Entre os dias 5 e 7 de maio, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizou a Reunião Magna de 2026, intitulada “Oceano do Amanhã: ciência para um planeta em equilíbrio”. Sediado no Museu do Amanhã, o encontro destacou a escolha da Organização das Nações Unidas de declarar a década de 2020 como a “Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”.
Segundo o Dr. Luiz Drude de Lacerda, presidente do Conselho Científico do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e coordenador da Reunião Magna de 2026, o encontro teria o “objetivo crucial de debater o papel do oceano no equilíbrio planetário, destacando sua importância na regulação do clima, na manutenção da biodiversidade, no fornecimento de serviços ecossistêmicos e no seu papel estruturante para a humanidade”.
Ao longo dos três dias, os painéis trouxeram pesquisadores, especialistas e representantes de diferentes áreas para discutir o papel da ciência na preservação do oceano e na construção de soluções em parceria com a tecnologia, evidenciando a transdisciplinaridade da temática. A programação abordou temas como poluição e contaminação marinhas, mudanças climáticas, transição energética, saúde ambiental e humana e diplomacia científica e governança global.
Paulo Gadelha, pesquisador titular da Fiocruz, apresentou a interdependência entre a preservação dos ecossistemas aquáticos e a saúde e bem estar humanos, através do conceito Blue One Health.
Sobre o caráter patrimonial do oceano profundo, Letícia Reis de Carvalho, oceanógrafa e Secretária-Geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, enfatizou o uso estratégico dos oceanos enquanto bem global compartilhado. Ela reforçou que embora a Lei do Direito do Mar reconheça a pluralidade de oceanos, afirmou que se trata de um ecociclo integrado que garante a essência da vida no planeta. “Determinar que 54% dos oceanos [hoje reconhecido pela Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar] seja um patrimônio comum da humanidade resultou de uma luta do Sul Global buscando evitar uma nova colonização de espaços onde recursos possam produzir riquezas.”
A proposta da Reunião Magna foi aproximar ciência, sociedade e tomada de decisão, reforçando o papel da ciência na formulação de soluções para a preservação dos ecossistemas marinhos e o equilíbrio climático global e a necessidade de transformar conhecimento científico em ações concretas coletivas de proteção do oceano.
Dossiê científico com contribuições do evento
Como resultado das discussões realizadas durante a Reunião Magna, a ABC informou que será produzido um dossiê científico reunindo análises, pesquisas e propostas apresentadas pelos participantes. O material deverá consolidar recomendações voltadas ao cuidado com o oceano e ao enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas.
“Esta reunião, embora tenha um nível científico muito alto, também tem um caráter indutor de políticas públicas. Ao longo da reunião estamos discutindo e preparando um documento levantando as principais questões que acreditamos que o poder público deva considerar na hora de fazer leis e políticas”, comenta Lacerda.
A expectativa é que o documento sirva como referência para pesquisadores, formuladores de políticas públicas e organismos internacionais, além de contribuir para o fortalecimento da participação brasileira nos debates globais sobre sustentabilidade marinha. “A ABC afirma há 110 anos por meio de sua história e de seus membros: a ciência não é um luxo, não é um adorno, nem uma consideração secundária, é uma condição para a boa decisão pública, e quando se trata de oceano profundo a ciência também é uma condição para a justiça”, enfatiza Carvalho.
Tratado Global dos Oceanos
O evento foi realizado em um momento estratégico para a agenda ambiental global. As discussões da Reunião Magna ocorreram após grande avanço das negociações internacionais em torno da proteção dos oceanos, visto o Tratado do Alto-Mar das Nações Unidas (BBNJ) que entrou em vigor no dia 17 de janeiro de 2026. O acordo representa um marco histórico para a governança internacional das áreas marinhas fora das jurisdições nacionais.
O tratado estabelece mecanismos para criação de áreas marinhas protegidas em águas internacionais, além de prever regras para compartilhamento de recursos genéticos marinhos e realização de estudos de impacto ambiental em atividades econômicas no alto-mar.
Para pesquisadores presentes no Museu do Amanhã, a ciência terá papel decisivo na implementação dessas metas. O monitoramento ambiental, a produção de dados oceanográficos e a cooperação tecnológica e científica são considerados fundamentais para orientar políticas públicas e garantir a conservação dos ecossistemas marinhos diante das transformações climáticas em curso.
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