O livro Manguezal Carioca, lançado no fim de abril, propõe um novo olhar sobre esse ecossistema ao unir pesquisa científica e fotografia. A partir da visão artística do fotógrafo Gustavo Pedro, da AFNATURA, e do pesquisador Mário Soares, do Núcleo de Estudos em Manguezais da UERJ (NEMA), a obra destaca a importância ambiental, científica e social dos manguezais, além de ajudar a desconstruir estigmas historicamente associados a esses territórios.
O lançamento aconteceu na sede da Reserva Biológica de Guaratiba, localizada no Rio de Janeiro, uma das áreas de preservação mais importantes do Estado e um espaço que também carrega um significado pessoal para Mário Soares. Segundo o pesquisador, sua conexão com os manguezais começou ainda na infância, justamente na região.
“A primeira vez que entrei em um manguezal eu devia ter uns 10 anos de idade, e foi exatamente no manguezal de Guaratiba. Fiz minha tese em Guaratiba, fui gestor de Guaratiba e Guaratiba virou o principal ponto de estudo das minhas pesquisas. O manguezal está na minha vida desde a graduação”, relembra.
O manguezal vai muito além de um conjunto de árvores à beira-mar. Trata-se de um ecossistema complexo, que funciona como zona de transição entre a terra e o oceano. Existe uma confusão da população entre os termos “mangue” e “manguezal”, porém, a distinção é fundamental: enquanto “mangue” se refere às espécies de árvores características desse ambiente, “manguezal” compreende todo o ecossistema, incluindo o solo lodoso, a vegetação e a fauna que habitam a região.
Segundo Mario, o manguezal atua como uma espécie de esponja natural, absorvendo a água e ajudando a controlar inundações em áreas urbanas. Além dessa função de drenagem natural, o ecossistema também possui grande importância econômica e ecológica, servindo como berçário para diversas espécies marinhas e desempenhando um papel importante na captura de carbono. Esses ambientes podem absorver entre quatro e seis vezes mais carbono da atmosfera do que grandes florestas, o que reforça seu valor estratégico tanto para a conservação ambiental quanto para o mercado de carbono.

Historicamente, os manguezais foram cercados por estigmas ligados ao odor característico do ambiente, muitas vezes associado, de forma equivocada, à falta de higiene ou insalubridade. Esse cheiro é resultado de um processo natural de decomposição da matéria orgânica, como folhas e outros resíduos vegetais, fundamental para o equilíbrio do ecossistema. Durante um longo período, essa visão preconceituosa contribuiu para a destruição de extensas áreas de mangue na cidade, como no caso do Canal do Mangue, remanescente do antigo braço de mar conhecido como Saco de São Diogo, que no passado atuava como uma importante barreira natural para a região da Praça da Bandeira.
Hoje, no entanto, essa percepção começa a mudar à medida que cresce a compreensão sobre a relevância ambiental desses espaços. “O manguezal realmente era um ambiente hostil a ser domesticado, destruído. Mas hoje a gente não tem justificativa, porque hoje temos todo o conhecimento da importância de suas funções”, afirma Mário.
Um dos caminhos para ampliar esse conhecimento e aproximar a sociedade da importância dos manguezais é justamente o lançamento do livro Manguezal Carioca. Para o fotógrafo Gustavo Pedro, que participou da construção da obra, a relação com esse ambiente vai além do olhar profissional e também carrega um significado pessoal.

“Para mim, é um dos lugares mais incríveis que eu posso visitar. Quando eu volto para o mundo do manguezal, eu penso: caramba, obrigado, porque tive a oportunidade de estar lá, de vivenciar isso”, relata.
Entre as diversas histórias vividas durante a produção dos registros, o fotógrafo enfrentou alguns desafios, como a lama espessa nos equipamentos e roupas, que o fez perder cerca de seis pares de calçados ao longo das expedições, além de lidar com mosquitos que, segundo ele, “não respeitam repelente”. Para acessar áreas mais isoladas dos manguezais, muitas vezes foi necessário utilizar caiaques e enfrentar trajetos de difícil locomoção.
Apesar das dificuldades, Gustavo afirma que a experiência contribuiu para seu crescimento pessoal e profissional. Durante esse processo, ele também criou laços com comunidades tradicionais da região, especialmente com catadores de caranguejo, relações que se transformaram em amizades e ajudaram a aprofundar sua conexão com o ambiente retratado.
“O livro é esse agente instigador das pessoas se sensibilizarem de terem algum apreço pelo lugar, de terem uma nova visão daquele ambiente natural, de se interessarem pela história do lugar”, afirma o fotógrafo.
A importância ambiental e também afetiva dos manguezais está presente nos relatos dos autores e se reflete nas páginas de Manguezal Carioca. Já lançado e com poucos exemplares disponíveis para venda, o livro reúne pesquisa científica e registros fotográficos com o objetivo de ampliar o olhar do público sobre esse ecossistema. A obra conta com o apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, além do patrocínio das empresas M&I Electric, Sitti e MPE Engenharia.
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