Atrás da casa em que nasceu, em 12 dez. 1915, havia uma mata. Não um jardim, mata mesmo para a qual o menino Augusto fugia: “Eu vivia fugindo de casa… ia pra mata atrás dos passarinhos”. Enquanto o Brasil se alfabetizava lentamente em cartilhas de moral e civismo, em Santa Teresa, município da região serrana do Espírito Santo, Augusto Ruschi – filho de imigrante italiano com descendente austríaca – instruía-se entre penas e raízes na arte de observar e sentir o mundo ao seu redor. Aos onze anos, passou a desenhar – com detalhes morfológicos caprichados – as orquídeas colecionadas por seu pai, buscando descrevê-las a seu modo, com a ajuda dos livros nos quais pesquisava.
No jardim da escola primária, encontrou envelopes com selos do Vaticano, descartados pelos frades Capuchinhos que a administravam – foi o começo de seu gosto por coleções, levado para o casarão oitocentista onde viveu com seus pais e 11 irmãos. Lá, improvisou um laboratório de entomologia para guardar insetos em caixas de fósforos: “o pai implicava: pra que tanta caixinha com bicho nojento, meu Deus? (Eram umas cinquenta). Um dia, o menino viu que tinham sido jogadas fora. Não se aborreceu, e informou suavemente ao pai: Não adianta o sr. fazer isso. Vou preparar cem caixinhas, desta vez”. Interessado por pragas e plantas agrícolas, Augusto dissecava lagartas criadas em estufas fabricadas por ele mesmo – há quem veja nisso o prenúncio do engenheiro agrônomo que viria a se tornar, ainda que a agronomia o tenha vinculado à conservação e não à exploração produtiva da terra.
Em 1934, iniciou – de maneira sistemática – seus estudos sobre o comportamento dos beija-flores. Quando ingressou no Museu Nacional, em 1939, aproximou-se dos botânicos Alberto José de Sampaio (1881-1946) e Frederico Carlos Hoehne (1882-1959), além do zoólogo Cândido Firmino de Mello Leitão (1886-1948) – cientistas que, além de professores, divulgadores da ciência e gestores de importantes instituições de pesquisa, militavam para que os cuidados com a natureza se convertessem em políticas públicas de alcance nacional. Foi a partir das interações com cientistas que Ruschi acabou se tornando um. Dez anos mais tarde, fundaria o Museu de Biologia Professor Mello Leitão – MBML (em 2014, o museu passou a integrar o Instituto Nacional da Mata Atlântica – INMA) na sua terra natal – talvez a primeira instituição nacional a usar a palavra “biologia” no nome, quando essa disciplina sequer havia entrado no universo acadêmico brasileiro: “Emocionados com as gentilezas e a boa acolhida por parte do grande cientista impressionou também a sua obra, pois ele instalou em seu amplo parque, nos arredores da pitoresca cidade capixaba de Santa Teresa, um verdadeiro paraíso das aves e dos pássaros, onde avistamos desde a possante araraúna até o minúsculo beija-flor: incríveis preciosidades ornitológicas”, destaca reportagem da revista Fauna em 1961.


A partir daí, publicou mais de 400 trabalhos, entre artigos e livros, com os resultados das suas observações e descobertas, tornando-se referência mundial em beija-flores, defendendo a importância dessas aves minúsculas nas redes invisíveis de polinização das orquidáceas. Fez isso para além dos muros das instituições de ensino e pesquisa, das salas de aula e das bibliotecas. Ruschi levou para a sua produção intelectual a vivência nas matas – verdadeiros laboratórios a céu aberto – que explorava diuturnamente para aumentar o seu conhecimento sobre a diversidade de epífitas – plantas que usam outras como suporte, sem retirar delas água ou nutrientes (por exemplo, bromélias e orquídeas) – e beija-flores, e compreender as engrenagens do mundo natural: “Eu não posso estudar entre quatro paredes. Eu quero voltar para minhas florestas”.

