Se o Brasil precisa avançar na rastreabilidade do gado para garantir maior sustentabilidade à cadeia da carne bovina, pode ser decisivo contar com um empurrão do principal comprador: a China. O país asiático compra quase metade da exportação da carne bovina brasileira (dados da Abiec – Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) e tem escala de mercado, capacidade tecnológica e financeira para influenciar investimentos e práticas produtivas, o que pode ajudar a transformar a rastreabilidade em um diferencial comercial, segundo especialistas.
“A relação Brasil-China já está bem estabelecida e tem um histórico que pode trazer incentivos para produtores e empresas para que possam ser capazes de alavancar mudanças a longo prazo”, afirma Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil. De acordo com ela, essa aproximação já começou a aparecer na agenda diplomática. Durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, em maio de 2025, Brasil e China firmaram memorandos para ações como intercâmbio de tecnologias, dados, pesquisas e conhecimentos sobre monitoramento de florestas, pastagens e outras formas de vegetação.
No comércio agropecuário, os dois países também vêm discutindo mecanismos para aproximar sistemas de certificação e rastreabilidade. Em 2025, Brasil e China trabalhavam na construção de um protocolo bilateral que poderia permitir o reconhecimento mútuo de certificações ambientais e sistemas de rastreamento para produtos como carne e soja. Em paralelo, o Porto de Tianjin – porta de entrada para parcela significativa da carne bovina brasileira importada pela China – há dois meses aceitou ser o piloto para a implementação da certificação Beef on Track (BoT, para testar o monitoramento e a conformidade socioambiental da carne bovina brasileira, uma iniciativa encabeçada pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

Pensar além da compra e venda de commodities
Camila Amigo, analista internacional do Conselho Empresarial Brasil-China, adverte que não se pode compreender o comércio agropecuário entre os dois países apenas em termos de volume. “Também pode funcionar como uma plataforma de investimento, inovação e construção dessas cadeias produtivas mais eficientes, sustentáveis e preparadas para o futuro”, analisa.
Segundo ela, o Brasil reúne capacidade produtiva, conhecimento científico e grande potencial para ampliar a oferta por meio de ganhos de eficiência, da recuperação de pastagens degradadas e da adoção de tecnologias mais eficientes, sem desmatamento. Já a China conta com as capacidades tecnológicas, industriais e financeiras, além de um mercado cuja escala pode influenciar decisões de investimento e práticas produtivas ao longo dessas cadeias.
A analista defende que agora é o momento de avançar para uma nova etapa dessa relação comercial, ainda mantendo a preocupação com a segurança alimentar, mas agregando um cuidado de sustentabilidade, inovação tecnológica e resiliência climática.
O peso econômico da China ajuda a explicar esse potencial. Em 2023, o país asiático recebeu 74% das exportações brasileiras de soja, enquanto as vendas de carne bovina chegaram a cerca de 1,33 milhão de toneladas em 2024, conforme relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne. Somadas, soja e carne representam uma parcela expressiva do comércio agropecuário entre os dois países.
A influência chinesa sobre a produção brasileira, porém, não é apenas uma possibilidade futura. Um exemplo, lembra Camila Amigo, é a chamada “experiência Boi-China”, conjunto de requisitos sanitários e comerciais aplicados às exportações de carne para aquele mercado. Entre eles está a exigência de que o animal seja abatido antes de completar 30 meses.
“Embora o objetivo original fosse sanitário, esses requisitos criaram incentivos para que os produtores brasileiros aprimorassem a nutrição animal, o manejo das pastagens e a eficiência produtiva. Com um ciclo de produção mais curto, acompanhado de práticas adequadas, é possível contribuir para reduzir as emissões de dióxido de carbono por quilo de carne produzida”, explica.
O próximo passo seria fazer com que esse tipo de influência também alcance a dimensão ambiental da cadeia, especialmente a identificação da origem dos animais e a verificação de eventuais vínculos com desmatamento.
De acordo com estudo publicado recentemente pelo WRI Brasil, o Brasil já possui parte da infraestrutura necessária. O estudo analisou 21 iniciativas na Amazônia e no Cerrado e identificou diferenças nos critérios, na coleta de dados e, principalmente, na capacidade de acompanhar fornecedores indiretos, um dos principais gargalos da pecuária.
A conclusão foi de que o Brasil já dispõe de um conjunto amplo de mecanismos para monitorar e rastrear as cadeias produtivas da soja e da carne bovina, mas essas ferramentas ainda funcionam de maneira fragmentada, com critérios e níveis de cobertura diferentes, o que dificulta o uso das informações por produtores, empresas, governos e compradores internacionais.
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