Nesta terça-feira, 1º de setembro, é celebrado o Dia Mundial de Primatas. Em Delmiro Gouveia, no interior de Alagoas, porém, apenas um deles é o protagonista da data: o macaco-prego-galego. A relação do município alagoano com o macaco ameaçado de pelagem dourada ganhou força como resultado do esforço de um projeto de pesquisa que busca jogar luz sobre as populações do primata que vivem na Caatinga – onde a espécie era uma ilustre desconhecida da ciência até sete anos atrás.
O macaco-prego-galego (Sapajus flavius) é um animal 100% brasileiro, que divide seu território entre a Mata Atlântica e a Caatinga nordestina nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
“O macaco-prego-galego é muito bem estudado na Mata Atlântica, mas na Caatinga ainda não tinha sido feito nada sistemático, com coleta de dados contínua”, explica o pesquisador João Pedro de Souza Alves, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor da Universidade Estadual do Maranhão. O primatólogo lidera o trabalho com a espécie desde 2023 em Delmiro Gouveia, numa porção do município sobreposta pelo Monumento Natural (Mona) do Rio São Francisco. João coordena a iniciativa ao lado da mestranda Gabriella Rufino, do Programa de Pós-graduação em Biologia Animal da UFPE.
Inicialmente descrita em 1774, pelo zoólogo alemão Johann von Schreber, a espécie desapareceu do radar científico por mais de 200 anos até ser redescoberta em 2006, na Mata Atlântica nordestina. Por anos acreditou-se que esta era a distribuição do macaco-prego-galego, até que o animal foi identificado na Caatinga potiguar, em 2019.
E ainda há incertezas sobre a real distribuição da espécie no bioma.
Dessa lacuna, veio a motivação que resultou na criação do Projeto de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos do Alto Sertão (Promaser) de Alagoas, com ênfase no macaco-prego-galego. A iniciativa é a primeira a realizar o monitoramento contínuo da espécie, graças a ajuda das armadilhas fotográficas. Atualmente há 22 câmeras espalhadas, a maioria (16) no Mona e as outras seis no Refúgio de Vida Silvestre dos Morros do Craunã e do Padre, no município vizinho de Água Branca (AL), para onde o projeto expandiu a pesquisa recentemente.

O projeto conta com um time atual de nove pesquisadores, focados em diferentes áreas, e apoio da Re:wild, da International Primatological Society (IPS) Research Grant, do Lawrence Jacobsen Education Development Grant e da Universidade Estadual do Maranhão.
Além do monitoramento, o Promaser tem investido em ações de sensibilização e educação ambiental nas comunidades e escolas locais, para tentar diminuir conflitos humanos com os primatas, conscientizar as pessoas sobre a importância e o risco de extinção enfrentado pela espécie e engajar os moradores na conservação do macaco-prego-galego. O projeto também aposta na relação com os moradores por meio da ciência-cidadã, convocando os moradores a contribuírem com informações e relatos sobre a presença da espécie no Alto Sertão.
“Nós temos realizado atividades nas escolas, principalmente as escolas da zona rural ali perto dessas partes dos cânions do Mona, em Delmiro Gouveia, com o intuito de apresentar pra essas crianças e gerar essa sensibilidade pelo macaco. Além disso, temos feito rodas de conversa em um centro comunitário para dialogar com moradores, pescadores, artesãos, para poder discutir um pouco sobre esse convívio da população com o macaco no Povoado do Salgado”, detalha Gabriella Rufino. Para isso, o projeto contou com um parceiro fundamental: a prefeitura de Delmiro Gouveia.

Um macaco celebrado no sertão alagoano
A aproximação do Promaser com a prefeitura, por meio da Secretaria de Meio Ambiente municipal, resultou na lei, sancionada em junho, que transforma o primata em símbolo e patrimônio da biodiversidade de Delmiro Gouveia. Além disso, a lei cria o Dia Municipal do Macaco-Prego-Galego instituído em 1º de setembro – assim como o Dia Mundial dos Primatas.
A data visa promover atividades de educação ambiental, especialmente em escolas, a divulgação das pesquisas e do monitoramento da espécie, assim como a promoção de ações de conservação.
A Lei Municipal 1.529/2026 destaca que “serão tomadas medidas, estabelecidas em planejamento estratégico, de educação, de natureza científica, de avaliação, de conscientização e de deliberação, capazes de proteger e conservar esse patrimônio da biodiversidade municipal”.
A programação do município em celebração à espécie se estenderá até quinta-feira (3), com plantio de mudas nativas da Caatinga junto com alunos da rede municipal no Povoado Salgado, um dos locais de ocorrência do primata; oficina pedagógica sobre o macaco-prego-galego; atividades de educação ambiental e sensibilização; e trilha interpretativa.
“Estamos planejando ações no Povoado do Salgado, onde está um grupo de macacos que vem sendo monitorado pelo projeto, atividades de educação ambiental em escolas e uma blitz informativa aqui na área urbana do município para falar sobre o macaco-prego-galego”, completa Marco Antônio Diniz, secretário de Meio Ambiente de Delmiro Gouveia.
O secretário, no cargo desde 2021, foi quem abriu as portas para os pesquisadores no município para começar a costurar a parceria entre a prefeitura e o Promaser. Ele acredita que a conservação faz parte do DNA de Delmiro, já que 43% do território é abrangido pelo Monumento Natural do Rio São Francisco e sua zona de amortecimento.
O macaco será estampado em pontos de ônibus, dentro da secretaria e em outros locais públicos, adianta o secretário. “O que a gente espera é que a comunidade, a médio e longo prazo, realmente reconheça, abrace a causa e veja a importância de o município ainda ter essa espécie aqui. Uma espécie que até então não era conhecida nem estudada na Caatinga, e termos esse animal, é parte da riqueza do nosso semiárido. Queremos gerar esse pertencimento dos moradores com a espécie através da educação ambiental”, resume Marco Antônio.

