Alguma vez você já se assustou com o preço do tomate? Em um dia ele dispara; no outro, despenca. Pouco depois, volta a subir tanto que você desiste até do molho da macarronada. E, quando menos espera, o preço cai novamente. E o que essa montanha-russa do preço do tomate plantado no Brasil tem a ver com a distante e isolada Antártica, o continente gelado lá no extremo sul do planeta? Essa conexão existe, mas talvez não seja tão óbvia.
Se você é um agricultor experiente ou é responsável por fazer a feira em sua casa, você sabe, ou supõe, que o tomate é uma fruta extremamente sensível às condições climáticas. Frio e chuva em excesso prejudicam sua produção, pois favorecem a disseminação de doenças; altas temperaturas e seca fazem com que as flores caiam, tornando o tomateiro inviável. Talvez o que nem todo mundo saiba é que a variação das temperaturas na Antártica influencia diretamente o regime de chuvas ou secas no Brasil e, consequentemente, a produção de tomates.
O ar frio da Antártica chega até o Sul do nosso país na forma de grandes massas de ar gelado e, ao encontrar o ar quente e úmido que vem da Amazônia, provoca as frentes frias, que causam chuvas no Centro-Sul de nosso território. E a chuva na medida certa é o que faz a plantação de tomates prosperar!
Mas e se isso sair do equilíbrio? Pesquisas científicas têm demonstrado um fenômeno que ocorre há milhares de anos: quando faz frio demais na Antártica, ocorrem chuvas catastróficas no sul do Brasil. E os impactos não param por aí. Estudos também apontam que a quantidade de gelo no Oceano Austral, que circunda o continente antártico, está relacionada à ocorrência de ondas de calor, secas severas, ventos mais intensos e até ao aumento de incêndios no Brasil.

E é por isso que o que acontece no aparentemente distante continente gelado pode afetar diretamente o que chega à nossa mesa. O excesso de chuvas pode quebrar as safras, enquanto as secas exigem maiores investimentos em irrigação. Em ambos os casos, a produção diminui, a oferta fica mais restrita e os preços dos alimentos tendem a subir nas gôndolas dos supermercados.
Tudo isso mostra que a Antártica é um dos grandes reguladores do clima no Brasil e que o tomate, assim como muitas outras culturas agrícolas, não reage bem aos extremos. Quem diria que o gelo de um continente tão distante poderia impactar diretamente o bolso do consumidor brasileiro?
Portanto, é mito a ideia de que a Antártica está isolada do restante do planeta. Ao contrário, ela faz parte de um sistema global altamente conectado. Juntamente com o Ártico, no extremo Norte do globo, desempenha um papel fundamental na regulação do clima da Terra. As regiões polares resfriam as águas oceânicas e impulsionam a circulação que conecta os oceanos do planeta, contribuindo para a distribuição de calor, nutrientes e gases atmosféricos. Alterações nessas regiões podem desencadear efeitos que se propagam por todo o planeta, alcançando inclusive a produção de alimentos no Brasil.
As regiões polares também apresentam características naturais fascinantes. Devido à inclinação do eixo da Terra, elas passam por longos períodos de escuridão durante o inverno e por dias que parecem não ter fim no verão. Nos meses mais frios, quando o oceano permanece coberto por gelo e a oferta de alimento diminui, muitas espécies migram para regiões menos inóspitas. Já no verão ocorre o fenômeno conhecido como Sol da Meia-Noite: o Sol permanece acima do horizonte durante semanas ou até meses, fornecendo luz praticamente contínua.
Toda essa luminosidade favorece a fotossíntese realizada por algas microscópicas e outros pequenos organismos marinhos, que se multiplicam rapidamente e formam uma enorme biomassa nas águas frias. Essa riqueza de organismos sustenta uma complexa cadeia alimentar, abastecendo o krill, peixes, lulas, focas e pinguins. A abundância de alimentos também atrai baleias e inúmeras aves marinhas que viajam milhares de quilômetros para se alimentar e acumular reservas de energia antes da chegada do próximo inverno. Algumas dessas aves e mamíferos, passam parte do ano no litoral brasileiro e retornam às regiões polares quando chega o verão. Portanto, a teia alimentar antártica não está restrita aos mares do extremo sul, mas envolve uma série de animais que se deslocam para diversas partes do planeta.

Mas a importância dos seres microscópicos fotossintetizantes vai muito além de servir de alimento para a vida marinha. Como são muitos, juntos, eles produzem uma parte considerável do oxigênio liberado na atmosfera todos os anos. O verdadeiro “pulmão do mundo”! Além disso, o Oceano Austral também absorve grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) proveniente da queima de combustíveis fósseis presente na atmosfera. Assim, parte do carbono “sequestrado” sai da atmosfera e passa a fazer parte desses organismos. Quando eles morrem, vão para o fundo do oceano e isso tem um impacto direto no clima: quanto menos CO₂ permanece na atmosfera, menor é o efeito estufa e, portanto, menor o aquecimento global. Por isso, essas regiões polares funcionam como uma espécie de “freio natural” dos efeitos da poluição sobre o clima da Terra.
