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Recém-descobertos e já ameaçados: cientistas descrevem três espécies de peixes

A descoberta dos peixes das nuvens, todos eles do Cerrado mineiro, alerta para o risco de extinção com avanço da soja e pecuária no bioma

Duda Menegassi ·
28 de outubro de 2026

Três novas espécies de peixes das nuvens foram descobertas em poças temporárias do Cerrado, no município de Paracatu, noroeste de Minas Gerais. Apesar de terem sido descritos pela ciência apenas agora, os pequenos peixes já enfrentam o risco de extinção devido à destruição dos ambientes onde vivem, especialmente pelo avanço da pecuária e da soja. 

As espécies, batizadas de Hypsolebias rosai, Hypsolebias baptistai e Hypsolebias maylermartinsi, foram apresentadas em um artigo científico publicado na revista Neotropical Ichthyology, com acesso aberto, que recomenda a classificação das três como Criticamente em Perigo, conforme os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

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Os peixes das nuvens ou peixes anuais são conhecidos por seu curioso e curto ciclo de vida, adaptado a ambientes aquáticos sazonais, como poças e lagos, que podem desaparecer completamente durante a estação seca. Esses animais vivem apenas alguns meses e depositam seus ovos no fundo das poças. Quando a água evapora, os adultos morrem, mas os embriões permanecem protegidos no solo, em um estado de dormência, tal qual uma “hibernação”. Com o retorno das chuvas, os ovos eclodem e uma nova geração surge nas poças recém-formadas. Essa capacidade de sobreviver à seca explica o nome popular: para quem observa esses ambientes, é como se os peixes aparecessem do nada, semeados pela água das nuvens.

Exemplar macho do recém-descoberto Hypsolebias maylermartinsi. Foto: Thomas Yoshinaga

As três espécies pertencem ao gênero Hypsolebias e foram identificadas a partir de exemplares coletados em março de 2023, na região do alto rio Paracatu, afluente do rio São Francisco. Os pesquisadores distinguiram os animais por características físicas, especialmente os padrões de coloração dos machos, que apresentam tons dourados, manchas escuras e detalhes azul-esverdeados. Uma das espécies, H. rosai, foi batizada em homenagem ao escritor João Guimarães Rosa, autor de “Grande Sertão: Veredas”, romance ambientado na região. As outras duas homenageiam o ambientalista Arsênio Caldeira Baptista Junior e o biólogo Mayler Martins.

O Hypsolebias baptistai foi encontrado numa única localidade do Cerrado de Minas Gerais. Foto: Dalton T. B. Nielsen

A descoberta veio acompanhada de um alerta. Cada uma das espécies é conhecida de uma única localidade e os ambientes onde foram encontradas já apresentam sinais de degradação. 

Nas áreas de ocorrência de H. rosai e H. baptistai, os pesquisadores registraram o aterramento de partes das poças para expansão do cultivo de soja, além da drenagem de áreas alagadas. Já no local onde vive H. maylermartinsi, foram identificados processos de erosão, assoreamento e modificações na poça para armazenamento de água destinada ao gado. A destruição desses ambientes ameaça não apenas os peixes adultos, mas também os ovos depositados no solo, comprometendo a continuidade das populações.

“A rápida degradação ambiental causada pela expansão agrícola no noroeste de Minas Gerais (bioma do Cerrado) ameaça a sobrevivência dessas populações endêmicas antes mesmo que sua biologia seja totalmente compreendida”, alertam os pesquisadores no artigo. Os autores apontam a urgência de proteger as áreas úmidas temporárias do Cerrado, frequentemente negligenciadas nas estratégias de conservação. 

Ainda segundo os cientistas, a escassez de pesquisas sobre ambientes aquáticos temporários pode explicar por que espécies como essas permaneceram desconhecidas por tanto tempo. Os levantamentos na região estavam praticamente estagnados desde 2006 e foram retomados nos últimos três anos. 

Estudos futuros devem se concentrar em análises genéticas, recomendam os pesquisadores, “e no estabelecimento de estratégias de conservação urgentes e direcionadas para proteger esses habitats aquáticos anuais altamente vulneráveis”.

Este conteúdo faz parte do projeto Cerrado em Pauta, com apoio do CEPF Cerrado

O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Franklinia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão, da Fundação Hempel, The Nature Conservancy e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade. 

O Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) atua como a Equipe de Implementação Regional do CEPF. A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e articulação de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica. →

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