No debate público brasileiro, políticas ambientais ainda costumam ser tratadas como sinônimo de custo econômico. A narrativa é familiar: proteger o meio ambiente encarece a produção, reduz competitividade, destrói empregos e freia o crescimento. Repetida à exaustão, essa lógica transforma qualquer regulação ambiental em ameaça ao desenvolvimento. Mas e se essa premissa estiver errada? E se a regulação ambiental estimular a inovação e a modernização da indústria? Se ela incentivar um setor a dar um salto de qualidade e produtividade? Se ajudar uma atividade econômica de uma região do Brasil a ficar mais forte e competitiva? A experiência de São Paulo com a cana-de-açúcar sugere exatamente isso.
Um estudo da Rede de Pesquisa em Produtividade e Sustentabilidade (Rede PP&S) mostra que a proibição gradual da queima da cana reduziu o emprego agrícola, mas também impulsionou uma transformação econômica mais ampla: respondeu por mais de 70% do crescimento do emprego industrial nas regiões analisadas, elevou a renda per capita e contribuiu para reduzir pobreza, desemprego e trabalho infantil. Um resultado de ganha-ganha claro para empresas e sociedade. Por sua importância, esse caso merece ser conhecido a fundo.
Essa transformação começou em 2002, quando o estado de São Paulo aprovou uma legislação para eliminar gradualmente a queima da palha da cana antes da colheita. Durante décadas, essa prática foi tratada como parte natural do processo produtivo. O fogo facilitava o corte manual ao remover a palha e espantar animais peçonhentos, mas também produzia enormes volumes de fumaça, poluição atmosférica, emissões de gases de efeito estufa e impactos à saúde pública, especialmente problemas respiratórios em comunidades urbanas e rurais próximas às lavouras.
Com a nova regulamentação proibindo a queima, a mecanização avançou rapidamente. De acordo com o estudo “Do campo às fábricas: Como a proibição de queimadas em São Paulo impulsionou a industrialização”, em 2006, pouco mais de 30% da área colhida já utilizava máquinas. Em 2012, esse número ultrapassava 60%. Esse movimento, por consequência, reduziu a necessidade de trabalho manual. Uma colheitadeira substitui dezenas de cortadores de cana. Em tese, era a receita perfeita para uma crise no mercado de trabalho rural.
Houve, sim, uma forte queda da demanda por trabalho manual. Mas a história não terminou aí. Analisando 393 municípios paulistas entre 2000 e 2010, o estudo mostra que a mecanização respondeu por 77% da queda do emprego agrícola no período. Ao mesmo tempo, a expansão da agroindústria, especialmente dos setores de açúcar e etanol, explicou 74% do crescimento do emprego industrial. Em outras palavras: trabalhadores deixaram os campos, mas foram absorvidos pelas fábricas.
Os efeitos sociais também foram positivos. Nos municípios mais impactados pela mecanização, a renda domiciliar per capita subiu quase 6%. No mesmo período, o desemprego caiu cerca de 24% e a pobreza recuou aproximadamente 13%. O trabalho infantil entre crianças de 10 a 15 anos também diminuiu quase 10%.
Esses resultados desafiam uma visão ainda dominante no Brasil: a de que a regulação ambiental necessariamente significa perda econômica.
Claro, isso não quer dizer que qualquer política ambiental produzirá automaticamente a prosperidade social. O caso paulista tinha características específicas. A cadeia da cana já possuía forte integração industrial, o que facilitou a absorção de trabalhadores deslocados. Nem todo setor ou região oferece essa mesma capacidade de transição. Mas a lição central permanece.
A pergunta não deveria ser se políticas ambientais ajudam ou atrapalham a economia. A pergunta correta é: sob quais condições elas podem estimular um crescimento melhor. Porque regulações bem desenhadas podem fazer mais do que impor restrições. Elas podem alterar incentivos, acelerar inovação, eliminar tecnologias ultrapassadas e empurrar cadeias produtivas para modelos mais eficientes.
Ainda persiste a tentação de tratar a sustentabilidade como custo ou obstáculo burocrático. Mas economias modernas crescem justamente ao incorporar produtividade, tecnologia e maior valor agregado. Sob essa lógica, a sustentabilidade pode ser menos um freio e mais um motor de modernização. São Paulo deixa uma mensagem clara: política ambiental não precisa ser apenas política ambiental. Quando bem desenhada, pode também ser política econômica, industrial e social. Talvez o verdadeiro erro esteja em continuar tratando crescimento e proteção ambiental como se fossem inimigos naturais.
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