O debate sobre desmatamento na pecuária brasileira costuma girar em torno de uma pergunta aparentemente simples: os frigoríficos sabem de onde vem o gado que compram? Na Amazônia, essa pergunta produziu mudanças importantes. Ao longo dos últimos anos, a combinação de pressão pública, exigências de mercado, atuação do Ministério Público Federal e acordos setoriais levou à criação de sistemas de monitoramento voltados para identificar irregularidades socioambientais nas fazendas fornecedoras de gado. Os avanços estão longe de resolver todos os problemas da cadeia, especialmente no controle dos fornecedores indiretos, mas estabeleceram um padrão mínimo de acompanhamento que antes não existia.
A pecuária brasileira, porém, não está restrita à Amazônia. E, infelizmente, a relação da cadeia da carne com o desmatamento também não. Os resultados da pesquisa Radar Verde Cerrado 2026 mostram que o problema vai além da qualidade do monitoramento feito pelos frigoríficos. Está também no fato de que boa parte das ferramentas criadas para controlar riscos socioambientais na cadeia da carne foi desenhada olhando para a Amazônia, não para o Cerrado. A pesquisa avaliou 225 empresas frigoríficas, responsáveis por 262 plantas localizadas no Cerrado, e encontrou um cenário de baixa transparência e controle insuficiente da cadeia produtiva. Apenas sete empresas demonstraram algum nível de controle sobre as fazendas fornecedoras diretas. Quando a avaliação considera também as fazendas fornecedoras indiretas, 96% das empresas foram classificadas com grau de compromisso muito baixo e 4% com grau baixo. Nenhuma alcançou grau intermediário, alto ou muito alto.
Esses números indicam uma fragilidade que vai além do desempenho individual das empresas. Grande parte dos instrumentos de controle desenvolvidos nas últimas duas décadas foi criada para responder ao desmatamento da Amazônia. Os TACs da Carne, os protocolos de auditoria e diversos sistemas de monitoramento nasceram para enfrentar um problema real e urgente naquele bioma. O resultado foi a construção de uma infraestrutura institucional relativamente sofisticada para acompanhar fornecedores localizados na Amazônia Legal.
O Cerrado, no entanto, possui outra dinâmica. O Código Florestal exige a preservação de 20% a 35% da vegetação nativa em fazendas rurais no bioma, enquanto na Amazônia esse percentual pode chegar a 80%. Isso significa que verificar apenas se houve ilegalidade não é suficiente para avaliar o cumprimento de compromissos empresariais contra o desmatamento ou contra a conversão de vegetação nativa. A pergunta deixa de ser apenas “houve irregularidade?” e passa a incluir “qual é exatamente o compromisso assumido pela empresa?” e “ele está sendo cumprido?”.
Os dados levantados pelo Radar Verde dão dimensão ao desafio. O Cerrado abriga 973.705 fazendas com pelo menos um hectare de pastagem. Dessas, apenas 209.481, ou 22%, estão dentro da Amazônia Legal, área onde se concentram os principais mecanismos de rastreabilidade desenvolvidos nas últimas décadas. As outras 764.224 fazendas, 78% do total, estão fora desse alcance. Isso não significa que todas essas fazendas estejam associadas ao desmatamento ou a irregularidades socioambientais, mas que para a maior parte das fazendas com pastagem no Cerrado não existe hoje um mecanismo de controle comparável ao que foi construído para a Amazônia.
A classificação do Radar Verde ajuda a mostrar onde essa lacuna aparece. Marfrig Global Foods S.A., Masterboi, Minerva S.A. e JBS S.A., as quatro empresas com maiores notas gerais na pesquisa, demonstraram pontuações superiores a 72 pontos no monitoramento das fazendas fornecedoras diretas. Quando a avaliação passa para as fazendas fornecedoras indiretas, no entanto, todas aparecem com apenas 2,88 pontos. Essa grande diferença mostra que, mesmo entre as empresas mais bem posicionadas, o controle se concentra na fazenda que vende diretamente ao frigorífico. O caminho anterior do animal, especialmente nas etapas de cria e recria, permanece quase invisível.
Essa fragilidade também aparece entre outras empresas bem posicionadas no ranking. Cooperfrigu, Carnes Boi Branco LTDA, Plena Alimentos S.A. e Agra Agroindustrial de Alimentos S.A. apresentam notas superiores a 67 pontos no controle de fornecedores diretos, mas pontuação zero no componente de fornecedores indiretos. Ou seja, mesmo quando há algum nível de controle sobre a compra direta, a rastreabilidade não alcança, de forma consistente, o histórico completo dos animais.
A ausência de resposta das empresas ao questionário enviado pelo Radar Verde reforça esse quadro. Nenhuma das 225 empresas avaliadas forneceu informações adicionais sobre suas práticas de monitoramento e controle de fornecedores de gado. Com isso, a avaliação precisou se limitar às evidências públicas disponíveis, como políticas divulgadas, documentos oficiais e resultados de auditorias independentes. A falta de resposta não prova associação com desmatamento, mas revela baixa transparência ativa em um tema que depende justamente de informação verificável.
O Cerrado já perdeu quase metade de sua vegetação nativa e, em 2024, registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada entre todos os biomas brasileiros. Foram 652.197 hectares, o equivalente a 52,5% de todo o desmatamento registrado no país naquele ano. Nesse contexto, a rastreabilidade da pecuária não pode continuar sendo tratada como uma agenda construída para um único bioma e depois simplesmente estendida aos demais.
Os resultados do Radar Verde Cerrado 2026 mostram que saber de onde vem o gado exige mais do que acompanhar a última fazenda antes do abate. Exige demonstrar controle sobre a cadeia completa, em um território onde a maior parte das fazendas com pastagem está fora dos mecanismos que historicamente organizaram a governança da pecuária na Amazônia. Enquanto essa lacuna persistir, a pergunta que abre o debate continuará sem resposta suficiente no Cerrado.
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