Artigo publicado em 1946, na edição de junho de Seleções Agrícolas. Ruschi é listado como um dos colaboradores da revista.

Ruschi esteve à frente de movimentos para frear a derrubada da Mata Atlântica no Espírito Santo e o avanço do plantio do eucalipto sobre remanescentes naturais que vinham desaparecendo rapidamente diante de seus olhos, influenciando governadores e parlamentares do seu estado natal na criação das primeiras áreas protegidas capixabas. Também foi crítico do uso indiscriminado de agrotóxicos – denunciou os perigos do diclorodifeniltricloroetano, o DDT – e da ocupação da floresta Amazônica. Ele esteve entre os pioneiros da militância pela conservação da natureza no Brasil: “Cortam as matas ignorando tudo que está dentro delas. […] A desertificação da Amazônia já é uma barbaridade. [… nela] está ocorrendo o maior crime do planeta. O maior crime de todos os tempos, pois nunca se derrubou tanta árvore […]. A Amazônia vai virar um deserto, numa época, inclusive, em que políticos e ministros falam muito de ecologia. Mas só falam, não fazem nada. […]”.
Em 1953, Ruschi criou a Sociedade Brasileira de Proteção à Natureza (SBPN), difundindo ideias conservacionistas por meio dos boletins do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão. Alguns anos depois, em 1958, participou da criação da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), entidade pioneira na articulação ambientalista em escala nacional e internacional. Enquanto a SBPN refletia uma atuação mais regional e fortemente vinculada à liderança pessoal de Ruschi, a FBCN representou a consolidação de uma militância mais estruturada, organizada e estratégica, em reação ao acelerado projeto desenvolvimentista do país.



Entre o santuário ecológico intocável e o estoque de recursos naturais supostamente infinito, Ruschi não foi nem um conservacionista romântico, nem um mero agrônomo pragmático — “Ni tanto al cielo, ni tanto a la tierra” (ou “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”). Ele habitou as tensões e ambiguidades do mundo real, sem dissolvê-las em respostas simples. Há uma tendência confortável de imaginar o ambientalista como um dissidente ou tresloucado romântico. Ruschi não era isso. Em muitos momentos, esteve dentro das engrenagens do Estado — e as usava. Talvez por isso tenha conseguido influenciar na criação de áreas protegidas, mas não sem acumular desafetos. Ontem e hoje, quem interfere na economia ou em velhos costumes para proteger a floresta está longe de ser unanimidade. Nessa complexidade presente na militância ambiental, mais do que em qualquer pureza ideológica, residia a força de Ruschi, a sua resistência.
Devoto de São Francisco, a proteção da natureza era “dever sagrado”. Mas, o Ruschi conservacionista não era contra cortar árvore; era contra cortar todas elas. Não era contra a agricultura; era contra o emprego de agrotóxicos e a homogeneização de paisagens. Tampouco era contra o eucalipto – apenas combatia o projeto monocultor que se instalou no norte do Espírito Santo e sul da Bahia no final dos anos 1960, ameaçando a diversidade biológica, a pequena propriedade agrícola e povos indígenas dados como extintos. Seu discurso dialogava com duas tradições: a espiritualização da natureza e o uso racional dos recursos. Essa tensão aparece claramente nas análises históricas sobre sua militância nas décadas de 1940 a 1970, que mostram como ele transitava entre o ideal estético e a política pública. Ele queria que o país prosperasse. Só não aceitava o “progresso feito às cegas”, à custa das florestas nativas, da fauna e da flora, do equilíbrio climático e do bem-estar humano.

