Externo

Na Amazônia, zonas eleitorais com mais evangélicos e brancos tendem a votar em candidatos contra o clima 

Análise exclusiva da InfoAmazonia cruza dados eleitorais e demográficos e identifica associação entre composição racial e religiosa das zonas eleitorais amazônicas e a queda no alinhamento à pauta climática

Infoamazônia ·
18 de setembro de 2026

Nas zonas eleitorais da Amazônia Legal com maior proporção de pessoas brancas ou evangélicas, o voto tende a se concentrar mais em candidatos que se posicionam contra a pauta climática. É o que mostra a análise exclusiva da InfoAmazonia que cruza dados eleitorais de 2022 com informações demográficas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
O resultado aprofunda uma tendência identificada no primeiro episódio da série Eleições em Mapas: entre 2010 e 2022, o eleitor da Amazônia passou a votar cada vez mais em candidatos de partidos menos favoráveis às pautas climáticas. Agora, ampliamos a análise dos dados para identificar — além da influência do valor da produção agrícola no voto da região, já identificado anteriormente — quais outros fatores também poderiam estar associados a esse movimento.
 
A composição religiosa das zonas eleitorais foi um dos fatores que mais se destacou na análise. “O pentecostalismo é uma nova forma de identidade urbana produzida para os pobres das cidades. Tem muito a ver com o desafio de viver na modernidade, onde é necessário ganhar dinheiro para sobreviver”, disse Bruno Paes Manso ao ser apresentado aos resultados do levantamento da InfoAmazonia. O jornalista e pesquisador investiga o avanço dos evangélicos no Brasil há anos e é autor do livro A Fé e o Fuzil, que mergulha na relação entre o crescimento das igrejas evangélicas e o crime organizado.

O peso dos brancos e evangélicos 

Na Amazônia Legal, segundo o IBGE, as pessoas pardas representam 65% da população; as pretas, 9,9%. Já os brancos, 22,3%. Ao conectar as zonas eleitorais com menos eleitores pró-clima ao critério de raça, a InfoAmazonia descobriu que a proporção de pessoas brancas tem um impacto na nota do local em relação ao tema. 

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Zonas com notas majoritariamente positivas, ou seja, mais a favor do clima, tendem a ter maior proporção de pessoas pretas e pardas; já as zonas com a maior parte das notas negativas tendem a ter maior proporção de pessoas brancas.  

Nas cinco piores zonas eleitorais em relação a pautas climáticas, a população branca é sempre acima de 22%; nas cinco melhores, esse percentual é, no máximo, de 10%. 

A análise também mostra que a relação entre alinhamento à pauta climática e proporção de evangélicos se repete em todos os estados da Amazônia. Há algumas variações – leia a metodologia aqui –, mas a tendência é a mesma em toda a região: quanto maior o percentual de eleitores evangélicos, menor a chance de uma zona eleitoral apresentar um resultado pró-clima. 

O que explica a conexão entre religião e meio ambiente? Manso não separa, durante a entrevista, “boi, bala e bíblia”. Para o pesquisador, a cultura do agronegócio, o bolsonarismo e as igrejas evangélicas se articulam em torno de uma mesma visão de mundo. “Qual é esse projeto de mundo dessa extrema-direita que junta boi, bala, bíblia, bets, mercado financeiro e tudo isso?”, pergunta. 

E ele mesmo responde. “É o seguinte: o Estado, como o PT e o PSDB acreditavam, não vai salvar a gente. Ele não é a solução, não é a salvação. Ele atrapalha a gente a ganhar dinheiro. Ele cria obstáculos, impede a gente de fazer grilagem, de fazer garimpo, de vender boi em terras indígenas e de criar gado em terras indígenas. Eles só atrapalham quem quer ganhar dinheiro”. Essa, segundo ele, é a visão de mundo e o ponto em comum entre as bancadas da bala, do agro e a evangélica.  

Em A Fé e o Fuzil, Manso apresenta outro levantamento, baseado em dados da Receita Federal, que mostra a expansão das igrejas evangélicas pelo país. Entre os casos mais emblemáticos está Rondônia. Em 1970, o estado ocupava a antepenúltima posição no ranking do número de igrejas entre os 27 estados. A partir de 2000, passou a figurar entre os cinco primeiros e permaneceu nesse grupo desde então.  

