Análises

O oceano que nos sustenta e o que está em jogo quando o coral branqueia

A conservação do oceano depende de gestores públicos e cidadãos que muitas vezes vivem longe do mar, mas cujas escolhas afetam diretamente os ecossistemas marinhos

Flávia Guebert ·
20 de julho de 2026

Quando pensamos em mudanças climáticas, é comum que venham à nossa mente imagens de secas, enchentes e ondas de calor. O oceano, no entanto, raramente ocupa o centro dessa história, embora seja ele o principal regulador do clima do planeta. É o oceano que absorve cerca de um quarto do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas e produz grande parte do oxigênio que respiramos. O equilíbrio da vida na Terra depende, diretamente, da sua saúde. E dentro desse complexo cheio de detalhes, existem estruturas que concentram vida de forma extraordinária: os recifes de coral.

Embora ocupem menos de 1% do fundo oceânico, os recifes abrigam aproximadamente 25% de toda a biodiversidade marinha conhecida. Funcionam como verdadeiras florestas submarinas, oferecendo abrigo, alimento e áreas de reprodução para milhares de espécies. Protegem o litoral da força das ondas, sustentam atividades pesqueiras e movimentam economias inteiras ligadas ao turismo.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



No Brasil, temos a responsabilidade e o privilégio de abrigar alguns dos mais importantes ambientes recifais do Atlântico Sul. Regiões como Abrolhos, no sul da Bahia, concentram uma biodiversidade única no planeta e desempenham papel estratégico para a conservação marinha global.

Mas os recifes estão sob pressão crescente. O aumento da temperatura dos oceanos, associado às mudanças climáticas, vem provocando eventos cada vez mais frequentes de branqueamento de corais. Em situações extremas, esses eventos podem levar à mortalidade em larga escala dos organismos que formam os recifes. Somam-se a isso problemas como poluição, ocupação desordenada da costa, descarte inadequado de resíduos e degradação de habitats costeiros.

Diante desse cenário, monitorar é fundamental. Não se protege aquilo que não se conhece. A ciência permite compreender como os ecossistemas estão respondendo às transformações ambientais e identificar tendências antes que elas se tornem irreversíveis. Desde a última onde de calor, em 2024, a Rede de Pesquisa do Coral Vivo, instituição que atua pela conservação marinha e recifes de coral no Brasil, realiza o mais amplo monitoramento já conduzido sobre o branqueamento de corais no Brasil, acompanhando recifes ao longo de mais de três mil quilômetros de litoral. O estudo revelou impactos significativos em diversas regiões e reforçou a necessidade de ações urgentes de adaptação e conservação.

Mas a ciência, sozinha, não é suficiente. Dados e descobertas precisam se converter em decisões, e essas decisões dependem de pessoas que se reconheçam como parte do problema, bem como da solução. É na junção do conhecimento científico e da ação coletiva da sociedade que se constroem as condições reais de mudança.

A conservação do oceano depende de comunidades costeiras, pescadores, educadores, estudantes, gestores públicos, empresários, turistas e cidadãos que muitas vezes vivem longe do mar, mas cujas escolhas afetam diretamente os ecossistemas marinhos. Ao longo dos últimos anos, iniciativas como centros de visitantes, exposições interativas, e atividades de sensibilização de forma geral e ações de comunicação científica têm buscado aproximar a sociedade do oceano. Quando uma criança descobre a diversidade dos recifes brasileiros em um livro, quando um visitante entra em contato com a beleza e a fragilidade dos corais em uma exposição ou quando uma comunidade participa de decisões sobre a gestão de seu território, criam-se vínculos que fortalecem o cuidado e a corresponsabilidade.

A experiência mostra que a conservação é mais efetiva quando construída de forma coletiva. Por isso, organizações da sociedade civil, universidades, órgãos públicos e comunidades locais têm atuado de forma integrada em diversas frentes. O fortalecimento de unidades de conservação, a participação em conselhos gestores, a elaboração de políticas públicas e o monitoramento ambiental são exemplos de ações que ajudam a transformar conhecimento em proteção concreta.

Nesse esforço, redes colaborativas desempenham papel essencial. Hoje, pesquisadores de dezenas de instituições brasileiras e internacionais trabalham de forma articulada para ampliar o conhecimento sobre os ambientes costeiros e marinhos, formar novos profissionais e gerar informações que orientem a tomada de decisão. Trata-se de um investimento não apenas em ciência, mas em futuro.

O oceano alimenta milhões de pessoas, abriga uma biodiversidade extraordinária e conecta culturas, territórios e economias. Cuidar dele não é apenas uma responsabilidade ambiental. É uma escolha sobre o futuro que queremos construir e também sobre quais espécies, culturas e paisagens queremos que existam para contá-lo.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Flávia Guebert

    Oceanógrafa e diretora do Projeto Coral Vivo, iniciativa nacional dedicada à conservação dos recifes de coral brasileiros.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
12 de janeiro de 2017

Branqueamento mata 70% do maior recife de coral do Japão

A mortandade dos corais ocorreu na lagoa de Sekisei, em Okinawa. Autoridades japonesas afirmam que o cenário chegou ao ponto de extrema gravidade

Reportagens
16 de abril de 2019

Cientistas detectam imenso branqueamento de corais no sudeste brasileiro

Causado pelo aquecimento anormal das águas do oceano, evento atingiu 80% das colônias, levando 2% à morte

Notícias
30 de julho de 2020

Maior índice de branqueamento de corais em 35 anos é registrado na APA Costa dos Corais

Expedição realizada nos recifes da APA Costa dos Corais, em Alagoas, detectou o maior evento de branqueamento desde 1985, devido ao aquecimento das águas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.