Talvez você já tenha ouvido falar que a Antártica concentra cerca de 70% de toda a água doce do planeta. Boa parte dessa água está congelada. E é tanto gelo que, em algumas áreas, a própria crosta terrestre é tão pressionada que acaba “afundando”, ficando abaixo do nível do mar. Mas o mais incrível é que esse gelo não se formou de uma hora para outra. A neve caiu ao longo de milhões de anos, foi se acumulando e se compactando. À medida que camadas e mais camadas de gelo se sobrepunham, bolhas de ar ficaram aprisionadas em seu interior. Hoje, cientistas retiram amostras profundas desse gelo e conseguem “ler” a composição da atmosfera de épocas muito antigas a partir do ar que ficou retido dentro dessas bolhas. Esses registros, chamados de testemunhos de gelo, contam a história das mudanças naturais do clima e também revelam o momento em que as atividades humanas começaram a alterar esse equilíbrio.
Se a ciência já sistematizou esse conhecimento, por que você deveria se preocupar com isso? As razões são muitas. Uma delas é a extrema fragilidade do ambiente antártico. Uma simples mudança de temperatura, por exemplo, pode desestabilizar todo o sistema e afetar a vida que existe por lá, mas também o equilíbrio climático em outras partes do planeta. Imagine um cenário em que o aquecimento acelera o derretimento de uma geleira. Dentro desse gelo podem estar microrganismos antigos, ainda pouco conhecidos, que permaneceram aprisionados por milhares de anos. Com o derretimento, esses organismos poderiam ser liberados novamente no ambiente. Em teoria, alguns deles podem até ter potencial patogênico, ou seja, capacidade de causar doenças. Se são desconhecidos e se são patogênicos… apenas imagine… Mesmo que esse risco ainda esteja sendo estudado, ele ajuda a ilustrar como mudanças rápidas em regiões polares podem ter efeitos imprevisíveis e de alcance global.
Se você chegou até aqui com a sensação de estar lendo alguns desses assuntos pela primeira vez e que a Antártica para você era apenas um lugar cheio de neve, de frio extremo onde vivem pinguins, talvez esse seja um primeiro passo para desenvolver uma mentalidade polar.
Sim, a Antártica é um continente coberto por neve e gelo. É o lugar mais frio da Terra e abriga paisagens impressionantes e uma biodiversidade única. Mas ela é muito mais do que isso. A Antártica ajuda a regular o clima, influencia os oceanos, sustenta uma rica cadeia alimentar, guarda parte da história climática do planeta e, como vimos, pode até afetar o preço dos alimentos que chegam à nossa mesa.
A presença do Brasil na Antártica tem uma dimensão estratégica. Há mais de 40 anos, cientistas brasileiros das áreas de glaciologia, biologia, oceanografia, ciências atmosféricas e diversas outras enfrentam condições extremas para produzir conhecimento sobre um dos ambientes mais importantes do planeta. Compreender a Antártica é conhecer melhor o funcionamento do Sistema Terra e os processos que influenciam o clima, a biodiversidade e a sociedade brasileira. A qualidade da pesquisa realizada no âmbito do Proantar (Programa Antártico Brasileiro) garante ao país um lugar ativo entre as nações signatárias do Tratado da Antártica e do Protocolo de Madri, acordos internacionais que asseguram a preservação da natureza e o uso exclusivamente científico da região, reconhecida como um laboratório natural e um território de paz. É assim que temos voz nas decisões sobre o presente e o futuro do continente branco.
Mas para que a nossa presença nas regiões polares se mantenha é preciso algo além do financiamento de pesquisas: precisa de uma sociedade que as compreenda e as valorize. Construir uma mentalidade polar significa aprender a enxergar as regiões polares no próprio cotidiano, no preço do tomate, na intensidade das chuvas, no calor fora de época, e reconhecer que o derretimento das geleiras e a elevação do nível dos mares não são fenômenos distantes. Estão, silenciosamente, redesenhando o mundo em que vivemos. E o Brasil, para continuar contribuindo para a compreensão e a conservação desse ambiente único, precisa manter uma presença científica ativa na Antártica.
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Organizações religiosas se juntam em carta ao STF sobre riscos ambientais
Carta aberta aos ministros do Supremo, assinada por entidades de religiões diversas, alerta para julgamentos sobre o licenciamento ambiental, da Moratória da Soja e Marco Temporal →
Tentativa de anular ampliação da Estação Ecológica de Taiamã é inconstitucional, diz MPF
Projeto de Decreto Legislativo que tenta reverter ampliação da unidade de conservação no Pantanal mato-grossense representa grave risco de retrocesso ambiental, detalha MPF em nota técnica →
Ferramenta monitora o que os governos estão fazendo para enfrentar o El Niño
Lançado pelo Política por Inteiro, o monitor concentra ações da União, Estados e Municípios voltados à prevenção, ao monitoramento e à resposta aos impactos do fenômeno no Brasil →
