“Vai ficar marcado para sempre.” A frase, carregada de dor e memória, é do síndico André Luiz Oliveira, conhecido como “Cajá”, 16 anos após a tragédia do Morro do Bumba, ocorrida em 7 de abril de 2010. O desastre devastou a comunidade de mesmo nome, localizada no Viçoso Jardim, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, causando a morte de ao menos 48 pessoas e deixando centenas de desabrigados e desaparecidos.
Para André, que tem 51 anos e atua como síndico há dez anos no conjunto habitacional do Bumba, criado para abrigar as vítimas da tragédia, relembrar aquele dia não é fácil. A memória traz de volta amigos e vizinhos próximos que ele perdeu. Segundo o síndico, “o sentimento fica”, especialmente a alegria e o companheirismo que existiam entre os moradores antes do desastre.
“A tragédia ficou marcada para sempre. Perdemos amigos, parentes… fica uma marca. Sempre que chega essa data, as pessoas lembram, mas seguimos tocando a vida da melhor forma possível. O sentimento permanece na memória. Pode passar o tempo que for, mas isso não vai apagar da nossa mente”, afirma.
Semana marcada por fortes chuvas
O desastre teve como principal causa as condições inadequadas de moradia e o acúmulo de lixo e entulho no solo da região que deixaram o terreno instável e impróprio para moradia. O morro, erguido sobre um antigo lixão e sem planejamento público, estava saturado pela decomposição dos resíduos. O morro foi um depósito de lixo entre 1970 e 1985. Com a pressão da água por causa das chuvas, ocorreu a tragédia.
O despachante Zé Mauro, de 52 anos, presenciou o desmoronamento. Para o sobrevivente, no entanto, o desastre começou muito antes, marcado pelo descaso e abandono da região e dos moradores do Bumba.
“Foi uma sequência de descasos. Aquilo ali, na verdade, era uma lixeira. Depois que começaram a chegar as pessoas, não havia controle: alguém levantava o barraco e a prefeitura autorizava. E até hoje existe abandono, não cuidam de ninguém. Alguns receberam casas e outras ajudas, mas outros perderam tudo e tiveram que se virar”, relata.


Eventos extremos e racismo ambiental
Para a pesquisadora Isabelly Damasceno, internacionalista pela UFRJ, a tragédia do Morro do Bumba evidencia como as favelas seguem entre os territórios mais vulneráveis a desastres ambientais no estado. Segundo a especialista, esse cenário reflete o racismo ambiental, marcado pela precariedade do saneamento básico e pela ausência de políticas públicas estruturais voltadas a essas comunidades.
“A dificuldade com o saneamento básico também é um ponto alarmante quando falamos em racismo ambiental. Se estamos acostumados a lidar com o mau cheiro e com o risco de doenças devido à exposição a resíduos e tubulações irregulares nas favelas, nos bairros ‘nobres’ esse cenário é impensável. Nas favelas, são os próprios moradores que acabam lidando com problemas estruturais que deveriam ser enfrentados pelo poder público”, explica Isabelly Damasceno.
As promessas que ficaram pelo caminho
Meses depois da tragédia, em julho de 2010, o governo do estado anunciou um projeto de recuperação da área, elaborado pelas secretarias estaduais de Obras e do Ambiente, com investimento de R$ 45 milhões. O plano previa a construção de uma praça em homenagem às vítimas e de 180 moradias populares em um terreno desapropriado em frente ao morro, destinado às famílias desalojadas pelo desastre.
O projeto, no entanto, nunca saiu do papel. Procurado, o governo do estado do Rio não havia se manifestado sobre o andamento das iniciativas até o fechamento desta reportagem.
Por outro lado, a Prefeitura de Niterói informou que, desde 2010, entregou cerca de 4 mil unidades habitacionais na cidade. Parte dessas moradias foi destinada à realocação de famílias afetadas pela tragédia do Bumba. O município também afirma ter investido R$ 1,7 bilhão em ações de prevenção, contenção de encostas e resiliência no município.

Reconstrução da vida dos sobreviventes
Outra promessa do poder público era de que os desalojados, distribuídos entre oito conjuntos habitacionais, receberiam aluguel social e uma casa por meio do programa Minha Casa, Minha Vida. Embora 263 sobreviventes já tenham recebido auxílio, diversos outros ainda lutam até hoje por uma moradia digna e definitiva.
É o caso de Dileusa Gomes, dona de casa de 57 anos. Em 2010, ela foi transferida, junto com outros desalojados, para uma área não periférica próxima ao Bumba, mas depois precisou se mudar com os três filhos para o Morro do Castro, em São Gonçalo. Ela relata que, por falta de apoio financeiro da Prefeitura de Niterói para se reestabelecer, não conseguiu permanecer no novo bairro.
“Naquela noite, eu perdi minha casa, meus vizinhos e a vida que eu tinha. Disseram que a gente teria um recomeço, que as famílias iam receber uma casa e apoio para seguir em frente. Mas 16 anos se passaram, muita promessa foi feita, e até hoje ainda tem gente esperando aquilo que prometeram”, ressaltou Dileusa.
Responsabilização pela tragédia
À época do desastre, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) notificou o então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), e o então secretário municipal de Serviços Públicos, Trânsito e Transportes, José Roberto Mocarzel, para que prestassem esclarecimentos. Ambos foram investigados por homicídio culposo, sob a alegação de negligência do poder público municipal.
A investigação se baseou, principalmente, no relato do então secretário municipal de Integração Comunitária, João Batista Medeiros Júnior, que afirmou ter alertado Silveira e Mocarzel por e-mail, entre janeiro e março de 2010, sobre os riscos de deslizamento em várias regiões, incluindo o Bumba. A declaração foi prestada à Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Niterói, mas, segundo o depoimento, nenhuma providência foi adotada à época.
‘Obras de contenção de encostas são imprescindíveis’
Ao recordar o caso, o atual prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), ressaltou a importância da infraestrutura urbana.
“As obras de contenção de encostas são imprescindíveis. A cidade vem se transformando com ações planejadas, de acordo com um trabalho criterioso de análise que segue o plano de gerenciamento e prevenção de riscos. Todas as áreas classificadas como ‘risco alto’ e ‘risco muito alto’ passaram por obras de contenção”, afirmou.
A vice-prefeita e secretária do Clima, Defesa Civil e Resiliência de Niterói, Isabel Swan (PV), também destacou as ações de enfrentamento às mudanças climáticas e aos eventos extremos no município. “Niterói vem tratando como prioridade máxima a estruturação da cidade para situações de eventos climáticos extremos. Estamos falando de um município com características geográficas marcadas por muitos morros e inclinações, por isso o trabalho que a prefeitura faz é agir com obras de contenção e drenagem, mas também com prevenção”, garante.
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