Cerca de 134 mil bois criados em fazendas desmatadas ilegalmente na Amazônia, com trabalho escravo ou indícios de lavagem de gado viraram bifes no prato de brasileiros e estrangeiros que importam carne nacional. É o que apontam dados divulgados pelo Ministério Público Federal (MPF) na manhã desta quinta-feira (20).
A instituição auditou as compras feitas por dezenas de frigoríficos em seis estados da Amazônia Legal (Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins) nos anos de 2023 e 2024 e encontrou irregularidades em todos os estados. Ao todo, o MPF identificou 134.630 animais abatidos ou exportados com irregularidades socioambientais na fazenda fornecedora.
Na média, apenas o Tocantins ficou dentro do índice considerado aceitável pelo MPF, de até 4% de problemas identificados na amostra. Os demais cinco estados, incluindo os maiores rebanhos do país, Mato Grosso e Pará, ultrapassaram a margem de tolerância estabelecida pela instituição. Considerando os frigoríficos, 32 unidades se mantiveram dentro do limite de até 4% de inconformidades, o que é considerado pelo MPF um ponto positivo.
“As ilegalidades representam uma fração ínfima da cadeia do gado”, pondera Frederico Siqueira, Procurador da República de Mato Grosso. “Nosso esforço é para jogar luzes não no que está errado, mas no que é feito dentro da lei”, completa.
“O desmatamento ilegal, a maior chaga a ser combatida, atinge no máximo 2% das propriedades rurais em relação ao desmatamento ilegal”, corrobora Daniel Azeredo, do MPF do Distrito Federal.

Este é o terceiro ciclo unificado de auditorias conduzidas pelo MPF sobre as compras de frigoríficos da Amazônia. O procedimento é parte do TAC da Carne, um acordo firmado entre MPF e frigoríficos que atuam no bioma para combater a criação de gado em fazendas desmatadas ilegalmente ou que tenham utilizado mão de obra em condições análogas à escravidão.
O MPF destacou que este foi o ciclo de auditorias “mais precisas da série histórica”. Um dos desafios das auditorias unificadas é justamente lidar com dados de origens diferentes – cada estado possui um sistema diferente de controle de rebanho e de regularidade ambiental. Por isso, neste ciclo, a Universidade Federal de Minas Gerais foi chamada a apoiar o levantamento de dados inicial, atuando para homogeneizar as informações prestadas por cada ente federativo.
“A qualidade do dado fornecido por cada estado influencia na qualidade do resultado”, explica Débora Assis, pesquisadora da universidade. “Com dados mais completos, temos melhor qualidade nas análises”, complementa.
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