Folha de goiabeira para diarreia. Andiroba para inflamações. Em muitos lares da Amazônia, esses saberes atravessam gerações e seguem presentes no cuidado cotidiano. Ainda assim, por muito tempo, foram tratados como simples conhecimento popular, à margem da ciência. É justamente aí que surge uma pergunta incômoda e necessária: quem nasceu primeiro, a ciência ou a ancestralidade?
A sociobioeconomia se apresenta como um caminho capaz de conciliar desenvolvimento econômico, conservação da biodiversidade e inclusão social. Mas esse modelo perde força e sentido quando ignora a base de conhecimentos que historicamente sustentou a relação entre floresta, cuidado e vida.
Reconhecer a ancestralidade não é um gesto simbólico, é uma necessidade. É admitir que os saberes tradicionais também se constroem por observação, experimentação, transmissão e vínculo com o território. Sem esse reconhecimento, a sociobioeconomia corre o risco de valorizar apenas o produto que vem da floresta e apagar os conhecimentos que o tornaram possível.
Diversas descobertas posteriormente estudadas em laboratórios partiram de conhecimentos tradicionais.
Antes da formalização científica, a ancestralidade já identificava propriedades curativas em plantas, observava efeitos e transmitia resultados entre gerações. Um exemplo forte é o da artemisinina, substância natural extraída da planta Artemisia annua, utilizada há mais de dois mil anos na medicina tradicional chinesa, onde é conhecida como Qinghao e empregada no tratamento de febres.
Em 1972, a cientista Tu Youyou e sua equipe conseguiram isolar o princípio ativo da planta por meio de um processo de secagem das folhas e extração com solvente. Estudos laboratoriais posteriores indicaram sua eficácia contra o parasita causador da malária, inclusive em comparação com medicamentos já utilizados à época, como a cloroquina e a quinina. Os primeiros resultados clínicos foram publicados em 1979.
O curare, nome comum de compostos orgânicos venenosos, também ilustra esse processo. Aperfeiçoado ao longo de séculos pelos povos indígenas da Amazônia e aplicado nas pontas de dardos de zarabatana e flechas, induz um profundo relaxamento muscular, culminando na interrupção da respiração por meio da paralisia do diafragma. Posteriormente, pesquisas científicas investigaram seus princípios ativos, que contribuíram para o desenvolvimento de relaxantes musculares utilizados na anestesia moderna.
Casos como esses não diminuem a ciência; ampliam sua compreensão. Mostram que o conhecimento científico não surge do vazio, mas também da escuta, da prática e da experiência coletiva. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos desenvolveram, ao longo do tempo, sistemas próprios de cuidado e cura, expressos em garrafadas, banhos, infusões e no uso de ervas.
O desafio de aproximar ciência e comunidade
Se a proposta é construir um modelo mais justo e sustentável, será necessário aproximar comunidades, instituições, universidades e centros de pesquisa. Organizações como a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), por exemplo, podem fortalecer parcerias para validar, registrar e dar visibilidade ao conhecimento tradicional sem descaracterizá-lo.
Levar a ciência às comunidades, porém, não deve significar impor uma lógica externa. O verdadeiro avanço está no diálogo e no reconhecimento de que a evidência científica e o conhecimento empírico podem se encontrar sem que um precise anular o outro. Esse é, inclusive, um passo importante para superar a herança colonial que historicamente deslegitimou os saberes locais.
No fim, a pergunta do título talvez tenha uma resposta simples: a ancestralidade veio antes e a ciência, em muitos casos, veio depois para comprovar aquilo que os povos da floresta já sabiam. Reconhecer isso não é romantizar o passado, mas ampliar o futuro. Uma sociobioeconomia verdadeiramente transformadora não pode apenas extrair valor da floresta; precisa respeitar os saberes que, há séculos, sustentam a vida nela.
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