A pesquisadora Gabriella completa: “Desde que chegamos em Delmiro, nós percebemos que muitas pessoas no município não conhecem o macaco, principalmente as pessoas que moram na cidade. E nós fazemos essa apresentação reforçando que é uma espécie que não é conhecida em muitos locais além dali e fazê-los valorizar essa presença”.
Já nos povoados, onde a relação com o primata já existe, o foco é promover uma relação mais harmônica e desmistificar a suposta “agressividade” do macaco-prego-galego.
Além dos conflitos humanos por retaliação ou medo, a principal ameaça para a espécie é a perda, alta fragmentação e degradação do habitat, que possui uma área de ocupação conhecida de apenas 488 km² – menor que Maceió. A retirada de macacos da natureza pela caça, apanha ou mesmo conflitos com humanos, agrava as perspectivas de conservação do macaco-prego-galego. No país, a espécie é avaliada pelo ICMBio como Em Perigo de extinção, com uma população total estimada em dois mil indivíduos.
Na Caatinga, as mudanças climáticas e o risco de desertificação na área de vida do primata são outra preocupação que paira sobre o futuro da espécie.
Particularidades na Caatinga: o uso de ferramentas
O monitoramento do macaco-prego-galego no sertão tem revelado comportamentos únicos para a espécie. “Na Caatinga, aparentemente, ele está tendo que se comportar de outra forma, como por exemplo com o uso contínuo de ferramentas. Ao contrário da Mata Atlântica, onde não é algo habitual, só há um registro desse comportamento”, explica João Pedro.
Isso levou os pesquisadores a mapear os sítios de quebra, onde eles fazem uso regular de pedras como ferramenta para quebrar e acessar alimentos, como coquinhos.
Outra particularidade da espécie no bioma é o maior uso do chão, tanto para deslocamento quanto para buscar comida. Além disso, a alimentação dos macacos sertanejos possui uma diversificação maior. O cardápio vai desde pequenos vertebrados, como calangos, saguis e galos-de-campina, até crustáceos terrestres, lagartas e os frutos de quatro das cinco espécies de cactos que ocorrem na região, o que exige deles habilidades específicas para manusear e remover espinhos, destacam os pesquisadores.
“Ele tem que ter uma habilidade para subir no cacto, arrancar o cacto cheio de espinhos, manusear o cacto… E muitas vezes eles têm usado a ferramenta para abrir ou provavelmente para tirar esses espinhos do fruto para poder comer”, destaca o professor.
Próximos passos
Com os dados gerados por meio do monitoramento, os pesquisadores, com apoio da prefeitura, querem propor um novo zoneamento para o Monumento Natural, que amplie as zonas de preservação, atualmente restritas à borda do cânion, para incluir áreas com populações do macaco-prego-galego e outras espécies ameaçadas, como o gato-mourisco e a jaguatirica.
“Já tivemos essa conversa com o ICMBio e eles estão começando a se movimentar para transformar o zoneamento de áreas conhecidas de ocorrência em áreas mais restritivas, para reduzir a pressão”, adianta o secretário de Meio Ambiente.
Marco Antônio explica ainda que há um esforço da prefeitura para criação de um parque municipal, com 214 hectares, no povoado de Cruz, sobreposto à zona de amortecimento do Monumento Natural, para aumentar a proteção de um remanescente importante para o primata. “É uma área muito rica, que concentra uma diversidade de espécies da fauna e flora, com espécies ameaçadas”, destaca o secretário. O processo, porém, está parado devido à resistência da comunidade local, contrária à proposta.
Além disso, os pesquisadores estudam propor que os sítios de quebra onde os macacos-pregos-galegos usam as pedras como ferramenta, sejam protegidos assim como os sítios com pinturas rupestres. Manter esses espaços significa preservar a transmissão desse comportamento, que é passado de geração em geração entre os macacos, explicam.
“A ideia é que Delmiro seja um exemplo pra região, né? Queremos que os outros municípios que têm a presença do macaco-prego-galego olhem pra Delmiro e queiram seguir esse modelo”, afirma João Pedro, que pretende expandir o monitoramento do Promaser para novas áreas de Caatinga, inclusive fragmentos melhor preservados, para entender os impactos da degradação ambiental no comportamento e ecologia da espécie.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Governo da Bahia (enfim) oficializa criação de área protegida na Serra da Chapadinha
Decreto que cria o Refúgio de Vida Silvestre Serra da Chapadinha, na porção sul da Chapada Diamantina, foi assinado nesta segunda-feira (31) →
Virada Cultural Amazônia de Pé traz 5ª edição com apelo por voto pela Amazônia
Evento será nesta semana e traz o tema “A política começa no território”, para convocar eleitores a votarem de olho na proteção da maior floresta tropical do mundo →
Catástrofes climáticas afetam primeiro os mais pobres
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a França incentivou ocupações em áreas agrícolas hoje mais vulneráveis a catástrofes naturais →
