DNA de Bartonella spp., bactéria conhecida por infectar principalmente mamíferos e ser transmitida por artrópodes como pulgas.

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Além da ocorrência em um novo ambiente, os pesquisadores identificaram dois genótipos distintos da bactéria, cada um associado a uma espécie de piolho. Um deles apresentou similaridade genética com Bartonella vinsonii berkhoffii, ligada a infecções cardíacas em cães. O outro se aproximou de linhagens já registradas em morcegos neotropicais, indicando possíveis conexões ecológicas ainda não descritas.

A ornitóloga Alice Pereira, do Projeto Albatroz. Foto: Comunicação/Projeto Albatroz

Em entrevista exclusiva ao ((o))eco, a bióloga Alice Pereira, do Projeto Albatroz, integrante do Grupo de Taxonomia do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis (ACAP), afirma que o resultado amplia significativamente o entendimento sobre essas bactérias. “Até então, elas eram associadas principalmente a mamíferos. Encontrá-las em ectoparasitas de aves marinhas sugere novas relações ecológicas e levanta hipóteses sobre como esses microrganismos circulam em ambientes oceânicos”, diz Alice, que também coordena o Banco Nacional de Amostras de Albatrozes e Petréis (BAAP).

Para o pesquisador Ricardo Bassini, também ouvido com exclusividade, a descoberta aponta para um cenário mais complexo do que o previsto. “Estamos vendo a Bartonella em um ambiente completamente diferente. Isso indica que sua distribuição ecológica pode ser muito mais ampla”, afirma.

O pesquisador Ricardo Bassini tambpem participou da pesquisa. Foto: Arquivo Pessoal

Embora a presença da bactéria tenha sido confirmada, ainda não há evidências de que esses piolhos atuem como vetores, ou seja, capazes de transmitir o patógeno entre hospedeiros. Eles podem funcionar apenas como portadores temporários, e não está claro se a infecção se origina nas aves ou no ambiente. O estudo também se baseia em um único indivíduo analisado, o que indica a necessidade de ampliar a amostragem para confirmar a extensão do fenômeno.

A relevância do achado cresce quando se considera o comportamento do hospedeiro. O bobo-grande é uma ave migratória, capaz de atravessar oceanos e conectar diferentes regiões do planeta. Nesse processo, pode transportar parasitas e microrganismos ao longo de suas rotas, funcionando como uma ponte biológica entre ecossistemas distantes.

“Nem todo microrganismo representa risco, mas entender como eles se dispersam é fundamental, especialmente em um contexto de mudanças ambientais”, afirma Alice Pereira. Segundo a pesquisadora, alterações climáticas podem favorecer a sobrevivência e expansão de determinados patógenos, alterando padrões de distribuição e interação entre espécies.

Ave sendo analisada. Foto: Comunicação/Projeto Albatroz

Até o momento, não há evidências de impacto direto para as aves marinhas ou outros animais. Ainda assim, a diversidade genética identificada levanta a possibilidade de linhagens pouco conhecidas e com potencial epidemiológico incerto. “É um alerta científico”, resume Bassini. “Ainda não sabemos se essas bactérias causam doença nesse contexto, mas precisamos entender como circulam.”

Os próximos passos da pesquisa incluem investigar outras espécies de aves marinhas, verificar se os próprios hospedeiros estão infectados e avaliar o papel dos ectoparasitas na possível transmissão. O estudo foi publicado na revista Veterinary Parasitology: Regional Studies and Reports e reúne pesquisadores do Instituto Butantan, USP, Unesp, Unicamp e Projeto Albatroz.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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