Segundo os dados analisados pela InfoAmazonia, Rondônia e Acre são os estados com a maior proporção de evangélicos. E os dois têm três das cinco zonas com a menor nota de alinhamento à pauta climática em toda a região: duas em Ji-Paraná e uma em Rio Branco. 

Para Ivan Silva, consultor científico para o Eleições em Mapas, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e vice-coordenador-geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL), três fatores ajudam a explicar a queda contínua nas notas de aderência climática do eleitorado amazônico: a guinada à direita no padrão de voto, impulsionada pelo conservadorismo e pelo peso eleitoral dos evangélicos; o avanço econômico do agronegócio, associado à atuação de pequenos partidos e ao financiamento de campanhas por acionistas do setor; e uma disputa cultural que ajuda a difundir os valores e o modelo de progresso associados ao agronegócio, por meio de manifestações como o sertanejo universitário e eventos regionais. “Você tem uma disputa cultural e ideológica pesadíssima. Isso é um problema”, afirma.  

Essa disputa não surgiu de repente. Paes Manso descreve “duas visões de mundo que estão ficando mais claras”. Uma delas emerge com a redemocratização, o Partido dos Trabalhadores, Lula e os movimentos sociais dos anos 70 e 80, baseada na ideia de trabalho coletivo. Seus símbolos estão ligados à Igreja Católica, que participou da formação do PT e dos sindicatos, a partir da seguinte lógica: a democracia está chegando, é preciso conscientizar os pobres para fazer algum tipo de trabalho coletivo, escolher representantes e formular políticas públicas voltadas para a construção de uma sociedade mais justa. Essa era a lógica da política nos anos 80, com a chegada da redemocratização.  

Mas o tempo passou e, segundo o autor, surgiu um “descrédito na política”. Apesar da redução da pobreza e da desigualdade, muitas pessoas – e isso é observado em diferentes regiões da Amazônia – passaram a entender que o coletivo não é o suficiente. Para resolver a própria vida, é necessário empreender e ganhar dinheiro para sobreviver nas cidades. 

“A floresta [representa] o oposto disso. Para eles [a direita da bíblia, boi e bala], a floresta é o interesse coletivo de comunistas, de globalistas, dos europeus, dos indígenas que são associados aos europeus. É uma ideia de projeto coletivo democrático do pós-guerra que está ficando cada vez mais em descrédito. É uma disputa entre essa proposta de projeto coletivo de sociedade e esse individualismo de sobrevivência das cidades, da prosperidade, de cada um ganhar dinheiro”, explica.  

É aí que, segundo Manso, a igreja evangélica ganha espaço. “São pessoas que, para conseguir sobreviver neste mercado e mundo, precisam também de uma crença. Precisam de um propósito para a sobrevivência”, diz. “É um tipo de teologia e de programação mental que os pentecostais produzem e oferecem às pessoas que conseguem acreditar nisso. Um instrumento mental de sobrevivência, de capacidade de empreender e de querer ganhar dinheiro, que ajuda essas pessoas a sobreviverem nas cidades”.  

Esta geonotícia foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com apoio do Instituto Serrapilheira.  

Análise de dados: Renata Hirota
Consultoria científica: Ivan Silva
Visualização de dados: Carolina Passos
Reportagem e coordenação: Carolina Dantas
Direção editorial: Juliana Mori 

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
4 de outubro de 2020

“A Amazônia já era!”: como a imprensa glorificou a destruição da floresta na ditadura militar

Pesquisa do botânico Ricardo Cardim explica as origens da destruição da Amazônia através de reportagens e propagandas oficiais dos tempos da ditadura

Salada Verde
28 de agosto de 2017

1/3 das áreas protegidas da Amazônia enfrentam problemas, diz estudo

As transformações poderão provocar desequilíbrio ambiental, provocando secas, enchentes, impactando na sobrevivência de espécies da fauna e da flora

Notícias
19 de julho de 2021

((o))eco lança ebook “Sob a Pata do Boi – Como a Amazônia vira pasto”; Saiba como baixar

Obra reúne as principais histórias de cinco anos de trabalho sobre a cadeia da pecuária e sua relação direta e indireta com o desmatamento ilegal na Amazônia brasileira

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.