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As cores, vidas e luzes de Abrolhos

Apesar das dificuldades logísticas para visitá-lo, o primeiro parque marinho do país é um destino que vale muito a pena conhecer

21 de janeiro de 2026
  • Gualter Santana Pedrini

    Professor Universitário, escritor, fotógrafo e mergulhador. Fundador do Projeto Antrópica, que divulga ONGs e pesquisas em prol dos oceanos.

Conhecer o Parque Nacional de Abrolhos pode ser um grande desafio logístico. Atualmente as únicas empresas autorizadas pelo ICMBio a explorar os serviços de turismo, tanto de visitação quanto de mergulho, possuem embarcações partindo apenas do cais de Caravelas, uma cidade do sul da Bahia com grande história, mas que hoje está longe do que foi em seu apogeu econômico. Os dois aeroportos mais próximos e com voos comerciais regulares estão em Porto Seguro (BA) e em Vitória (ES), o que exige um deslocamento para Caravelas, de 300 ou 400 quilômetros respectivamente.

Soma-se ao itinerário uma navegação de no mínimo quatro horas para o arquipélago, em condições meteorológicas de vento e ondas nem sempre favoráveis e com mudanças bruscas que desafiam as previsões e planejamentos com maior antecedência.

 No último trimestre de 2024 tentamos montar esse quebra-cabeça em meio a inúmeras desventuras que foram se acumulando: voo cancelado, falta de carro para alugar no verão, estradas em péssimas  condições e motor de barco quebrando de última hora. Foi apenas em janeiro de 2025, quando já estávamos desistindo, é que surgiram duas vagas junto a um grupo de mergulhadores, que saíram do  Rio de Janeiro e que enfrentaram mais de 15 horas de ônibus para chegar em Caravelas, onde nos encontramos para o embarque.

Ao final, vivenciamos quatro dias de água clara, quase sem vento e mergulhos até a noite. Há quem possa questionar se vale a pena diante de tantos percalços. Sim. A cor da água, o pôr do sol, as estrelas, as rochas, as aves, os naufrágios, as histórias, os corais e toda a vida marinha que lá habita. Abrolhos irá sequestrar o seu fôlego, repetidas vezes, recompensando cada esforço para chegar até lá.

Foto aérea do arqupélago. Crédito: Gualter Pedrini

O Parque Nacional Marinho de Abrolhos (PNMA) foi criado em 1983 pelo Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (IBDF), a entidade federal responsável pela proteção dos recursos naturais à época. Naquele ano o país estava mergulhado em um caldo de ditadura militar, inflação, desemprego e protestos populares que estampavam a capa dos jornais naquele mês de abril. Minúsculas foram as matérias noticiando a criação do primeiro parque marinho do Brasil. (Iremos abordar mais da história da criação do parque em um texto futuro).

Ao contrário do imaginário popular, a área do Parque não compreende apenas o entorno das ilhas do arquipélago de Abrolhos. Atualmente o Parque possui mais de 91 mil hectares, abrangendo o Recife de Timbebas ao norte de Caravelas, o Parcel dos Abrolhos e o famoso arquipélago composto pelas ilhas Redonda, Siriba, Sueste e Guarita. A Ilha de Santa Bárbara também faz parte do arquipélago, mas está sob jurisdição da Marinha e oficialmente não faz parte do Parque, mesmo sendo de vital importância para as ações de monitoramento, pesquisa, aferição de dados meteorológicos e segurança da navegação por conta do farol que nela existe.

Localização de Abrolhos. Fonte: ICMBio, Instituto Socioambiental/Dados cartográficos Google/Edição: Scribble Maps

Dentre os objetivos específicos do parque como Unidade de Conservação estão a preservação da mais extensa área de recifes de corais do Brasil e de todo o Atlântico Sul, com espécies de corais que não existem em mais nenhum lugar do planeta bem como construções coralíneas em forma de cogumelo, chamados de “chapeirões”, que só existem naquelas águas.

Algumas pesquisas de levantamento de biodiversidade já registraram mais de 1300 espécies no parque, 45 delas consideradas ameaçadas de alguma forma pela lista da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais). Mas desde 1969, muito antes dos primeiros estudos faunísticos na região, pesquisadores brasileiros destacavam a singularidade desse ecossistema e a necessidade de se criar uma reserva para protegê-lo da pesca sem fiscalização que ocorria na região.  Naquela época ainda eram embrionários os conhecimentos sobre a importância da região para a reprodução da baleia jubarte, tartarugas marinhas, fragatas, atobás e o mergulho autônomo ainda era privilégio de poucos brasileiros que aprenderam a mergulhar no exterior.

Atualmente, além do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, existe na região um mosaico de áreas protegidas, que englobam outros ecossistemas, tanto no mar quanto em terra:

  • Reserva Extrativista de Cassurubá
  • Reserva Extrativista de Corumbau
  • Parque Nacional do Pau Brasil
  • Parque Nacional do Monte Pascoal
  • Parque Nacional do Descobrimento
  • APA Estadual da Ponta da Baleia
Mapa com as Unidades de Conservação próximas. Fonte: ICMBio, Instituto Socioambiental/Dados cartográficos Google/Edição: Scribble Maps

Nos próximos textos iremos abordar mais detalhes sobre a história, as aves, vida marinha e também os desafios daquele que é o primeiro parque marinho do país, mas que  continua sendo desconhecido pela maioria dos brasileiros.

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