Em 1932, diante do avanço das tensões que levariam o mundo à Segunda Guerra Mundial, o físico Albert Einstein fez ao psicanalista Sigmund Freud uma pergunta que permanece uma das mais perturbadoras da história política moderna: por que a guerra?
Freud respondeu que a civilização vive permanentemente sob a tensão entre duas forças: os impulsos de cooperação e os impulsos de destruição.
O progresso político e institucional, segundo ele, consistiriam em autoridade moral, ética, em processo de fortalecimento supranacional na perspectiva de conter a violência por meio do direito, das instituições e da cooperação internacional.
Não há dúvida que vivemos hoje uma situação oposta, especialmente diante do protagonismo político do governo de Donald Trump, que vem atentando contra o multilateralismo global e enfraquecendo instâncias supranacionais como a ONU e a OMS, além de minar tratados internacionais como o Acordo de Paris.
Quase um século depois, a pergunta de Einstein continua sem resposta definitiva em cenário “backlash”, de retrocesso humanitário e perda de conquistas sociais.
Mas o mundo contemporâneo revela uma dimensão que ambos, Freud e Einstein, apenas começavam a revelar: a guerra, potencializada pela maquinaria da tecnologia, não destrói apenas sociedades – ela também destrói os sistemas naturais que sustentam a vida no planeta. A potencialização e ampliação da escala das ações humanas durante o século XX foi classificada pelo musicólogo Henry Barraud como “barbárie armada de tecnologia”.
A guerra precisa ser analisada como vetor de colapso ambiental. Os conflitos armados contemporâneos deixaram de ser apenas crises políticas ou militares. Eles se tornaram também eventos ecológicos de grande escala.
Hoje são quase duas centenas de conflitos armados ativos no mundo, enquanto nos últimos anos aproximadamente 120 milhões de pessoas foram deslocadas à força por guerras, perseguições e violência.
Esses números traduzem o drama humano imediato. Mas por trás deles existe um impacto ainda menos visível: a devastação ambiental acumulada que acompanha cada conflito armado.
Bombardeios, incêndios industriais, destruição de infraestrutura, contaminação química e deslocamentos populacionais produzem uma transformação profunda dos ecossistemas.
Florestas desaparecem, solos tornam-se improdutivos, rios e territórios inteiros são contaminados – e a atmosfera é carregada de carbono. Regiões inteiras e o ambiente planetário impactado passam a carregar riscos ambientais que podem persistir por décadas.
A guerra, nesse sentido, não é apenas um fracasso político. Ela se tornou também um agente direto de degradação ambiental global.
Os conflitos recentes demonstram de forma dramática essa realidade.
Na Ucrânia, extensas áreas agrícolas e florestais foram contaminadas por minas terrestres e munições não detonadas. Bombardeios atingiram instalações industriais, provocando incêndios e poluição de solos e rios.
Na Faixa de Gaza, a destruição de edifícios, estradas e sistemas de saneamento produziu milhões de toneladas de detritos contaminados por substâncias perigosas. O colapso da infraestrutura sanitária agravou riscos de doenças e comprometeu severamente a qualidade ambiental.
Esses cenários revelam um padrão recorrente: a guerra não apenas destrói cidades. Ela também desestrutura os sistemas ecológicos que sustentam a vida humana.
Há de se considerar hoje o risco ambiental da guerra envolvendo o Irã. A possibilidade de uma escalada militar na região ampliou ainda mais os riscos ambientais associados à geopolítica contemporânea. O país ocupa posição estratégica no Golfo Pérsico, uma das áreas mais sensíveis do planeta do ponto de vista energético e ecológico. O conflito nessa região poderia desencadear impactos ambientais de grande magnitude.
Ataques a terminais petrolíferos, refinarias ou navios-petroleiros poderiam gerar derrames massivos de petróleo, afetando ecossistemas marinhos extremamente vulneráveis.
A história recente demonstra o alcance potencial desses desastres. Durante a Guerra do Golfo, centenas de poços de petróleo foram incendiados no Kuwait, liberando enormes quantidades de poluentes na atmosfera e provocando um dos maiores desastres ambientais da história militar.
O conflito com o Irã pode repetir ou até ampliar esse tipo de impacto, liberando poluentes em escala regional e afetando cadeias ecológicas e climáticas muito além do Oriente Médio. Ressalte-se os impactos sinérgicos e cumulativos com emissões de carbono e outros gases efeito estufa em larga escala.
Estamos diante do paradoxo climático da guerra, que contribui para um problema ambiental global raramente discutido com transparência: o impacto climático do aparato militar.
Estudos indicam que as atividades militares respondem por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa – um volume comparável às emissões de grandes economias industriais. No entanto, parte significativa dessas emissões permanece fora das obrigações internacionais de reporte climático.
Tanto o Protocolo de Kyoto quanto o Acordo de Paris permitem exceções relacionadas à segurança nacional, o que reduz a transparência sobre o impacto climático das atividades militares.
Esse cenário revela um paradoxo político profundo: enquanto governos negociam metas climáticas ambiciosas, uma parcela significativa das emissões globais permanece praticamente invisível no debate público.
A militarização é permanente risco ambiental sistêmico, uma vez que o problema não se limita aos impactos diretos da guerra. Ele envolve também a própria estrutura militar global.
A manutenção de grandes complexos militares exige cadeias industriais extensas, consumo massivo de combustíveis fósseis, redes logísticas globais e produção contínua de armamentos.
Mesmo em tempos de paz, esse aparato representa uma pressão ambiental significativa. A militarização do planeta deve ser compreendida não apenas como um desafio geopolítico, mas também como um fator estrutural de risco ambiental para o sistema terrestre.
O desafio civilizatório colocado na resposta de Freud a Einstein sugere que a superação da violência depende do fortalecimento de instituições capazes de limitar o uso da força. No século XXI, essa reflexão precisa ser ampliada.
A governança internacional não pode mais tratar segurança, clima e meio ambiente como temas separados. A destruição ambiental provocada pela guerra demonstra que a segurança ecológica é parte integrante da segurança humana.
A guerra não representa apenas o fracasso da política. Ela também constitui uma ruptura profunda na relação entre humanidade e natureza.
Se a civilização consiste, como sugeria Freud, no esforço permanente para conter as forças destrutivas que atravessam a história humana, então proteger os sistemas naturais do planeta deve ser reconhecido como parte essencial desse projeto civilizatório.
Preservar os ecossistemas em tempos de paz – e evitar os conflitos – tornou-se uma das tarefas mais urgentes da governança global no século XXI.
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