Ao longo dos enfrentamentos, Ruschi percebeu que a conservação ambiental não seria sustentada apenas por artigos científicos ou decretos governamentais. Era preciso sensibilizar a sociedade. Exorbitando do papel de cientista, ele também se dedicou a traduzir o conhecimento especializado para diferentes públicos, como agricultores, estudantes, radialistas, políticos, tornando-se um dos pioneiros da divulgação científica por meio de palestras, entrevistas e da arte. Frequentemente ele aparecia com seus beija-flores – verdadeiras “joias aladas”, como gostava de dizer – diante de câmeras fotográficas e de lentes televisivas, falando sobre o papel dessas aves no equilíbrio da natureza, e provocando o entusiasmo de espectadores e leitores pelo cultivo de flores que atraiam colibris. Ruschi também teve papel de destaque na carreira dos irmãos Demonte – Aves do Brasil eBeija-flores do Estado do Espírito Santo são os resultados mais conhecidos dessa relação do ornitólogo com os pintores naturalistas, reconhecidos pela precisão e beleza dos registros da biodiversidade brasileira.

“Para eles, a natureza constitui a luz da sua vida e a pintura a sua serenidade. Eis os artesãos humildes, que escalaram Petrópolis e com sua fé, confiança e sacrifício, se lançaram pelo Brasil cheios de vontade e com propósito e com o próprio talento, nos dizem sempre: Isto é um pouco da natureza do Brasil, que precisamos conhecê-la para amá-la e mostrá-la, para ajudar-nos a salvá-la.
A mostra em seu conjunto nos imprime uma expressão de alerta, de amor, uma prece em cores, como um poema ao som vivo dos componentes de alguns elementos que enriquecem nossos ecossistemas.
Eis o canto dos irmãos Demonte”
Imagem à esquerda: Página 6 do manuscrito de Augusto Ruschi ‘Exposição Demonte’ em Petrópolis, 1983. Crédito: Acervo do Fundo Augusto Ruschi, Arquivo de História da Ciência do INMA.

A força da performance pública de Ruschi não se devia apenas ao poder estético de plumagens metálicas e voos acrobáticos dos beija-flores, mas às advertências contundentes expressas em seus discursos e entrevistas. Assistia inconformado ao avanço da “agricultura empírica”, como chamava o método de derrubar e queimar florestas. Via a revoada de gaviões sobre a cinza quente, via o café avançar sobre a Mata Atlântica, depois o pasto, o eucalipto e outras monoculturas – uma depois da outra. E dizia – alto – que aquilo não terminaria bem. Não era metáfora; era diagnóstico ecológico antes de a palavra ecologia frequentar editoriais. Assim como Eurico Santos – o divulgador esquecido –, Ruschi também estava anacronicamente alinhado ao entendimento sobre o “valor intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético da diversidade biológica e de seus componentes”, conceito que viria a ser preconizado pela Convenção sobre Diversidade Biológica, em 1992. E quando criou o curso de proteção à natureza em 1959, já estava em consonância com os princípios básicos e objetivos fundamentais da Política Nacional de Educação Ambiental que só viria a ser publicada quatro décadas mais tarde.

Coluna Vida Curiosa dos Bichos, de Eurico Santos, publicada em A Cigarra Magazine, em 1957: “No corrente ano, em maio, Augusto Ruschi, biologista e ‘field naturalist’, sem dúvida o maior conhecedor da vida dos beija-flores fêz, no Jardim Botânico, a primeira revoada de beija-flores, isto por iniciativa e sob os auspícios do Senador Assis Chateaubriand e do Seabra’s Club. O naturalista Ruschi cria certas espécies de beija-flores como nós criamos canários ou coleiros. Há em sua criação um beija-flor com 14 anos de cativeiro. Digo certas espécies, porque há algumas que não se adaptam ao cativeiro”.

