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Cientistas descobrem espécie de macaco que passou anos “escondida” na floresta congolesa

Primata, que já é considerado ameaçado de extinção por pesquisadores, escapou por décadas do radar de expedições científicas na República Democrática do Congo

Duda Menegassi ·
20 de julho de 2026

Uma nova espécie de macaco foi registrada na República Democrática do Congo. O pequeno primata pertence ao gênero dos Colobus, restrito às florestas tropicais do continente africano e altamente ameaçado. Chamado localmente de ‘likweli’, ele possui pelos pretos e longos pelo corpo, coroado com um estiloso “topete” e destaca-se pela boca, única parte sem pelagem, que exibe um contrastante tom alaranjado que pode se estender até a base das narinas.  

A descoberta do likweli (Colobus congoensis) não foi fácil. A primeira evidência do macaco data de 2008, quando o animal, então desconhecido, foi fotografado por uma expedição no alto da floresta, onde hoje é o Parque Nacional de Lomami. A imagem, porém, não era suficiente para identificar o primata misterioso. Dez anos depois, em 2018, uma equipe liderada pelo pesquisador Jean-Pierre Kapale, da Lukuru Wildlife Research Foundation, reencontrou o macaco, fazendo novas fotografias e reforçando as suspeitas de que tratava-se de uma espécie nova.

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O material fomentou uma busca entre 2018 e 2022 que somou 114 detecções, com 89 observações visuais, a maior parte delas dentro do parque. Além disso, os pesquisadores coletaram três indivíduos – um macho e duas fêmeas – encontrados mortos e confiscados de caçadores, que serviram de base para descrição. As análises das características físicas, crânio, e dos dentes, combinada com a genética e as vocalizações deram a confirmação inconteste da identificação de um novo macaco. É apenas a quinta espécie de primata descoberta no continente africano nos últimos 75 anos. Em todo continente são conhecidas mais de 200, que correspondem a cerca de 43% da biodiversidade de primatas do mundo.

A descrição foi publicada em artigo no periódico PLOS One, com acesso aberto, assinado por um time internacional de 11 cientistas.

A nova espécie vive em florestas maduras, com árvores altas e dossel fechado. Considerado de pequeno porte dentro do gênero (os exemplares coletados mediam cerca de 1,2 metro da cabeça à ponta da cauda, sendo mais de 70 cm só de cauda), o misterioso macaco foi encontrado na remota região entre os rios Lomami e Lilo, na bacia do alto Congo, no centro-leste da República Democrática do Congo, uma das regiões de maior importância biológica da África Central, com uma área de vida estimada em 1.700 km², menor que a média dos colobos. 

“Essa descoberta é ao mesmo tempo empolgante e profundamente pessoal, destacando a extraordinária biodiversidade da minha terra natal e o quanto ainda permanece pouco estudada”, reforça Junior Amboko, um dos autores do artigo e pesquisador local e explorador da National Geographic. “Tive a honra de batizar a espécie de ‘Colobus congoensis’, em reconhecimento ao notável patrimônio natural da Bacia do Congo e, acreditamos, marcando o primeiro primata a receber o nome da própria República Democrática do Congo – ressaltando tanto sua importância global quanto o orgulho local”, completa.

Macaco é conhecido localmente como likweli. Vídeo: Bernard Bonanga

A descoberta também reforça a importância do Parque Nacional de Lomami e sua zona de amortecimento, onde, em 2012, outra nova espécie de primata foi documentada: o lesula (Cercopithecus lomamiensis). 

“Continuamos sendo lembrados de que a Bacia do Congo segue como uma das últimas grandes fronteiras do mundo para a descoberta de mamíferos”, disse John A. Hart, autor do artigo e pesquisador da Lukuru Wildlife Research Foundation. 

De acordo com as análises, o parente vivo mais próximo do likweli é o colobo-negro (Colobus satanas). Atualmente as duas espécies estão separadas por mais de 1.200 quilômetros. “No entanto, nossas evidências genéticas mostram que as duas espécies se separaram há cerca de 4 a 5 milhões de anos, marcando uma das separações evolutivas mais antigas conhecidas dentro da linhagem dos colobos”, explica Kate Detwiler, da Florida Atlantic University e uma das autoras do artigo.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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