Reportagens

Rastreabilidade da soja e da carne esbarra na falta de integração

Estudo do WRI Brasil analisou 21 iniciativas no país e defende um protocolo nacional para conectar sistemas e critérios

Alice Martins Morais ·
17 de agosto de 2026

O Brasil já dispõe de um conjunto amplo de mecanismos para monitorar e rastrear as cadeias produtivas da soja e da carne bovina, mas essas ferramentas ainda funcionam de maneira fragmentada, com critérios e níveis de cobertura diferentes, o que dificulta o uso das informações por produtores, empresas, governos e compradores internacionais. A conclusão está em um estudo recentemente lançado pelo WRI Brasil, que aponta a integração entre essas iniciativas como um dos principais caminhos para aumentar a transparência e conferir mais credibilidade às exportações brasileiras.

O documento analisou 21 iniciativas utilizadas no monitoramento das cadeias da soja e da carne bovina, sendo dez voltadas à soja e 11 à pecuária, na Amazônia e no Cerrado. A análise identificou que o país já possui instrumentos sofisticados de fiscalização, rastreabilidade e verificação socioambiental, mas que eles não atuam de forma coordenada. Para os pesquisadores, portanto, o desafio não é necessariamente criar conovas regras, mas fazer com que os sistemas existentes “conversem” entre si. 

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“O Brasil possui um amplo ecossistema de sistemas e iniciativas. Não falta informação, mas o que acontece é que existe uma diferença entre elas que dificulta a aplicação consistente”, explica Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil. Entre os mecanismos analisados, estão protocolos de monitoramento, acordos voluntários, plataformas públicas, programas de certificação e sistemas de rastreabilidade. Alguns apresentam avanços importantes, mas há diferenças nos critérios utilizados e na forma como os dados são coletados e aplicados. Enquanto determinadas iniciativas, por exemplo, estabelecem o bloqueio de fornecedores associados ao desmatamento, outras se limitam a identificar alertas, sem necessariamente prever punições.

O estudo aponta ainda uma cobertura limitada dos chamados fornecedores indiretos, um dos principais desafios para garantir que a origem de uma commodity seja conhecida ao longo de toda a cadeia. Na pecuária, isso significa rastrear não apenas a propriedade onde o animal é abatido, mas também as fazendas pelas quais ele passou. Na soja, a rastreabilidade precisa alcançar a propriedade de origem mesmo quando o produto passa por intermediários.

Segundo o estudo do WRI Brasil, é importante haver um protocolo nacional integrado, capaz de estabelecer referências comuns e melhorar a interoperabilidade entre as bases de dados. A medida poderia harmonizar critérios técnicos, simplificar auditorias, ampliar a transparência e facilitar a compreensão dos sistemas brasileiros por compradores estrangeiros. O estudo também recomenda priorizar bases públicas já consolidadas, como PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite) e DETER (Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real), além de integrar informações ambientais, fundiárias e trabalhistas.

Entre as iniciativas destacadas por integrarem elementos de conformidade, estão o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado na Amazônia (PMFGA), o Protocolo Verde dos Grãos e a plataforma Selo Verde. No Pará, o Selo Verde é apontado como uma das experiências mais avançadas em transparência e padronização, por cruzar informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), alertas de desmatamento e dados territoriais, além de relacionar o histórico das Guias de Trânsito Animal aos imóveis rurais.

Fazenda de gado na região da Amazônia ao norte de Mato Grosso. Foto: Alberto César Araújo / Amazônia Real

Rastreabilidade pode alavancar novo projeto de desenvolvimento nacional

Para Oliveira, porém, a discussão sobre rastreabilidade não deve ser tratada apenas como uma resposta às exigências dos mercados internacionais. “A grande questão para o nosso país é pensar em como a gente não olha para a rastreabilidade simplesmente como uma exigência do mercado, mas, sim, num projeto de desenvolvimento do Brasil”, afirma.

A diretora defende que a integração dos sistemas também pode ser utilizada para apoiar produtores que desejam se adequar às exigências ambientais. “É importante enxergar as possibilidades de apoiar a agricultura familiar, cooperativas, coletivos de produtores e produtoras rurais para pensarmos na recuperação de áreas degradadas, na agricultura e na agropecuária de baixo carbono”, destaca.

