A área queimada na Amazônia Legal mais que dobrou entre 2023 e 2024, saltando de 129 mil para 254 mil quilômetros quadrados, segundo o diagnóstico “Gestão do Fogo na Amazônia”, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O estudo mapeia a estrutura de governança, recursos e práticas de manejo do fogo nos nove estados da região, e revela que, apesar dos avanços legais e institucionais, a resposta ao fogo ainda é marcada pela fragmentação entre esferas de governo e pela falta de integração operacional.
O levantamento envolveu 76 entrevistas com 122 profissionais de órgãos ambientais, bombeiros, defesa civil e brigadas, e identificou 382 brigadas ativas na Amazônia Legal, mais da metade sob responsabilidade estadual e municipal. Estados como Tocantins e Mato Grosso se destacam pelo maior número de brigadas locais, incentivadas por instrumentos como o ICMS Ecológico, mas a maioria ainda enfrenta escassez de recursos e equipamentos, especialmente fora da estação seca.
A pesquisa também mostra que a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Lei nº 14.944/2024), sancionada há um ano, foi um marco para reconhecer o fogo como ferramenta de manejo sustentável em determinados biomas, como o Cerrado e o Pantanal. No entanto, na floresta amazônica, onde o fogo é resultado direto da ação humana, o desafio segue sendo controlar as queimadas associadas ao desmatamento e fortalecer a prevenção em áreas vulneráveis.
Mesmo com 17 decretos estaduais de emergência ou restrição ao uso do fogo emitidos em 2023 e novas estruturas de comando criadas nos estados, como comitês e salas de situação, o IPAM destaca que a ausência de integração entre instituições e a indefinição sobre a gestão de terras públicas não destinadas limitam a efetividade das políticas. O Pará lidera o orçamento para ações ambientais em 2024, com mais de R$1 bilhão, enquanto estados como Amapá e Acre dependem fortemente de recursos externos.
Para o IPAM, a redução do fogo na Amazônia exige coordenação entre governos, comunidades e instituições locais, aliada à educação ambiental e fortalecimento das brigadas comunitárias. O diagnóstico conclui que a gestão eficiente do fogo na Amazônia passa por um equilíbrio entre uso sustentável, prevenção e resposta integrada, ainda longe de ser alcançado na escala que o bioma exige.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Após sobrevoar incêndios no Pantanal, Lula sanciona lei que disciplina uso do fogo
Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo prevê usos controlados, como na prevenção a incêndios, proíbe uso para desmatamento e incentiva soluções alternativas no meio rural →
Governo se antecipa e decreta estado de emergência em áreas vulneráveis a queimadas
MMA divulgou série de medidas para combate ao fogo em 2025, entre elas o aumento de 25% no número de brigadistas →
Investimento na adaptação ao fogo é decisivo para proteger biomas brasileiros, apontam especialistas
André Lima e André Aquino, do MMA, articulam como políticas públicas de integração e manejo do fogo associadas a mecanismos de financiamento podem favorecer atores locais em prol da conservação →

