Salada Verde

Alegando liberdade de expressão, MPF arquiva representação de servidores contra Ricardo Salles

No despacho, o procurador da República considerou que as declarações do ministro se trata apenas de liberdade de expressão e criticou o ingresso da representação

Sabrina Rodrigues ·
18 de setembro de 2019 · 7 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente
Procurador da República considera as declarações do ministro do Meio Ambiente como liberdade de expressão. Foto: Roque de Sá/Agência Senado.

O procurador da República Kleber Martins de Araújo arquivou uma representação feita no Ministério Público Federal (MPF) por servidores da área ambiental que buscavam responsabilizar o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por postagens na internet, declarações verbais e atos concretos, que para os autores do pedido, representavam crimes ou atos de improbidade administrativa.

A representação ingressada pela Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente do PECMA no Rio Grande do Norte (Ascema/RN) faz o levantamento das postagens do ministro e elenca reportagens veiculadas na imprensa, como o encontro na região do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no sul do Rio Grande do Sul, realizada em março, que culminou com a ameaça do ministro em abrir processos administrativos contra os servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que não compareceram ao evento. 

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Na decisão, o procurador defende que as declarações e postagens do ministro não configuram atos de improbidade administrativa: “O Brasil, assim como a maior parte das democracias ocidentais, adotou a liberdade de expressão como regra, de alcance amplo, que só comporta exceção quando o pensamento externado inquestionavelmente malferir direitos de terceiros”, escreveu Kleber Martins de Araújo.  

O procurador considerou as manifestações públicas do ministro não podem ser consideradas improbidade apenas porque quem tem contato com elas discorda do seu teor ou porque seu conteúdo é “politicamente incorreto”, é ácido, sarcástico ou vai na contramão de “ideias progressistas”. 

“Resta muito claro, também, que a representação, embora os tenha qualificado como ilícitos, se presta a externar a indignação da representante com as decisões administrativas neles contidas. Essas decisões, diga-se, são próprias da vertente ideológica que venceu a última eleição presidencial no campo ambiental: grosso modo, protagonismo da iniciativa privada, interpretação “pró-empreendedor” na tensa relação entre desenvolvimento e meio ambiente, necessidade de “desaparelhamento” e redução do “tamanho” dos órgãos e entidades ambientais, desconfiança em relação aos atos das gestões passadas e necessidade de revisá-los. Essas premissas, de certo modo, vão na contramão daquelas defendidas pela vertente ideológica que ocupou o Executivo Federal nas gestões passadas: protagonismo do Estado na proteção ao meio ambiente, necessidade de criação de cargos públicos e estruturas para melhor desempenhar esse papel, interpretação “pró-meio ambiente” na tensa relação entre desenvolvimento e meio ambiente, desconfiança em relação ao empreendedor (pertencente à “classe dominante”, inclinada a ignorar regras que obstaculizam seu acesso ao lucro)”, defendeu o procurador. 

A Associação de servidores entrou com essa mesma ação em outros estados e no Distrito Federal. Em Brasília, o MPF não apenas acatou como fez uma série de recomendações ao ministro Salles.

A Associação dos servidores tem o prazo de 10 dias para recorrer da decisão.

Saiba Mais

Decisão – Arquivamento da Representação contra o Ministro Ricardo Salles

 

Leia Também

Ricardo Salles é denunciado por servidores no MPF e na Comissão de Ética Pública

Bolsonaro e ministro do Meio Ambiente levantam suspeitas sobre contrato de veículos do Ibama

Entidades pedem que Ricardo Salles seja investigado por improbidade

 

  • Sabrina Rodrigues

    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
21 de agosto de 2019

Entidades pedem que Ricardo Salles seja investigado por improbidade

Cerca de cinquenta organizações protocolaram documento junto à Procuradoria Geral da República para averiguação de atos de improbidade do ministro

Notícias
7 de janeiro de 2019

Bolsonaro e ministro do Meio Ambiente levantam suspeitas sobre contrato de veículos do Ibama

Presidente comentou postagem do ministro Ricardo Salles, que usou o Twitter para falar sobre contrato de 28,7 milhões em aluguel de veículos. Presidente do Ibama rebate críticas

Salada Verde
17 de junho de 2019

Ricardo Salles é denunciado por servidores no MPF e na Comissão de Ética Pública

De acordo com a Asibama, ministro tem descumprido o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil, ao ofender a imagem da pasta ambiental nas redes sociais

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Comentários 2

  1. AA_do_Brazil diz:

    E aí, servidores do Ibama no RN? Tão preocupados com o Ministro lá em Brasa, e o chefe de vocês aí, tudo ok?


  2. Flávio diz:

    O mais assustador de toda esta história é a comprovação permanente do aparelhamento politico e ideológico do estado onde servidores tratam seus departamentos como feudos à revelia da vontade popular. Assim como procuradores se julgam donos da nomeação do PGR, funcionários da Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente do PECMA , também julga que pode interferir no governo em função dos próprios interesses.
    O resultado é a erosão da credibilidade do movimento ambientalista e da imagem pública dos órgãos ambientais, a cada dia expostos como inimigos da população, do desenvolvimento e da cidadania….