Belém (PA) – Protegendo parte de uma das maiores faixas contínuas de mangues do mundo – e a maior do Brasil – o Salgado Paraense guarda ambientes preservados por comunidades tradicionais junto a reservas extrativistas federais criadas, inclusive, para conter o avanço da criação de camarão.
Uma delas é a Mãe Grande de Curuçá, cujos contornos tortuosos testemunham o sobe e desce das marés entremeado com a descarga de rios amazônicos. Na área protegida, são multiplicadas larvas de ostras nativas em lâminas de garrafas PET retiradas do próprio mangue.
Tamanha a quantidade de “sementes” geradas, o molusco já repovoa espaços onde no passado foi quase extinto pela coleta excessiva. Além disso, as mais de 6 milhões de ostras produzidas anualmente pela associação Aquavila são consumidas no Pará e em outros estados.
“Fiz cursos com biólogos marinhos e hoje sei tudo sobre ostras”, contou Elza da Silva Galvão (73), uma pioneira da entidade criada há mais de duas décadas. “Vivo a minha vida aqui muito feliz: sou bem de saúde e faço todo o trabalho como deve ser feito”.
Mas esse equilíbrio entre economia e conservação já foi abalado pela crise do clima. Mudanças nas marés, na salinidade da água e temperaturas em alta complicam e atrasam a “engorda” e até matam as ostras, que crescem em “travesseiros” de tela sob plataformas nos rios que desenham o manguezal.
“Na maré baixa, elas ficam fora da água pegando uma quentura muito grande. Quando chega a água, dá o impacto nas ostras”, explicou José da Silva Galvão, produtor e conselheiro fiscal da Aquavila, cujos associados também pescam e cultivam itens como acerola, maracujá, couve e abóbora.
Os ambientes e práticas de extrativistas e pescadores igualmente atraem visitantes do Brasil e do exterior, conta o secretário de Turismo de Curuçá, Henrique Campos. “Esse é o turismo sustentável, que conta a história e a identidade dessas comunidades”, ressaltou.


Dobradinha de saberes e tecnologia
Diante das ameaças à produção de ostras e ao futuro das famílias e dos ambientes protegidos, os saberes dos extrativistas e tecnologias modernas uniram forças para apontar caminhos capazes de reduzir danos e enfrentar os impactos atuais da crise climática.
Diariamente os celulares dos extrativistas recebem texto e áudio sobre como estarão as marés, as temperaturas e salinidade da água nas 24 horas seguintes. Os dados compilados e as informações disparadas pela IAsmin – um sistema de inteligência artificial – vêm da experiência da comunidade e de órgãos públicos.
“Saber dessas condições é fundamental, por exemplo, para que eles possam movimentar os cultivos em engorda para as áreas mais salgadas, reduzindo as perdas de produção”, detalhou o oceanógrafo Renan Rosário, da UFPA, que criou o sistema com apoio do ICMBio e de ongs como a Rare.
Para ampliar a adaptação de mais povoados à crise climática, esquemas similares já estão presentes e serão levados a outras unidades de conservação no litoral paraense. “É uma iniciativa realmente de ação para a gestão de recursos naturais”, ressaltou Rosário.
Outra alternativa para reduzir os danos às ostras é aproveitar de outra forma as águas salobras regionais. Em outro ponto do manguezal, é testada a engorda de ostras presas em flutuadores. Ficando sempre debaixo d’água, elas sofrem menos com o calorão e outras mudanças ambientais.

O fantasma do petróleo
Os desvarios do clima também preocupam os cerca de 1,8 mil pescadores ligados à Auremag (Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá). Seu presidente, José Garcia de Moraes, descreve que até espécies comuns, como corvina e pescada, estão rareando.
“A falta de peixes faz alguns trabalhadores – com barcos maiores – pescar cada vez mais longe, até no Amapá ou na Guiana Francesa, mesmo correndo o risco de ter sua embarcação presa ou destruída, por atuar onde é ilegal”, contou.
Mas essas populações já pressionadas, que dependem diretamente das marés e da saúde dos mangues, temem que os ambientes naturais e suas atividades sejam prejudicadas também por eventuais derrames de petróleo desde a provável exploração na foz do Amazonas.
“O vento sopra e a água do rio desce toda aqui pra nossa unidade de conservação, trazendo essa ameaça para o berçário de vários animais”, alertou Moraes. “Isso pode acabar com o mangue e com vários processos importantes para o nosso pescado”.
Como mostrou ((o))eco, em outubro – faltando 20 dias para a COP30 – a Petrobras recebeu a permissão do Ibama para perfurar um “poço exploratório” na região da foz do Amazonas. Ensaios sobre a dispersão do petróleo estão previstos no licenciamento.

Cinturão extrativista litorâneo
A Mãe Grande de Curuçá é uma das 14 reservas extrativistas federais delineadas no litoral paraense, criadas desde o início dos anos 2000. Juntas, tais áreas administradas pelo ICMBio cobrem uma área similar a três vezes à da capital São Paulo (SP), ou quase 4,5 mil km2.
Elas protegem sobretudo manguezais, territórios e modos de vida de comunidades extrativistas, mas também barraram a carcinicultura. Em outros pontos do litoral brasileiro, a atividade destrói e polui mangues, muda a salinização da água, elimina a biodiversidade e conflita com a pesca artesanal.
Apesar da indiscutível função ecológica, as resex e outras unidades de conservação na Amazônia também são alvo das temperaturas em alta, de mudanças em chuvas e outros efeitos colaterais do clima em crise. “As mudanças climáticas são um fato, não há mais discussão”, lembrou Rosário (UFPA).
Tal cenário marcou o início deste governo: seca extrema na Amazônia e enchentes no Sul mataram muitos animais, destruição ambiental e maior risco de incêndios, enquanto colocaram comunidades tradicionais em emergência, recebendo apoio até para água e comida.
“Estamos buscando recursos do Fundo Amazônia para estudar e aplicar as melhores alternativas de adaptação das unidades de conservação às mudanças do clima”, disse Carla Lessa, gerente-regional do ICMBio na Amazônia.

*A reportagem de ((o))eco esteve na Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá à convite do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
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