Em 3 jun. 1986 – às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente –, o Brasil se despediu, sob forte comoção, de um dos personagens mais emblemáticos da história da conservação ambiental. Ruschi foi sepultado no dia 5, em Santa Teresa, às margens do rio Timbuí, na Estação Biológica de Santa Lúcia – unidade de conservação criada por ele nos anos 1940, em articulação com o Museu Nacional e a Sociedade de Amigos do Museu Nacional. A data do falecimento viria a ser escolhida, anos mais tarde, para celebrar o Dia Nacional da Educação Ambiental — referência aos 20 anos da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92 —, produzindo um elo simbólico com a trajetória de Ruschi. Ao contrário do que muitos acreditam, sua morte não foi consequência direta da “ação dolorosa, lenta e progressiva” do veneno contraído no contato com sapos amazônicos em meados dos anos 70, no Amapá, como noticiou o Jornal do Brasil, em janeiro de 1986. Sua saúde já estava fragilizada por conta de “diversas malárias, esquistossomoses e febres amarelas contraídas por ele em suas viagens por matas tropicais”, e seu falecimento decorreu de insuficiência hepática, hemorragias e comprometimento irreversível das funções renais. As especulações em torno da morte foram examinadas na obra A militância ambiental de Augusto Ruschi: práticas científicas e estratégias políticas para a conservação da natureza no Brasil (1937-1986).
Hoje, no aniversário de 40 anos da despedida, os beija-flores continuam embelezando os ambientes, encantando pessoas, polinizando orquídeas e contribuindo para a preservação da biodiversidade. A Mata Atlântica também resiste, ainda que bem menor do que aquela defendida por Ruschi. Em 1986, a unidade de conservação criada em 1948, em Santa Teresa, passou a se chamar Reserva Biológica Augusto Ruschi, homenagem ao seu maior defensor. Em 1989, a dedicação dele aos beija-flores e às orquídeas foi estampada nas notas de 500 cruzados novos e 500 cruzeiros – que circularam entre 1990-94 – emitidas pelo Banco Central do Brasil. Em 1994, recebeu o título de Patrono da Ecologia do Brasil e, em 2015, de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Espírito Santo. O beija-flor virou símbolo do município de Santa Teresa em 2013. Homenagens não faltam.

Ruschi acreditava que a formação das crianças decidiria o futuro da natureza brasileira: “Enquanto não se formar a criançada na direção certa, o futuro da natureza do Brasil continuará ameaçado”. Repetia isso como quem sabe que o problema não é técnico, é cultural. Talvez o ponto mais atual de sua trajetória esteja aí. Ele viveu no tempo em que o machado era literal. Hoje o desmatamento tem planilha, crédito subsidiado e linguagem de eficiência. Mudaram os instrumentos; a lógica e os valores da espoliação, não.

Esta biografia musicada conta como Augusto Ruschi lidou com o suposto envenenamento contraído no contato com sapos amazônicos em meados dos anos 70s, no Amapá. A artista plástica e ilustradora Edith Derdyk deu vida aos sapos com suas cores vibrantes e à beleza dos beija-flores.
Ao contrário do que muitos acreditam, a morte de Ruschi não foi consequência das substâncias tóxicas secretadas pelos sapos.
Pesquisador, professor, divulgador científico e conservacionista, Augusto Ruschi foi, antes de tudo, um apaixonado pela natureza, dedicado incondicionalmente à defesa dela, envolvendo-se em polêmicas – inclusive em torno das incongruências e fragilidades da obra e do legado acadêmico, esmiuçados na obra O homem, a mata e o beija-flor: Augusto Ruschi e a conservação da natureza no Brasil –, e em debates públicos, sempre guiado pela convicção de que a ciência deveria orientar a relação humana com o mundo natural. Se Ruschi estivesse vivo e tivesse redes sociais, teria muitos seguidores ou seria cancelado por conta das suas declarações impetuosas? Certo nos seus entendimentos, parece que ele estava.

Geralmente, as trajetórias científicas começam nas universidades e instituições de pesquisa – a de Ruschi começou silenciosamente no interior da floresta. O menino que fugia para a mata virou cientista, gestor, militante e nome de floresta. Na missão que escolheu pra si, cultivou a resistência diante da insensatez de uma sociedade que avança sobre a natureza, sistematicamente, sem hesitar. Quem está disposto a ouvir o barulho dos beija-flores antes que os sons das florestas sejam silenciados em pinturas de paisagens ou em imagens #TBT nas redes sociais? “A alegria do barulho desses beija-flores ninguém vai silenciar enquanto eu existir”. Viva Augusto Ruschi!


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