O estudo apresenta dez recomendações para harmonizar os diferentes mecanismos, entre elas a adoção do CAR como referência para monitoramento, o cruzamento de dados ambientais, territoriais e trabalhistas, a ampliação da rastreabilidade de fornecedores indiretos e a criação de sistemas de bloqueio acompanhados por mecanismos de remediação e reintegração. “É importante frear, mas não adianta só tirar as pessoas, porque vão perder a fonte de renda. É importante oferecer alternativas de como esses produtores podem se readequar, incluindo linhas de crédito para tornar isso possível”, afirma.

Para Oliveira, essa agenda de monitoramento e rastreabilidade pode ser uma alavanca positiva para que a transição ecológica seja economicamente viável. “Estamos falando de gerar renda, empregos, alavancar créditos e finanças sustentáveis, tocando em temas super sensíveis como assistência técnica para produtores rurais, aumento de produtividade sem expansão sobre ecossistemas naturais, de incentivos comerciais e relações comerciais entre países e com fornecedores a longo prazo”, explica.

A discussão ganha relevância diante do peso das duas cadeias para a economia brasileira. Em 2024, soja e carne bovina responderam juntas por cerca de 60% do valor das exportações agropecuárias do país. O Brasil é o maior exportador mundial das duas commodities, enquanto a China é seu principal comprador. Ao mesmo tempo, novas exigências internacionais  aumentam a pressão por informações confiáveis sobre a origem dos produtos, como a legislação antidesmatamento da União Europeia, que requer que os exportadores comprovem que não houve ligação com desmatamento, degradação florestal e conversão de terras ilegais após dezembro de 2020, referente a 7 commodities: gado, cacau, café, óleo de palma, borracha, soja e madeira. 

Dez recomendações para alinhar os requisitos e harmonizar expectativa no setor

  1. Adotar o CAR como forma de monitorar e bloquear unidades que não atendem aos critérios socioambientais, mas para isso precisaria fornecer informações complementares com os dados de territórios do Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
  2. Priorizar as bases de dados estaduais e federais para assegurar padronização e tornar auditorias mais viáveis, como o PRODES e o DETER, que são fontes oficiais e cientificamente validadas, e ainda Autorização de Supressão Vegetal (ASV), considerar sobreposições territoriais e atenção às leis trabalhistas. “Ao mesmo tempo, ferramentas de monitoramento privadas como o Alerta MapBiomas e o Global Forest Watch, podem complementar as fontes públicas”, aponta ainda o estudo. 
  3. Garantir o cumprimento da legislação e a ausência de condições de trabalho análogas à escravidão, por  meio do cruzamento de sistemas de monitoramento ambientais, territoriais e trabalhistas.
  4. Seguir uma programação definida de auditorias e de relatórios de verificação, que devem ser publicamente compartilhados, para todos os mecanismos de monitoramento socioambiental do país.
  5. Assegurar cobertura territorial ampla nos protocolos de monitoramento e iniciativas, por meio da ação coordenada entre empresas, governos e outros stakeholders.
  6. Cumprir o Código Florestal (Lei 12.651/2012) e adotá-lo como critério mínimo de garantias ambientais, especialmente na Amazônia e Cerrado.
  7. Adotar compromissos voluntários de atingir a meta de zero desmatamento e zero conversão de terra em todos os biomas brasileiros, com prazos definidos pelo setor ou pelos protocolos corporativos. Esses compromissos devem ser alinhados com a NDC do Brasil para alcançar o desmatamento zero na Amazônia até 2030.
  8. Implementar total rastreabilidade de fornecedores indiretos na cadeia da soja e da carne, e os produtores rurais não devem esperar chegar aos prazos finais dos planos estaduais e federal para implementar a rastreabilidade individual no gado e os compradores de soja devem garantir rastreabilidade até a fazenda de origem por meio dos fornecedores intermediários.
  9. Implementar sistemas de bloqueio ou exclusão nas empresas para fornecedores que falharem nos critérios socioambientais, desde que essas medidas sejam acompanhadas por procedimentos de remediação e reintegração para evitar que o bloqueio por si só acabe incentivando um mercado paralelo ou informal. 
  10. Desenvolver grupos de supervisão dos procedimentos, incluindo a sociedade civil, as empresas, indústrias e agências do governo, para serem responsáveis por fiscalizar se essas iniciativas estão dando certo.
  • Alice Martins Morais

    Jornalista freelancer e especialista em Comunicação Científica. Sua cobertura foca especialmente em temas relacionados ao Meio Ambiente, Ciência e Amazônia.

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